O bebê de tarlatana rosa

Por Ernani Terra ©

Terminadas as festas de fim de ano, começam os preparativos para o carnaval e todos têm alguma história de carnaval para contar. Na minha opinião, o conto O bebê de tarlatana rosa, de João do Rio,  é um dos melhores contos brasileiros cuja história se passa no período carnavalesco. No livro, O conto na sala de aula, que escrevi em parceria com Jessyca Pacheco, comentamos esse conto e o reproduzimos na íntegra. Aqui, falarei dele em rápidas pinceladas.

Em O bebê de tarlatana rosa, um narrador instala no texto uma personagem que narra a própria história (Heitor de Alencar), ocorrida em um carnaval no Rio de Janeiro no mesmo ano em que os fatos são narrados, como se pode observar por este trecho: Eu mesmo este ano tive uma aventura…”. Este ano significa o ano em curso. Há, portanto, uma defasagem temporal pequena entre o narrar (enunciação) e o narrado (enunciado), de sorte que Heitor pode contar com riqueza de detalhes o acontecimento, já que ele é recente.

Heitor conta que,  no carnaval, saiu com alguns companheiros e, depois de percorrer alguns salões, foi ao baile público do Recreio, onde sente que uma foliona vestida de bebê de tarlatana (um tipo de tecido leve de algodão) rosa se roçava nele. Reparando nela,  notou que tinha um nariz postiço. Heitor dá um beliscão no bebê e com os amigos abandona o local para ir a um baile em lugar mais refinado. No domingo, reencontra o bebê e este lhe dá um beliscão, retribuindo o que recebera de Heitor no Recreio.

Heitor não vê o bebê na segunda. Na terça, às três da manhã, carnaval acabando, não tendo ainda encontrado um par que satisfizesse sua luxúria, encontra, andando pela cidade, mais uma vez o bebê. Pergunta a ele se está esperando alguém e, frente à resposta negativa, propõe que o bebê vá com ele e atreve-se a dar-lhe um beijo. O bebê recua, deixando Heitor louco. O bebê  insistia: Aqui não. Heitor passa os braços na cintura do bebê e sai andando com ele. Excitado, chega a uma rua escura, onde aperta ainda mais a foliona e propõe irem à casa dela, o que ela recusa. Heitor, mesmo na rua, aperta-a e beija-a. Na aproximação física, sente seu nariz roçar no nariz postiço da foliona e pede que ela tire o nariz, mas ela nega, dizendo que depois é difícil de colocar. De repente, Heitor arranca o nariz postiço do bebê e vê uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz. Larga imediatamente a mulher horrorizado, enquanto o bebê chorava, pedindo perdão e dizendo que não tinha culpa, pois fora Heitor quem quisera. Heitor a sacode e tem vontade de cuspir nela, de bater nela, quando ouve um apito do guarda e sai correndo como um louco. Quando chega em casa, vê que sua mão apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa.

No vídeo abaixo, Antônio Abujamra interpreta o conto de João do Rio.

Como está claro desde o início do conto, os fatos narrados ocorreram durante o carnaval e duraram exatamente os quatro dias dos festejos, que são chamados por Heitor de “quatro dias paranoicos”, terminando na madrugada de quarta-feira de cinzas. A passagem do tempo é marcada por expressões linguísticas, como as que estão em destaque nos seguintes trechos: “No primeiro dia, no sábado, andamos de automóvel […]”; “Mas no domingo, em plena avenida, […] senti um beliscão […]”; “e segunda-feira não o vi também”; “Na terça desliguei-me do grupo […]”; “Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas.

O que caracteriza os textos narrativos é a temporalidade, isto é, os acontecimentos se sucedem na linha do tempo. Quando falamos em temporalidade, é preciso distinguir: a) o tempo dos acontecimentos, que pode ser passado, presente ou futuro e b) a passagem do tempo, marcada por expressões adverbiais, como as que destacamos acima.

Quanto ao espaço, temos a cidade do Rio de Janeiro. Sobre esse elemento, destacamos dois aspectos: 1) a ancoragem da narrativa a lugares reais do Rio de Janeiro, como “Recreio”“rua de S. Jorge”, “largo do Rocio”, “rua Leopoldina”, “edifício das Belas Artes”, “rua Luís de Camões”, confere um sentido de realidade ao texto; 2) embora, no momento da narração, Heitor relate os fatos em um espaço fechado, reclinado em um divã, os acontecimentos narrados ocorrem em espaços abertos, as ruas do Rio de Janeiro.

O bebê de tarlatana rosa se constrói sobre o tema da luxúria, revestido por figuras relativas ao comportamento lascivo, relacionadas aos festejos carnavalescos: “transportes da carne”, “desejo”, “vagalhão de volúpia”, “prazer da cidade”, “íncubos”, “depravação”. Quanto ao bebê, encontramos figuras como “rostinho atrevido”, “dois olhos perversos”, “boca polpuda como se ofertando”, “voz arfante e lúbrica”, “bestial desejo”.

Todas essas figuras subsumem-se em uma arquifigura, o carnaval, na medida em que não só reveste o tema da luxúria, como também figurativiza o tempo da luxúria. No carnaval, as coerções sociais que cerceiam os instintos são atenuadas e a busca do prazer sexual dos sujeitos se manifesta com maior intensidade, como se o carnaval fosse a época da libertinagem. Observe a fala do bebê: “Só no Carnaval é que eu posso gozar”. Há uma tonificação dos desejos para assinalar o transbordamento das paixões nessa  época como fica evidente em: “Não há quem não saia no Carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias”.

