Interjeições

Tempo de leitura: 3 minutos

Interjeições são palavras que usamos no ato comunicativo para exprimir sentimentos, emoções e reações. É evidente que podemos expressar nossos sentimentos, emoções e reações falando deles, dizendo por exemplo: essa pancada me fez sentir dor em vez de Ai!, ou Fiquei surpreso com isso em vez de Nossa! ou Puxa! A diferença é que as interjeições o fazem de forma global e o sentido delas estará atrelado à entoação. Além disso, não é a mesma coisa usar a linguagem para falar sobre o que sentimos e usá-la para externar o que se sente.
No primeiro caso, estamos no domínio do logos; no segundo, do phatos. Na interjeição não há a racionalidade, é como um grito com o qual jogamos pra fora o que sentimos, por isso há quem ache que as primeiras manifestações da linguagem verbal tenham sido as Interjeições. Elas são como o grito e o choro. A própria origem da palavra interjeição remete ao um procedimento de algo que é lançado no interior do discurso. Interjeição provém de interjectione(m), ou seja, algo que se lança entre, que se interpõe É como se um grito ou uma explosão emotiva se lançassem no meio da racionalidade discursiva.
Assim como o choro e o grito, uma mesma interjeição pode exprimir sentidos diferentes. Um grito pode expressar dor, mas pode exprimir também júbilo, alívio. Nem todo choro exprime tristeza, assim como nem todo ai exprime dor. As Interjeições não fogem ao convencionalismo dos signos. O meu ai não é o seu ai, porque minha dor não é a sua dor, assim como minha tristeza não é sua tristeza. A interjeição vai portanto dizer daquilo que é só nosso, fruto da nossa experiência de mundo, portanto é muito mais difícil de compreendê-la do que se imagina.
A interjeição não é durativa, não possui temporalidade; ao contrário, tem aspecto pontual, isto é, exprime um sentimento ou reação instantâneos, como ocorre quando levamos um susto. Quando o sentimento ou emoção são marcados pela temporalidade, a interjeição não se presta para exprimi-los. Vejam a dor. Há dores pontuais, como as que sentimos por picada de um agulha, ou por um encontrão. São acontecimentos únicos, imprevisíveis e, portanto, expressáveis por interjeições. Mas há dores que duram, há dores que vão e voltam e nunca nos abandonam, embora possam diminuir de intensidade. Essas, as interjeições não conseguem exprimir, por isso prefiro as dores que posso expressar pelas interjeições. 
Há, no entanto, em português, uma interjeição que não gosto de usar, tenho medo dela. Me assusta. Adeus! Dizer adeus! não é dizer tchau!, Um tchau traz em si a ideia de um retorno rápido, na maioria das vezes insuficiente para sentir saudade, um tchau é um até breve, um até logo.  O adeus traz em si a ideia do nunca mais, da morte. Contrariando as próprias interjeições, adeus não é pontual, mas durativo. Traz em si a marca de uma saudade que se prolonga no tempo e nunca mais vai nos deixar.
Dedico este texto às duas únicas pessoas para quem disse adeus! Que elas continuem descansando em paz.

2 Comentários


  1. Excelente! Como sempre. Simplesmente adorei. Obrigada pelas preciosas contribuições, professor!

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *