Gramática: mitos e realidades

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No artigo, trago algumas reflexões apresentadas pela Professora Dra. Marli Quadros Leite, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (Diversitas), que constam do artigo Gramáticos e gramáticas: mito e realidade, que faz parte do livro Margens, periferias, fronteiras: estudos linguístico-discursivos das diversidades e intolerâncias (Editora Mackenzie, 2016, 296 p.), organizado pela querida professora Diana Luz Pessoa de Barros.

Diana Luz Pessoa de Barros

Os resultados da pesquisa de Leite são surpreendentes. A pesquisadora afirma que iniciou a pesquisa em busca de manifestações de intolerância nas principais gramáticas do português e “surpreendentemente, não encontramos o que tínhamos certeza de estar lá”. Leite constatou que, em busca da comunhão entre gramática e intolerância, “o fenômeno não tipifica o objeto”, embora as gramáticas possam manifestar intolerância sobre determinados temas.

Há uma ideia circulante, incorporada inclusive por pessoas esclarecidas, que sustenta que gramáticos e gramáticas veiculam um discurso intolerante. Trata-se, como se depreende da leitura do artigo e da pesquisa realizada por Leite, de ideia arraigada no senso comum, sem fundamento científico, portanto. A pesquisadora mostra que a gramática como veículo de intolerância é algo que integra o imaginário popular e afirma que “a imagem negativa de que desfruta a gramática na sociedade decorre da interpretação que se faz dela, com base em fatos que mesmo verdadeiros em alguns casos, não a caracterizam e não lhe são inerentes. Em outros termos, a presença da intolerância na gramática é uma construção social, é mito e não realidade”.

Em sua pesquisa, Leite tomou por hipótese que “a sociedade não acompanhou a evolução por que a gramática passou ao longo do tempo”. Ela sustenta que a gramatização das línguas vernáculas europeias consagrou a ideia de que uma variedade linguística seria “melhor” que outras, o que teve como consequência que as gramáticas passassem a ser vistas como manifestação de discursos discriminatórios e preconceituosos. A pesquisa de Leite, no entanto, revelou que “são raros os gramáticos e, consequentemente, suas gramáticas, que se caracterizam como preconceituosos e intolerantes”.

Embora a sociedade acredite que a gramática veicule preconceitos, Leite afirma que essa crença é um mito que repousa no imaginário social e que “a intolerância e o preconceito não são inerentes à gramática e que, pois, os termos, gramática e preconceito, não são sinônimos…”.

Alguém poderia imaginar que o corpus da pesquisa de Leite restringe-se às gramáticas mais modernas, como as de base funcionalista. Não é fato. A pesquisa de Leite vai de nossas primeiras gramáticas (e gramáticos) representados por Fernão de Oliveira e sua  Grammatica da lingoagem portuguesa, de 1536, e João de Barros e sua Grammatica da lingua portugueza, de 1540, até as mais recentes, como Maria Helena de Moura Neves e sua Gramática de usos do português, de 1999, José Carlos de Azevedo, Gramática Houaiss da língua portuguesa, de 2008, e Ataliba Teixeira de Castilho, Gramática do português brasileiro, de 2010.

Trata-se de texto para se ler, refletir e discutir.

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