A satisfação dos instintos reprimidos que se liberam no carnaval está associada a figuras que remetem ao sórdido, àquilo que é considerado baixo, marginal, escondido, como atestam as figuras “maxixes mais ordinários”, “gente ordinária”, “fúfias”, “acanalhar-se”, “enlamear-se”, “ruelas lôbregas”, “maiores crimes”, “rua, escura e sem luz”. Heitor, embora possa frequentar ambientes mais luxuosos, por ser um homem de posses, vai buscar o prazer em lugares escondidos e “mal frequentados”. O prazer é buscado no baixo, no escondido. Gozar é descer a essas profundezas.

Outra figura-chave do conto e que se associa ao carnaval é a máscara. Se nessa época há a busca da satisfação dos instintos, a máscara favorece o alcance desse intento, por esconder o sujeito, apagando-o como figura social, passível de sanções. No caso do bebê, a máscara era a única formar de possibilitar-lhe a realização do desejo lascivo.

O conto trata, em seu nível mais profundo, da oposição  /luxúria v. temperança/, que engloba a oposição /pulsões individuais v. coerções sociais/. Negam-se a temperança e as coerções sociais e afirmam-se a luxúria e as pulsões individuais, que no conto são valorizados. No entanto, é preciso observar que essa liberação de instintos tem duração efêmera, o tempo do gozo, pois, como diz a letra de uma canção popular, “Amanhã tudo volta ao normal”.

PS: a pessoa sem nariz aparece também num conto genial de Gogol, chamado O nariz. Trata-se de uma narrativa fantástica de um sujeito que, de repente, se vê sem o nariz e sai a procurá-lo.

 

 

Qual o erro da manchete?

Por Ernani Terra ©

Leia, pense um pouco e responda qual o erro desta manchete de jornal?

Se você falou que o erro está na concordância, não está errado, mas o problema dessa manchete vai muito além de um erro gramatical, pois para construir o sentido você teve de fazer um esforço desnecessário. Além do que, ao lê-la, achou que havia alguma coisa estranha. Em outras palavras: a manchete não é muito clara.

O grande problema dessa manchete não é o erro gramatical em si, mas o fato de ela estar muito mal redigida. Erros gramaticais podem ou não comprometer a inteligiblidade do texto. Quando você depara como uma placa com os seguintes dizeres:

TROCA-SE BATERIAS DE CELULAR

você não precisa fazer o menor esforço para entender que ali você pode substituir a bateria do celular, embora as gramáticas digam que há um erro de concordância, pois o sujeito é “baterias” e, por isso, o verbo deveria estar no plural.

TROCAM-SE BATERIAS DE CELULAR

A maioria das pessoas nem entende que o sujeito é “baterias”, mas que alguém faz a troca da bateria. Em TROCA-SE BATERIAS DE CELULAR,  embora haja um “erro”, ele não compromete o sentido da mensagem.

No nosso dia a dia encontramos muitos textos com “erros” e nem percebemos, simplesmente porque eles em nada prejudicam que entendamos a mensagem, isto é, são claros e atendem ao propósito comunicativo. Apenas gramáticos e professores de português veem o “erro” desses textos, portanto do ponto de vista da Linguística, nem podemos falar em erro.

Volto à manchete. Há de fato nela desvios em relação às regras da gramática normativa. Vamos a eles:

As gramáticas afirmam que se o sujeito for representando por expressão que exprime porcentagem a concordância deve ser feita:

a) com o numeral da expressão
80% não tomaram a vacina.
1% não tomou a vacina.

b) se a porcentagem vier especificada, a concordância deve ser feita com a o substantivo da expressão partitiva (de + substantivo). Se for plural, o verbo irá para o plural, se singular, o verbo fica no singular.

80% dos moradores não tomaram a vacina.
80% da população não tomou a vacina.

Mas se a expressão partitiva vier antes do numeral que indica porcentagem, a concordância deve ser feita obrigatoriamente  com esse numeral.

Da população de Guarulhos, 80% não tomaram vacina.

Volte à manchete e tente aplicar a regra estabelecida pela gramática normativa. Ficaria assim.

80% da população de Guarulhos falta se vacinar contra a febre amarela

Mesmo assim não ficou bom. Por quê? Você já deve ter percebido. O verbo faltar não está faltando, pelo contrário está sobrando. Como o redator colocou o verbo faltar, você precisa fazer um esforço danado para descobrir o que falta, isto é, o sujeito dele. O que falta é “se vacinar contra a febre amarela”, que é o sujeito de falta. Falta a quem? A 80% da polução de Guarulhos. De acordo com as regras da gramática, a manchete teria de ser escrita assim:

FALTA A 80% DA POPULAÇÃO DE GUARULHOS VACINAR-SE CONTRA A FEBRE AMARELA

Ufa! Agora está “correto”, mas continua errado, porque não é uma boa manchete. Concordam? A ordem dos termos não é boa, não é direta, apresenta uma sintaxe pouco usual, exigindo do leitor uma maior esforço para processá-la.

Isso mostra que escrever bem é escrever de forma clara, de sorte que aquilo que temos na nossa cabeça possa ser colocado na cabeça do leitor e isso vai muito além de se saber as regras da gramática.

Bastaria ao redator não querer enfeitar e escrever de forma direta:


80% DA POPULAÇÃO DE GUARULHOS NÃO SE VACINOU CONTRA A FEBRE AMARELA

PS. Antes que me perguntem se em “se vacinou” há um “erro” porque as pessoas não vacinam a si mesmas, esclareço que esse SE não é reflexivo, isto é, não é o mesmo SE de Ele cortou-se (= cortou a si mesmo). Vacinar pode ser empregado com ou sem pronome. Podemos dizer:

A Secretária da Saúde de Guarulhos vacinou duas pessoas só neste sábado. 

Marcos vacinou-se contra a febre amarela.

