A balzaquiana de Balzac e as adoráveis balzaquianas

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O mote para o texto de hoje é um comentário que uma querida amiga fez num post do FB. Lá ela dizia que era uma “quase balzaquiana que precisa escolher seu rumo“. O leitor já inferiu que minha amiga está perto de completar os 30 anos. Fiquei pensado nelas: na minha amiga e na palavra balzaquiana, que me causou estranhamento.

Balzaquiana é um adjetivo derivado de um nome próprio, Honoré Balzac, escritor francês, nascido em 1799 e falecido em 1850. Adjetivos derivados de nomes próprios são comuns. Cito alguns: aristotélico, dantesco, quixotesco, kafkiano etc. Se isso é comum por que o estranhamento com a palavra balzaquiana?

São dois os motivos: balzaquiano é o adjetivo relativo ao escritor Honoré de Balzac. Como o adjetivo também é empregado em relação à obra do escritor, é usado também para designar pessoas que se assemelham a personagens de sua vasta obra ou que têm algumas de suas características. A palavra balzaquiana popularizou-se, mesmo entre aqueles que jamais leram um livro do escritor, para designar pessoa do sexo feminino com mais de 30 anos por causa de seu romance A mulher de trinta anos. Ressalto que neste livro Balzac faz um elogio à maturidade da mulher, representada no romance pela protagonista, Julie.

Honoré de Balzac, balzaquiana
A mulher de trinta anos, romance de Balzac que popularizou a palavra balzaquiana

No sentido de pessoa com mais de 30 anos, o adjetivo é usado apenas na forma feminina (balzaquiana), uma vez que se ancora na personagem do romance, Julie, a mulher de 30 anos. Ninguém vai dizer que Fulano é balzaquiano. Balzaquiana é usada também como substantivo feminino, neste caso virá precedida de um determinante, artigo ou pronome: “No ônibus, sentei-me ao lado de uma balzaquiana que puxou conversa comigo”.

Em A mulher de 30 anos, romance escrito no século XIX, Balzac enaltece a mulher madura por sua beleza e experiência. O sentido original, portanto, revela que a qualidade expressa  pelo adjetivo  balzaquiana deve ser entendida como positiva, ou seja, chamar uma mulher de balzaquiana é elogiá-la.

No século XX, o adjetivo balzaquiana passou a ter uma conotação pejorativa. Passou a significar uma mulher que “encalhou”, que “ficou para tia”, ou como se dizia, “uma solteirona”, quando não era usada como eufemismo de velha. Por essa razão, se eu fosse mulher e tivesse trinta anos ou mais, não iria gostar de que me chamassem de balzaquiana. Aliás, também nunca vi uma mulher chamar outra de balzaquiana, embora possam referir-se a si mesmas por essa palavra, como fez minha quase-balzaquiana amiga.

Abro um parêntese. Em outro post, comentei que me não me reconhecia no ícone que representa idosos nos lugares que indicam atendimento prioritário. O ícone era uma pessoa curvada e de bengala. Pela minha idade, encaixo-me na categoria de pessoas que podem desfrutar de atendimento prioritário, mas estou muito longe de me assemelhar ao ícone. Se há algum tempo, pessoas com mais de 60 anos eram consideradas velhas, porque a expectativa de vida era baixa, hoje me parece estranho chamar uma pessoa de 60 anos de velha. Tentando atenuar, se usa a expressão idoso. Fecho o parêntese.

Voltando à balzaquiana (ao adjetivo, não à pessoa). Creio que o emprego dessa palavra com sentido pejorativo de mulher velha (na minha adolescência, usavam a palavra “coroa”) tenha alguma relação com o fato de a expectativa de vida antigamente ser menor do que hoje. Se se morria aos 40, então aos 30 a mulher era considerada velha. Mulheres de mais de 30 anos que ainda não tinham se casado eram chamadas de “tias”. Claro, pois era comum mulheres casarem-se com 16 anos e terem filhos aos 17.

Os tempos mudaram, a expectativa de vida aumentou muito, as mulheres de mais 30 anos não se sentem obrigadas a casar e a ter filhos. Muitas das que se casaram já se separaram; umas casaram de novo; outras optaram por um teto todo seu. Muitas optaram por não ter filhos. Enfim, são donas de seu nariz.

Acho melhor parar por aqui e me recolher à minha insignificância porque quando penso nas mulheres com mais de 30 anos me vem à cabeça o que Balzac fala delas e fico com uma inveja danada do escritor por nunca ter encontrado as palavras que ele encontrou para falar delas. Dou voz a Balzac:

‘Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. […] Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer’.

Como não amar essas mulheres maduras, lindas e irrestíveis?

PS.: Sou uma pessoa de muita sorte, porque tenho muitas amigas balzaquianas. Este texto é todo dedicado a elas e também à quase balzaquiana, que acabou, sem querer, me dando o mote para essas reflexões. A vocês todas, um beijo carinhoso deste amigo balzaquiano (Epa! desculpem-se por usar balzaquiano no masculino, me apropriando de uma qualidade que é só de vocês).

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