Retrospectiva 2017

Fim de ano, época de balanços e inventários, de listas com os melhores e piores do ano. Este blogue tem apenas sete dias, portanto não há como escolher a crônica mais curtida. Recorro então à minha página do Facebook e descubro que meu texto mais curtido em 2017 foi uma crônica publicada em 27 de março. Para aqueles que já a leram no Facebook, fica valendo como Retrospectiva 2017. Para os que ainda não leram, segue a crônica.

A rainha das conjunções

Por Ernani Terra©

Tive um fim de semana triste. Melancólico, comecei a sentir saudade do que deixei de ser: um professor que não ensinou algumas coisas que, com o passar dos anos, vim a aprender. Coisas simples, como as conjunções, aquelas palavrinhas que usamos para relacionar orações: porque, quando, se, ou, logo, caso, enquanto, embora, etc. e que nos permite organizar o discurso.

Hoje, descobri que, como as abelhas, as conjunções têm uma rainha: a concessiva, que paira soberana sobre todas as outras, que não são poucas. Para quem não lembra, a principal conjunção concessiva é embora.
A aditiva soma; a alternativa, ao contrário, separa, disjunge, exclui, segrega. A conclusiva é muito lógica, racional, cartesiana: penso, logo existo. A temporal serve para marcar essa coisa fugidia que chamamos tempo. Aí me vem Santo Agostinho, que nas suas Confissões pergunta: “Que é o tempo?”. Se o bispo de Hipona não soube responder, não será esse professorzinho besta que o fará. A condicional é terrível: autoritária, por excelência. Impõe.

Alguém já deve estar pensando: Se você continuar a ser essa besta convencida, vou parar de ler. A conjunção final é pragmática demais: coloca sempre um objetivo, uma finalidade. Ela dá adeus à liberdade, ao arbítrio. E a causal? Sempre está enxergando um motivo para tudo. É, como a explicativa e a conclusiva, da ordem do racional. Mais ainda: está sempre a ver entre dois fatos uma implicação e não consegue se divorciar da consecutiva com a qual vive em simbiose, não abrindo espaço para o inesperado. É a conjunção da rotina e da ausência de paixão. E a comparativa? Parece que sofre de transtorno bipolar. Sempre olhando para os outros. Ora eufórica se julgando melhor que as outras, ora se subestimando. É por natureza maníaco-depressiva. A proporcional é o máximo da dependência. É de um rigor matemático. Quando algo se altera, lá vai ela e se altera também. Vive em eterno contubérnio. As conjunções, como se vê, são racionais ao extremo, nos obrigam. Não nos deixam espaço para a subversão.

Devia ter explicado a meus alunos que há uma conjunção que nos dá a oportunidade de fugir a esse pensamento lógico-racional, uma conjunção que nos permite a trapaça: a concessiva. Ela é de outra ordem, da ordem da tolerância, da convivência com o diferente, do respeito ao outro, ainda que esse outro não pense como nós, ou não goste de nós e nos descarte como matéria que não se presta nem mesmo para ser reciclada. É a conjunção do respeito, da aceitação, da tolerância. Concessão é admitir uma ideia contrária, transigir, consentir. No ato de conceder, há a entrega, o dar-se, o dom, a dádiva, na medida em que você cede parte de você a outrem. É a conjunção do desprendimento, do respeito. Ela tem algo de budista, pois manifesta o desapego. É também da ordem do perdão. Não é egoísta. Sendo altruísta, é a conjunção do amor pleno. A concessiva é nobre porque releva a ofensa: Embora você tenha me ofendido, eu continuo gostando de você.

Para amplificar minha tristeza, hoje percebo que não falei nada disso nas minhas aulas, simplesmente porque não sabia isso naquele momento, o que confirma que sempre fui um professorzinho besta. Demorei para aprender, mas a vida me ensinou a ser mais concessivo depois de levar muita porrada.

Aos meus queridos alunos e ex-alunos, muitos dos quais são meus amigos aqui, desculpem-me pela extemporaneidade da aula.

PS.: Este texto é dedicado às pessoas que me ensinaram a ser mais concessivo, minhas verdadeiras mestras. São tantas que fica impossível declinar os nomes. Deixo a todas um beijo concessivo e o meu muito obrigado in perpetuum et unum diem.
Vale!