Matéria Derradeira

 

Por Ernani Terra ©

Neste post, faço algumas considerações sobre o livro, Matéria derradeira, de Jessyca Pacheco, publicado pela Editora Córrego, lançado no segundo semestre de 2015. É seu livro de estreia e apresenta trinta poesias e um conto, Fragmentos

Neste texto,  não vou fazer análise ou comentário de algum texto em particular. Os motivos são dois: o primeiro é que não quero tirar o prazer do contato direto com os textos de Jessyca Pacheco; o segundo é que este blogue não é o espaço adequado para análises teóricas de textos. Meu propósito é indicar bons livros, seja de autores consagrados ou estreantes, com algum comentário sobre eles.  Caso haja interesse numa análise teórica do livro, remeto o leitor para artigo de minha autoria, publicado em 2017, na Revista Entretextos, da Universidade Estadual de Londrina, em que discuto dois dos textos presentes no livro. Clique na capa da revista para ler o artigo.

 

Matéria Derradeira é o que se pode chamar de um pequeno grande livro. Nas

Matéria Derradeira está à venda no site da Editora Córrego. Clique aqui.

suas 45 páginas, encontramos textos de uma poeta de grande magnitude. É impossível ler a poesia de Jessyca Pacheco impunemente. Temas como o dilaceramento e o inacabamento do ser conferem unidade temática ao livro e são revestidos por figuras que cortam e deixam sangrar, como “corpos em chama”, “leite empedrado, estéril”, “lambo antigas feridas”, “matéria mortuária”, “prematuro natimorto do ventre sugado”.

O livro pode ser lido de diversas formas e, a cada leitura, novos sentidos emergem. Tenho para mim que o livro de Jessyca Pacheco é um mosaico, formado por 30 pedras coloridas, as 30 poesias do livro. Cada peça é uma unidade autônoma, feita de material diferente, com seu brilho próprio. As peças diferem entre si na expressão, mas se relacionam num conteúdo harmônico: uma diversidade que forma uma unidade, de sorte que as 30 poesias, as trinta peças do mosaico, formam o todo, que será lido como uma nova poesia. Mutatis mutandis, algo semelhante ao que faz Cortázar em O jogo da amarelinha.

Uma primeira leitura que se pode fazer do livro de Jessyca Pacheco é ler cada peça do mosaico em sua autonomia, pois as 30 poesias são unidades de sentido. A outra leitura, que decorre da primeira, resulta da percepção do leitor de que no livro instala-se o contínuo no descontínuo, isto é, cada poesia liga-se à precedente e anuncia a seguinte. Lê-se então Matéria Derradeira como uma grande poesia; mas, como o leitor não precisa ler na sequência em que aparecem nas páginas do livro, já que cada peça é autônoma, a cada nova ordem que der à leitura construirá novo sentido para o todo, como se fosse um calidoscópio que vai girando e produzindo produzir novos sentidos.

O livro de Jessyca Pacheco constitui um hipertexto, na medida em que possibilita uma leitura não linear, não hierarquizada, mas reticular, em que cada leitor define seu percurso de leitura, por meio de links que encontra esparramados pelos textos. Mas não é necessário que se leve o fio de Ariadne para não se perder; pelo contrário, deve-se ler Matéria Derradeira, deixando-se perder.  Ler não como um timoneiro que conduz o barco, mas permitindo que o barco escreva seu próprio caminho, como diz genialmente Paulinho da Viola naquele samba “Não sou ou quem me navega / Quem me navega é o mar”.

E quais são esses links que amarram uma poesia na outra e que arrastam o leitor para mares nunca dantes navegados? O que confere ao ao livro essa unidade mais ampla que a soma de todas as suas partes? Não quero, como disse, tirar do leitor o prazer em descobri-los por si só. Chamo apenas a atenção para que se leia Matéria Derradeira com o sensível regendo o inteligível, abandonando o raciocínio implicativo, suprimindo a temporalidade e a espacialidade, deixando as poesias falarem por si. Deixar o texto falar, conversar com ele é um princípio básico de toda leitura.

Não queira antecipar  o sentido das poesias, deixe que ele brote naturalmente; não raciocine, leia sentindo “os cheiros e sons presentes”, “os sussurros tatuados”, “o gozo do gozo cúmplice silencioso”, “doce cheiro” e o acontecimento estésico se manifestará naturalmente.

PS.: Intencionalmente usei a palavra poesia e não poema para designar os textos de Jessyca Pacheco. Poema remete ao produto, à coisa feita, ao acabado; poesia remete ao processo. Os textos de Matéria Derradeira se caracterizam pelo inacabamento. A cada leitura, um novo acontecimento.

 

Operadores argumentativos

Por Ernani Terra©

No post de hoje, falo um pouco de gramática. Não se preocupem, não vou ditando regras nem falando o que é certo ou errado. Longe disso. Tratarei de um aspecto importante dos estudos gramaticais que, lamentavelmente, costuma ser deixado de lado nas aulas de língua portuguesa.

Os textos são marcados pela argumentatividade. Quem escreve é movido por uma fazer-crer, isto é quer que o leitor aceite seu texto. Escreve buscando a adesão do leitor. A argumentatividade é uma propriedade dos discursos em geral.

O professor pode trabalhar esse assunto quando tratar das categorias gramaticais invariáveis. Ao invés de pedir para os estudantes decorarem uma lista de conjunções e advérbios, deve explorar o papel argumentativo dessas palavras, assim estará desenvolvendo a competência dos estudantes de produzirem bons textos. Esse deve ser o objetivo de se ensinar gramática.

Os operadores argumentativos

O termo operadores argumentativos foi cunhado pelo linguista francês Oswald Ducrot para designar os morfemas da gramática de uma língua cuja função é indicar a força argumentativa dos enunciados. Introduzem variados tipos de argumentos que apontam para determinadas conclusões.

Do ponto de vista gramatical, as palavras que funcionam como operadores argumentativos são os conectivos (notadamente as conjunções), os advérbios e outras palavras que, dependendo do contexto, não se enquadram em nenhuma das dez categorias gramaticais (são classificadas como palavras denotativas: até, inclusive, também, afinal, então, é que, aliás, etc.).

Observe, por meio de exemplos, como funcionam esses operadores:

No Brasil, ainda há crianças fora da escola.

Nesse enunciado, o advérbio ainda orienta o interlocutor para inferir algo que está pressuposto: que antes do momento da enunciação já havia crianças fora da escola.

Embora muitos adolescentes que trabalham frequentem a escola, poucos conseguem concluir os oito anos de escolaridade básica.

Nesse, a conjunção embora introduz argumento que se contrapõe ao exposto na oração seguinte.

Tipos de operadores argumentativos

Os operadores argumentativos são utilizados para introduzir variados tipos de argumentos. Veja os mais comuns:

  •  operadores que introduzem argumentos que se somam a outro tendo em vista uma mesma conclusão: e, nem, também, não sómas também, não sómas ainda, além disso, etc.

Os efeitos danosos do trabalho infantil sobre a escolarização são sentidos não só nas crianças menores mas também nos adolescentes.

  •  operadores que introduzem enunciados que exprimem conclusão em relação ao que foi expresso anteriormente: logo, portanto, então, em decorrência, consequentemente, etc.

O trabalho infantil prejudica o desenvolvimento físico, emocional e intelectual da criança, portanto deve ser combatido. 


  •  operadores que introduzem argumento que se contrapõe a outro visando a uma conclusão contrária: mas, porém, todavia, embora, ainda que, mesmo que, apesar de, etc.

Muitas pessoas são contra a exploração de crianças e adolescentes, mas poucas fazem alguma coisa para evitar que isso aconteça. 


Esses operadores são geralmente representados pelas conjunções adversativas e concessivas. A opção por determinado tipo de conjunção tem implicações na estratégia argumentativa.

Por meio das adversativas (mas, porém, todavia, contudo, etc.), introduz-se um argumento que leva o interlocutor a uma conclusão contrária a que chegaria se prevalecesse o argumento usado no enunciado anterior. Com as concessivas (embora, se bem que, ainda que, etc.), o locutor dá a conhecer previamente o argumento que será invalidado.

Milhões de crianças e adolescentes trabalham no Brasil, mas isso é proibido pela Constituição.

Embora a Constituição proíba, milhões de crianças e adolescentes trabalham no Brasil.

  •  operadores que introduzem argumentos alternativos: ou, ou… ou, quer… quer, seja… seja, etc.

Ou sensibilizamos a sociedade sobre os efeitos danosos do trabalho infantil, ou o problema persistirá. 


  •  operadores que estabelecem relações de comparação: mais que, menos que, tão… quanto, tão… como, etc.

O problema do trabalho infantil é tão grave quanto o do desemprego. 


  •  operadores que estabelecem relação de justificativa, explicação em relação a enunciado anterior: 
pois, porque, que, etc.

Devemos tomar uma decisão urgente, pois o problema tende a se agravar. 


  •  operadores cuja função é introduzir enunciados pressupostos: agora, ainda, , até, etc.

Até o papa manifestou sua indignação. 


Nesse enunciado, pressupõe-se que outras pessoas, além do papa, tenham manifestado indignação. Compare a força argumentativa do enunciado contrapondo-o a outros:

O padre manifestou sua indignação.


O bispo manifestou sua indignação.

Até o papa manifestou sua indignação. 


Nesse caso, temos uma escala argumentativa ascendente (orientada do argumento mais fraco para o mais forte: o papa). Numa escala argumentativa negativa, os termos estariam em ordem descendente e o argumento mais forte viria introduzido por nem mesmo.

O acontecimento não teve nenhuma repercussão: o papa não se manifestou, o bispo também não, nem mesmo o padre da paróquia fez qualquer referência ao assunto.

A função de introduzir o argumento mais forte de uma escala argumentativa também pode ser exercida pelos operadores inclusive, até mesmo, ao menos, no mínimo, etc.

  •  operadores cuja função é introduzir enunciados que visem a ratificar, esclarecer um enunciado anterior: isto é, em outras palavras, vale dizer, ou seja, etc.

Duas de cada 10 crianças trabalhadoras, ou seja, 20%, não frequentam a escola. 


  •  operadores cuja função é orientar a conclusão para uma afirmação ou negação: quase, apenas, , somente, etc.

Dentre os adolescentes que trabalham, poucos conseguiram concluir os oito anos de escolaridade básica: apenas 25,5%.


O número de crianças e adolescentes que trabalham é muito grande: quase quatro milhões. 


O operador argumentativo quase aponta para a afirmação da totalidade e, geralmente, encadeia-se com muitos e a maioria. 
Apenas (e seus equivalentes e somente) aponta para a negação da totalidade e, geralmente, encadeia-se com poucos e a minoria. 


 

A pianista

Por Ernani Terra ©

 

Capa do livro de Elfride Jelinek, prêmio Nobel de literatura em 2004.

A pianista, de Elfriede Jelinek (Editora Tordesilhas, 2011, 333 p.) narra a história de Erika Kohut, uma professora de piano de 36 anos que vive com a mãe opressora num pequeno apartamento em Viena. Trata-se de uma personagem muito complexa. É extremamente autoritária com seus alunos, adepta do voyerismo, fica observando casais fazendo sexo nos parques de Viena, frequenta estabelecimentos eróticos, em que um público predominantemente masculino paga para observar mulheres nuas, pratica a autoflagelação cortando os lábios vaginais com lâmina de barbear. Essa é a vida de Erika, restrita à convivência com a mãe opressora e às aulas no conservatório, onde exerce seu autoritarismo. Seus dramas pessoais e suas frustrações vão ser descarregadas a partir do momento que começa a ter uma relação com um de seus alunos, Walter Klemmer, 10 anos mais jovem que ela.

