Coerência textual

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No artigo, a partir de um tuíte que foi compartilhado em outras redes sociais, comento, em rápidas pinceladas, o conceito de coerência textual.

O texto não é um amontoado de frases e seu sentido vai além da soma das frases que o constituem, já que essas se organizam por mecanismos que fazem com que um texto seja percebido pelo destinatário como tal. Entre esses mecanismos, tem-se, entre outros, a coesão e a coerência.

A coerência é responsável por fazer do texto um todo de sentido e diz respeito ao plano do conteúdo, às estruturas profundas; portanto, ao sentido. O sentido é expresso por uma linguagem qualquer. Assim, os textos decorrem da superposição de dois planos que se pressupõem: uma expressão de ordem material (uma linguagem qualquer) e um conteúdo de ordem cognitiva ( o sentido).  

Embora haja autores que não façam distinção entre coesão e coerência, considero que se trata de coisas diversas e que se manifestam em planos diferentes do texto. Como o texto é um todo de sentido resultante da junção indissolúvel de expressão e conteúdo, é claro que costuma haver uma relação entre coesão e coerência.

            As razões pelas quais as considero distintas são:

  • a coesão diz respeito ao plano da expressão; a coerência, ao do conteúdo;
  • pode haver textos desprovidos de elementos de coesão, como exemplo, cito o poema Cidadezinha qualquer, de Carlos Drummond de Andrade; se não houver coerência nem podemos afirmar que haja texto.

Afirmei que coesão e coerência se relacionam porque a coesão contribui para dar coerência ao texto e, ao contrário, problemas de coesão, sobretudo os de coesão interfrásica, podem interferir na coerência do texto.

Insisto num ponto: a coerência está ligada ao sentido. Trata-se de uma propriedade do texto que lhe assegura o sentido. Assim, um texto é percebido como coerente quando se mantém a continuidade de sentido e isso se dá pela reiteração do tema e da recorrência de figuras que revestem esse tema, como se pode observar em texto já publicado aqui no blogue, Sermão da quarta-feira de cinzas, no post Um dos mais belos sermões de Vieira (clique aqui para acessar o post). Como só existe texto se ele for a expressão de um sentido, posso afirmar que a coerência deve ser constitutiva de todos os tipos de texto, narrativos, argumentativos, descritivos, expositivos.

Nos textos argumentativos, a coerência resulta da perfeita articulação das partes, isso significa que os argumentos e contra-argumentos apresentados têm de estar relacionados à tese proposta e que a conclusão decorra logicamente da argumentação.

Nos textos narrativos, deve-se observar a coerência interna, ou seja, não estamos nos referindo à relação que ela deve guardar com o mundo, mas da relação que deve haver entre as partes. Explicando: se alguém realiza determinada ação é porque tinha competência para fazê-la. A coerência narrativa decorre de deixar claras para o leitor as relações implicativas entre os fatos narrados.

Um texto em que um caixeiro-viajante depois de uma noite de sonhos intranquilos acorda e se vê metamorfoseado num inseto enorme,  embora não guarde relação com o mundo natural, pode ser coerente, desde que apresente coerência interna e seja lida como uma narrativa alegórica. O exemplo que demos é o que ocorre na novela A metamorfose, de Franz Kafka.

Abaixo reproduzo e comento o tuíte que serviu de mote para este artigo.

Como se pode observar, o tuíte acima nem pode ser considerado um texto, na medida em que é desprovido de coerência. O que assegura coerência a um texto é a manutenção do sentido, que decorre da reiteração de temas que se relacionam garantido a unidade. No “texto”, isso não ocorre. Pula de um tema para outro sem que haja qualquer relação de sentido entre eles.

Observe que o “texto”não apresenta “erros”de natureza gramatical (concordância, regência, flexão de palavras etc.), que está escrito conforme o sistema ortográfico vigente e que está adequadamente pontuado. Isso mostra que o fato de um texto estar redigido segundo o que preconizam as gramáticas normativas não implica necessariamente que ele seja coerente, ou que seja processado pelo destinatário como um texto.


O texto deste artigo reproduz com algumas adaptações e simplificações o que discorro em meu livro Práticas de leitura e escrita, publicado pela Editora Saraiva em 2019.

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