Queridxs amigxs

Aviso aos navegantes: neste post vou tratar do gênero dos nomes em português, sob o ponto de vista exclusivamente linguístico.

De um tempo para cá temos encontrado nas redes sociais as formas queridxs amigxs ou querid@s amig@s com o intuito de marcar gramaticalmente o gênero. O uso do x ou do @ teria assim a função de colocar a palavra no chamado gênero neutro.

A palavra neutro provém do latim . O sentido era “nem um nem outro”, “nenhum dos dois”, ou seja, era neutro aquilo que não era masculino nem feminino.

Na passagem do latim para o português, as palavras que eram masculinas em latim continuaram masculinas em português; as que eram femininas continuaram a ser femininas. E aquelas palavras que eram neutras em latim, o que aconteceu com elas quando passaram para o português, que não herdou do latim o gênero neutro?

Tais palavras em português passaram a ser ou masculinas ou femininas. Ficaram vestígios do neutro em português em alguns pronomes demonstrativos: isto, isso e aquilo. Exemplificando: na terceira declinação latina, temos palavras masculinas, femininas e neutras. Homo, hominis em latim pertence ao gênero masculino. Assim ficou em português: o homem. Vox-vocis em latim pertence ao gênero feminino. Assim ficou em português: a a voz.

Em latim a palavra mare-maris (mar, em português) pertence ao gênero neutro. Que aconteceu com ela em português? Ficou sendo o mar, gênero masculino. Mas em francês ficou sendo do gênero feminino (la mer), o que mostra que na passagem do latim para as línguas neolatinas, aquilo que era neutro em latim virou indiferentemente masculino ou feminino na língua derivada.

Aprendemos, na escola, que as desinências nominais marcam o gênero e o número. Quanto à marcação do número, ninguém chia. O plural é a forma marcada; o singular, a não marcada. A marca de plural em português é feita pelo acréscimo da desinência -s à forma singular, que é não marcada, isto é, não apresenta desinência.

O plural é também usado como forma genérica, designando um conjunto em que há elementos de ambos os gêneros. Quando se afirma que no circo há dez leões, pressupõe-se que possa haver leões e leoas. Se eu quiser especificar, terei de dizer: há seis leões e quatro leoas, mas não se usa o feminino plural como genérico. Se alguém lhe disser que no circo há dez leoas, a interpretação só pode ser que os dez animais são fêmeas e não há nenhum macho. Se alguém lhe diz que Luciana tem sete filhos, você não vai levar interpretar que todos os filhos de Luciana são homens, tanto que para deixar isso claro costuma-se dizer Luciana tem sete filhos, todos homens.

Quando o repórter esportivo diz que no estádio havia mais de 40 mil torcedores, todos sabem que, entre esses 40 mil, grande parte são mulheres. Mesmo que ele quisesse, seria impossível dizer quantos torcedores são do gênero masculino e quantos são do gênero feminino. Não há, portanto, nenhum machismo do repórter em usar a forma masculina, como também não há em dizer que o atentado às torres gêmeas deixou mais de dois mil mortos(ou seriam mortxs?)

Há outros argumentos que poderiam ser apresentados, como o da concordância nominal e o de que, em português, o feminino é que é marcado, sendo o masculino forma não marcada. Quando se diz o bom filho a casa torna, filho não é necessariamente uma pessoa do gênero masculino, o gênero não está marcado no -o,  mas se dissermos a boa filha a casa torna, com certeza estamos nos referindo a uma pessoa do gênero feminino, por se tratar de forma marcada.

São muitos os argumentos, mas não caberiam aqui, por isso encerro usando apenas um. Usar o x ou o @ como forma de marcar o neutro não é aplicável à língua falada, que é a que usamos na maioria dos nossos atos de fala. Tente falar carx e estimadx amigx. Mesmo na escrita a coisa se complica se você quiser usar um pronome possessivo como meus,  minhas. Qual a sugestão para grafar meus e minhas?

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