Erika é masoquista e exige de Walter agressões físicas violentíssimas, a que o rapaz, num primeiro momento, se nega a fazer. A professora de piano passa a exercer um poder autoritário sobre Walter, obrigando-o a fazer apenas o que ela quer, inclusive a ter controle sobre o próprio prazer de Walter, que não aceita ser dominado por ela. A relação entre os dois e a busca do prazer sexual vão sendo marcadas pela violência física.

Erotismo, masoquismo, frustração, dominação, submissão, violência são temas recorrentes na obra e tratados com maestria por Jelinek, numa linguagem em que as falas das personagens se misturam o tempo todo com as do narrador implícito.

Embora seja um romance de personagem, como se depreende pelo título, o leitor é levado a conhecer uma Viena que se esconde atrás do glamour dos cafés e dos teatros. Uma Viena das classes baixas, de imigrantes turcos e sérvios, de relações sexuais feitas sob árvores dos parques sujos da cidade.

A pianista é um romance profundo, que exige do leitor que não fique na superficialidade, lendo-o apenas sob o viés do erotismo. É preciso seja lido tendo em mente a corrente dos discursos com os quais dialoga e refuta. Vale dizer: o erotismo é apenas a porta de entrada para um mergulho no discurso da autoridade, da dominação, do sofrimento, da solidão. Ver Erika como uma mulher que busca apenas o prazer por meio do erotismo é uma leitura rasa e empobrecedora. O romance de Jelinek é muito mais que isso.

Em tempo: o livro de Jelinek foi levado às telas em 2001 num filme excelente dirigido por seu compatriota Michael Haneke, com Isabelle Huppert no papel de Erika Kohut. No Brasil, o filme recebeu o título de A professora de piano. Assista ao trailer.

Queridxs amigxs

Aviso aos navegantes: neste post vou tratar do gênero dos nomes em português, sob o ponto de vista exclusivamente linguístico.

De um tempo para cá temos encontrado nas redes sociais as formas queridxs amigxs ou querid@s amig@s com o intuito de marcar gramaticalmente o gênero. O uso do x ou do @ teria assim a função de colocar a palavra no chamado gênero neutro.

A palavra neutro provém do latim . O sentido era “nem um nem outro”, “nenhum dos dois”, ou seja, era neutro aquilo que não era masculino nem feminino.

Na passagem do latim para o português, as palavras que eram masculinas em latim continuaram masculinas em português; as que eram femininas continuaram a ser femininas. E aquelas palavras que eram neutras em latim, o que aconteceu com elas quando passaram para o português, que não herdou do latim o gênero neutro?

Tais palavras em português passaram a ser ou masculinas ou femininas. Ficaram vestígios do neutro em português em alguns pronomes demonstrativos: isto, isso e aquilo. Exemplificando: na terceira declinação latina, temos palavras masculinas, femininas e neutras. Homo, hominis em latim pertence ao gênero masculino. Assim ficou em português: o homem. Vox-vocis em latim pertence ao gênero feminino. Assim ficou em português: a a voz.

Em latim a palavra mare-maris (mar, em português) pertence ao gênero neutro. Que aconteceu com ela em português? Ficou sendo o mar, gênero masculino. Mas em francês ficou sendo do gênero feminino (la mer), o que mostra que na passagem do latim para as línguas neolatinas, aquilo que era neutro em latim virou indiferentemente masculino ou feminino na língua derivada.

Aprendemos, na escola, que as desinências nominais marcam o gênero e o número. Quanto à marcação do número, ninguém chia. O plural é a forma marcada; o singular, a não marcada. A marca de plural em português é feita pelo acréscimo da desinência -s à forma singular, que é não marcada, isto é, não apresenta desinência.

O plural é também usado como forma genérica, designando um conjunto em que há elementos de ambos os gêneros. Quando se afirma que no circo há dez leões, pressupõe-se que possa haver leões e leoas. Se eu quiser especificar, terei de dizer: há seis leões e quatro leoas, mas não se usa o feminino plural como genérico. Se alguém lhe disser que no circo há dez leoas, a interpretação só pode ser que os dez animais são fêmeas e não há nenhum macho. Se alguém lhe diz que Luciana tem sete filhos, você não vai levar interpretar que todos os filhos de Luciana são homens, tanto que para deixar isso claro costuma-se dizer Luciana tem sete filhos, todos homens.

Quando o repórter esportivo diz que no estádio havia mais de 40 mil torcedores, todos sabem que, entre esses 40 mil, grande parte são mulheres. Mesmo que ele quisesse, seria impossível dizer quantos torcedores são do gênero masculino e quantos são do gênero feminino. Não há, portanto, nenhum machismo do repórter em usar a forma masculina, como também não há em dizer que o atentado às torres gêmeas deixou mais de dois mil mortos(ou seriam mortxs?)

Há outros argumentos que poderiam ser apresentados, como o da concordância nominal e o de que, em português, o feminino é que é marcado, sendo o masculino forma não marcada. Quando se diz o bom filho a casa torna, filho não é necessariamente uma pessoa do gênero masculino, o gênero não está marcado no -o,  mas se dissermos a boa filha a casa torna, com certeza estamos nos referindo a uma pessoa do gênero feminino, por se tratar de forma marcada.

São muitos os argumentos, mas não caberiam aqui, por isso encerro usando apenas um. Usar o x ou o @ como forma de marcar o neutro não é aplicável à língua falada, que é a que usamos na maioria dos nossos atos de fala. Tente falar carx e estimadx amigx. Mesmo na escrita a coisa se complica se você quiser usar um pronome possessivo como meus,  minhas. Qual a sugestão para grafar meus e minhas?

A ovelha negra

Por Ernani Terra ©

O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos…” (Italo Calvino)

Li anteontem, na seção de reclamações de leitores da Folha de S. Paulo,  a carta de um leitor afirmando que não consegue encontrar, na rede de concessionárias de veículos da marca X, um par de lanternas para seu carro que haviam sido furtadas.

Bingo!

Não há lanternas na concessionária, cresce o número de furtos desse acessório, impulsionando um mercado paralelo de fornecimento de lanternas do veículo X. A escassez do produto faz com que o preço dispare nos desmanches que vendem peças roubadas. Como combater esse crime? Simples: basta a montadora cumprir o que determina o Código de Defesa do Consumidor, dispor de peças para substituição a um preço justo.

Mas o que isso tem a ver isso com literatura, um dos assuntos deste blogue? Muito, pois a literatura nos traz o real mesmo que ele não tenha ainda acontecido.

Ao ler a a carta sobre o furto das lanternas, imediatamente  me veio à memória um conto do Italo Calvino chamado A ovelha negra, que está no livro Um general na biblioteca, publicado pela Companhia das Letras. A minha edição é de 2001 (vejam a foto da capa), mas creio que o livro ainda deva estar em catálogo e deve haver uma edição mais recente. Se você não leu esse conto, segue um resuminho.

Trata-se de uma história  narrada por um observador (narração em 3a.pessoa) de um acontecimento passado, que tem por espaço um país onde todos eram ladrões. O parágrafo que abre o conto apresenta uma única frase: “Havia um país onde todos eram ladrões“.

Nesse país, cada morador roubava seu vizinho. Como todos roubavam a todos, o país vivia em paz, pois aquele que tinha sido roubado  compensava a perda roubando o outro. Como se o sujeito que teve as lanternas do carro roubadas, para compensar roubasse as de um segundo, que, por sua vez, roubasse de um terceiro, que, por sua vez, roubasse… Lembra a Quadrilha, do Drummond?

Numa das passagens do conto o narrador:

“E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia ricos nem pobres”.

Sem que se soubesse de onde viera, aparece no país um homem honesto, que, em vez de sair para roubar como todos os outros, ficava em casa, lendo romances e fumando. Os ladrões, vendo as luzes da casa do homem honesto acesas, não entravam para roubar. Era preciso que o homem honesto compreendesse que não roubando, alguma família ficava sem comer. O homem honesto passa então a sair de casa à noite, mas, ao contrário dos outros, não roubava ninguém. Quando retornava, via que sua casa fora roubada. Em menos de uma semana, o homem honesto não tinha mais nada, nem o que comer. Mas essa atitude criou uma grande confusão, porque como ele não roubava ninguém, sempre havia alguém que saía para roubar e que, quando voltava, encontrava a casa intacta. Alguns, por causa disso, acabaram ficando ricos e não queriam mais roubar. Os que iam roubar a casa do homem honesto acabaram ficando pobres, pois não encontravam nada para roubar. Os que ficaram ricos pegaram o costume de à noite ir à ponte ver o rio passar. Os ricos perceberam que indo até a ponte, ficariam pobres e resolveram pegar os pobres para roubar por eles, mas continuavam ladrões porque viviam enganando os outros. Os ricos foram se tornando cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Os ricos não precisavam mais roubar, mas pagavam aos pobres para roubar para não ficarem pobres e pagavam aos mais pobres dos pobres para se defenderem de outros pobres. Assim, instituíram a polícia e construíram as prisões. Anos depois não se falava em roubar ou não roubar, mas apenas de ricos e pobres, mas todos continuavam a ser pobres. Honesto só tinha havido aquele homem, que morreu logo, de fome.

Uma bela fábula dos tempos modernos em que se roubam até lanternas de carro num país cujo governo é uma associação de delinquentes.

PS.: Antes que algum dono de desmanche resolva me processar, esclareço que na frase “A escassez do produto faz com que o preço dispare nos desmanches que vendem peças roubadas”, a oração “que vendem peças roubadas” é uma adjetiva restritiva, observe que não a separei da anterior por vírgula. Isso quer dizer que ela não se aplica a todos os desmanches, mas apenas e tão somente àqueles que praticam o crime de vender peças roubadas.

Papa Hemingway

Por Ernani Terra  ©

Encontrei ontem meio escondido na Netflix Papa: Hemingway in Cuba, filme recente (2016) do diretor Bob Yari, com Adrian Sparks no papel de Hemingway, e Giovanni Ribisi, no papel do jornalista Ed Mayers.

Papa Hemingway in Cuba, filme de Bob Yari, de 2016.

Baseado em fatos reais, o filme narra três anos de amizade do escritor com o jornalista na Cuba dos anos que antecedem a Revolução que poria fim ao governo de Fulgencio Batista. Papa é o primeiro filme de Hollywood rodado em Cuba depois da Revolução. Só a bela fotografia e a ótima atuação de Sparks já recomendariam o filme. Mas há algo que faz dele um grande filme: Hemingway. Nesses anos que antecedem seu suicídio (o escritor se mataria com um tiro em 1961, um ano após os acontecimentos mostrados no filme), vemos um Hemingway depressivo, abusando do álcool, com problemas conjugais e incapaz de escrever.

Fui apresentado a Hemingway, nos anos 1970, quando Bete, uma colega de escola com quem mantenho contato até hoje, me falou de O velho e o mar. Li o livro (tenho a impressão de que todo mundo começa a ler Hemingway por esse livro) e depois fui ler simplesmente tudo o que ele escreveu. Primeiro, os romances e depois os contos. Como o jornalista Mayers do filme, aprendi muito com Hemingway (o filme mostra uma das qualidades do escritor, a generosidade). Aprendi não apenas em relação aos temas de suas obras e ao mundo de suas personagens, mas também sobre o próprio ato de escrever. Sempre digo às pessoas que leiam os contos de Hemingway para aprender como se escreve um conto, para como fazer com que a história de um conto pareça mais verdadeira do que a realidade. Gabriel García Márquez disse certa vez que Cat in The Rain (Gato na chuva), de Hemingway, era o conto mais bem escrito que conhecia. Mas o que se pode aprender da leitura dos contos de Hemingway? Muita coisa, mas destaco duas fundamentais, ligadas aos efeitos de sentido de realidade que seus contos produzem.

Hemingway nos ensina que um bom texto deve ser um texto enxuto. Concisão é a palavra-chave. Nada de rodeios, não há nenhuma palavra sobrando. Os contos dele parecem ter saído de uma cirurgia em que se eliminou toda a gordura. Não há verborragia. No filme, há a famosa cena em que Hemingway conversa num bar em Cuba com Ed Mayers e pergunta a ele: “Me diga um número de 1 a 10”. O jornalista responde: 6. Hemingway pega uma caneta e, no balcão do bar, escreve num guardanapo: “For sale: baby shoes, never worn.” (Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados). Entrega o guardanapo a Ed e diz: um conto com seis palavras. Um conto menor que um tuíte, já que tem apenas 28 caracteres. Assistam à cena.

 

A segunda coisa que se aprende com Hemingway sobre como escrever que, de certa forma, relaciona-se à anterior, é relativamente ao foco narrativo. Se há uma história, há alguém que a conta, o narrador, que narra de uma certa perspectiva que determina o que ele vê e, em consequência, o que pode contar. Há basicamente dois focos narrativos: 3a. pessoa e 1a. pessoa. No primeiro caso, o narrador não é personagem da história que narra, é um observador ou testemunha. No segundo, o narrador é também personagem, principal ou secundária, da história.

Hemingway (1899-1961) amava gatos. Para ele, gatos têm honestidade emocional absoluta.

Hemingway, em seus contos, muitas vezes “apaga” o narrador, cuja função passa a ser mínima, usado apenas para indicar quem fala o quê. Chamamos a isso de modo dramático de narrar, na medida em que se assemelha a uma representação teatral, em que tomamos contato com a história diretamente pela boca das personagens.

No conto dramático, o narrador se limita a colocar as personagens em cena e dar voz a elas, que conduzem sozinhas a narrativa como se estivessem em cena em um teatro representando seus papéis diante de um público. Assim, quem ocupa o primeiro plano da narrativa não é o narrador, mas as personagens. Veja, a propósito, o início do conto Cinquenta mil.

— E você como vai, Jack? — perguntei.
— Viu esse Walcott?
— No ginásio.
— Vou precisar de muita sorte com esse garoto — falou Jack.
— Ele não pode com você, Jack — afirmou Soldier.
— Deus queira que não.
— Ele não pode com você nem a chumbo.
— Quem me dera fosse só com chumbo — admitiu Jack.
— Ele parece fácil de acertar — falei.
— Parece — concordou Jack. Ele não vai durar muito. Não vai durar como você e eu, Jerry. Mas, no momento, está com tudo.
— Você despacha ele com a esquerda.
— Pode ser. Pode até ser.
— Trate ele como tratou Kid Lewis.
— Kid Lewis. Aquele judeca — lembrou Jack.

Aristóteles fazia a distinção entre o épico e o dramático. No primeiro, tomamos contato com a história por meio de alguém que a conta, o narrador. No segundo, a história não nos é narrada, mas representada por meio de personagens que estão em cena, como no teatro. No trecho acima, embora uma das personagens exerça também a função de narrador, não há praticamente narração, na medida em que a história vai sendo contada por meio das falas das personagens. Esse recurso confere ao texto um efeito de sentido de realidade, uma vez que a cena vai se desenrolando diante do leitor à medida que ele lê os texto.

Há, evidentemente, muito mais a aprender com Hemingway. Que tal começar agora pela leitura de seus contos?

Linguística e bombas

​Por Ernani Terra©

Meio doente, sem muita força para trabalhar resolvi assistir à série Manhunt: Unabomber na Netflix. Baseada em fatos reais, conta a história de Theodore Kaczynski, o Unabomber. Dotado de um QI elevado, cursou a Universidade de Harvard, onde se formou em Matemática. Personalidade estranha, vivia isolado numa cabana e foi responsável por vários atentados a bomba, que provocaram a morte de três pessoas e ferimentos em muitas outras. As bombas eram enviadas pelo correio e explodiam assim  que o destinatário abrisse a correspondência.

Kaczynski era um ativista e teve seu manifesto publicado inicialmente no The Washington Post e posteriormente em livro. Preso e julgado, foi condenado a prisão perpétua.

Mas o que tem a ver o Unabomber com Linguística? Para começar a entender, sugiro que assistam à série, que é muito boa, e saibam o que é idioleto.

Como devem saber a língua varia em decorrência de vários fatores. Temos a variedade de língua de uma região, de uma época, de uma profissão (o jargão) etc. Mas entre todas as variedades, temos o idioleto, que é o sistema linguístico de um indivíduo, o conjunto de atos de fala de uma determinada pessoa. Isso é muito útil para os estudos de estilo e de relações entre Psicologia e estilo. Os estudos linguísticos mostram que há uma conexão entre língua e personalidade.   É fácil entender isso, quando pensamos em autores literários: há um estilo próprio de Machado de Assis, de Shakespeare, de Guimarães Rosa etc., de sorte que, para um estudioso, é possível identificar que determinado texto foi escrito por Machado de Assis, por exemplo. Mas não precisa ser um autor literário, uma pessoa qualquer tem seu idioleto. Você certamente reconheceria algo escrito pelo colunista da Folha, José Simão, mesmo que o texto não viesse assinado. Claro que alguém pode escrever imitando o idioleto de outro. Veja, a propósito, a Carta às Icamiabas, em Macunaíma, de Mário de Andrade.

Capa da revista Time com reportagem especial sobre Theodore Kaczynski

Como disse, o Unabomber teve seu manifesto publicado no The Washington Post. Esse manifesto serviu de corpus para que o FBI determinasse o idioleto do Unabomber e, num procedimento de perícia, comparasse a linguagem do Manifesto às cartas que o suposto Unabomer escrevera para seus familiares. Comparando ambas as coisas, ficou provado que quem escreveu o manifesto fora a mesma pessoa que escrevera as cartas. Assim, o autor das cartas, Theodore Kaczynski, e o autor do Manifesto, o Unabomber, seriam a mesma pessoa. Revelada a identidade do Unabomber, a sua prisão pôde ser concretizada.

O problema é, como vocês verão se assistirem à série, que havia um desprezo enorme pelas provas conseguidas por meio do que se chama de Linguística Forense, mas foi graças à Linguística que conseguiram a identificação do terrorista e puderam prendê-lo e julgá-lo.

Estrangeirismos

Por Ernani Terra©

Neste Natal, recebi pelo WhatsApp, por e-mail, pelo Messenger e também por posts no Facebook, mensagens de feliz Natal, muitas delas contendo GIFs, emojis e emoticons. Grande parte delas, em vez de desejar feliz Natal, apresentava a mensagem Mary Christmas. Isso me levou a escrever este post no meu blog, que eu prefiro grafar blogue.

Lembrei-me do deputado Aldo Rebelo, que queria banir por decreto os estrangeirismos do português: uma cruzada digna de um exército de Brancaleone, sobretudo porque, passado o Natal, as lojas e boutiques dos Shoppings Centers, vão aparecer repletas de cartazes anunciando SALE e 50%OFF.

O projeto do deputado caiu no esquecimento, mas ressurgem com veemência protestos anti-estrangeirismos sob o argumento de que eles conspurcam o nosso idioma, a última flor do Lácio, inculta e bela.

O que as pessoas devem ter em mente é que toda língua se transforma no tempo e no espaço. As línguas não são homogêneas, pelo contrário, são marcadas pela diversidade. O português, por exemplo, não é um só. Ele comporta um feixe de variedades.Uma das formas pelas quais as línguas se transformam é pelo contato com outras línguas. Importamos, na forma original, ou aportuguesada, palavras de outros idiomas. São os chamados estrangeirismos. Houve época em que era chic entre nós importar palavras do francês, considerada língua de cultura. Isso justifica a presença de palavras largamente usadas como menu, garçom, toalete, gafe, cachecol, champanha, avenida… Hoje, a maioria das palavras estrangeiras em nosso idioma provêm do inglês, uma espécie de língua universal. Mas como bem salientou a professora Ieda Maria Alves, do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, não importamos palavras estrangeiras, mas cultura estrangeira. Quando importamos dos ingleses o jogo chamado futebol, junto com ele veio toda a terminologia. Não importamos as palavras gol e pênalti, importamos o jogo. As palavras vieram juntas. Vejam esta notícia de um jornal paulista de 1922.

CORINTHIANS 2 a 1. 20 de fevereiro de 1922. Ontem, o bravo team do Corinthians Paulista derrotou pelo score de 2 a 1 o do Palestra Itália, no ground deste último. Goals do forward Neco (2) e do full-back Baggio. No ponto do bonds, após o match, um torcedor do Palestra, inconformado, apunhalou um corinthiano.

Com tempo, algumas foram deixadas de lado, substituídas ou aportuguesadas: team virou time, score virou placar, ground virou campo, forward virou atacante, full-back virou zagueiro, bonds, virou bonde (se é que ainda existem bondes),  match virou partida. Sem falar de outras palavras que não aparecem na notícia como offside, que virou impedimento, e corner, que virou escanteio.

A professora Ieda cita exemplos bastante atuais: black friday, delivery e halloween. O que nós importamos dos americanos foi a cultura de “promoções” que anunciam descontos enormes, o sistema de entregar coisas em domicílio, a comemoração do dia das bruxas. As palavras simplesmente acompanharam as importações.

Será que na língua inglesa há estrangeirismos de origem portuguesa? Pode até ser que haja um ou outro. Por que não há uma profusão de estrangeirismos de origem portuguesa no inglês? Simplesmente porque, ao contrário de nós, eles não importam nossa cultura.

Isso tudo quer dizer que não terá efeito algum qualquer lei ou decreto que proíba o uso de palavras estrangeiras entre nós enquanto formos importadores de cultura. Se você está preocupado em defender sua língua, defenda sua cultura. No campo da ciência e tecnologia, as coisas são mais difíceis. Estamos condenados a usar downlood, spam, mouse, link, online, software por causa da dependência tecnológica. Mas como vivemos cada vez mais num mundo globalizado, é impossível não ter contato com outras culturas, a menos que você queira dar uma de Robinson Crusoé e isolar-se numa ilha. Que tal ser um pouco antropofágico como Oswald de Andrade? Engula o que vem de fora, misture com o que é autenticamente nosso e devolva como algo novo. A Bossa Nova fez isso e ganhou os Estados Unidos.

Essa cruzada anti-estrangeirismos tem longa data. No século XIX, o latinista Castro Lopes propunha que substituíssemos a palavra estrangeira football por ludopédio. Houve também quem propusesse trocar o estrangeirismo de origem francesa chofer por cinesíforo. Football acabou ficando, com a adaptação ortográfica, futebol, e cinesíforo não vingou (ainda bem!). A palavra chofer acabou encontrando um excelente substituto em motorista.

Ciao! ou, se preferirem, Tchau!