Julieta, de Pedro Almodóvar e Alice Munro

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Está na Netflix, no momento em que escrevo este artigo, o filme Julieta, uma produção espanhola do aclamado diretor Pedro Almodóvar, com ótimo desempenho de duas belíssimas atrizes no papel principal: Adriana Ugarte (Julieta mais jovem) e Emma Suárez (Julieta mais velha). O roteiro tem por base três contos do livro Fugitiva, da canadense prêmio Nobel de literatura Alice Munro, Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio.
O filme costura dois momentos da vida protagonista. O recurso para unir os dois tempos é Julieta escrevendo à filha Antía, de quem se encontra separada, como conheceu Xoan (no livro de Munro, Eric), pai de Antía e os acontecimentos que sucederam ao casamento.
Almodóvar
O tema é o da culpa trágica, visto na perspectiva da mulher. Os contos de Munro tratam a questão da culpa de forma mais profunda que o filme do diretor espanhol. Há neles inúmeras referências à literatura grega, que a todo momento emerge na narrativa. No filme, essas referências são mais tênues. Nele, sabemos que Julieta é professora de literatura clássica e aparece numa cena logo no início do filme dando aula sobre a Odisseia de Homero; no trem, ela aparece lendo o livro A tragédia grega, de Albin Lesky. No conto Ocasião, é o livro de E.R. Dodds. (essa referência é muito significativa, pois Julieta pesquisa sobre o menadismo e encontra no livro uma passagem que grifara sobre a justiça cósmica). Nos contos, a filha de Julieta (Antía, no filme) se chama Penélope. No conto, a conversa que Julieta mantém com Xoan/Eric no trem está toda pontuada por referência à cultura grega. No conto Silêncio, há uma alusão ao romance História etíope, de Heliodoro, que trata da separação entre mãe e filha; no caso, o afastamento se dá porque a rainha da Etiópia, uma negra, tem uma filha branca e teme ser acusada de adultério.
O conto Ocasião centra-se na ligação entre Julieta e Xoan/Eric; o conto Daqui a pouco, na relação entre Julieta e seus pais e o conto Silêncio, no relacionamento entre Julieta e a filha e tem como marco importante a morte de Eric num acidente, quando a filha, Penélope (Antía, no filme de Almodóvar), tem 13 anos e está em férias na casa de uma amiga, Heather, no conto; Beatriz (Bea), no filme.
Como na tragédia grega, Antía/Penélope descobre o que aconteceu antes do trágico acidente que matou o pai por afogamento e passa a culpar a mãe de quem se afasta completamente, ao fazer uma espécie de retiro espiritual. Julieta tem alguns outros relacionamentos, mas sofre sozinha a separação da filha, sofrendo a culpa pela morte do companheiro e pelo suicídio de um passageiro que viajava com ela no trem, quando foi encontrar Xoan/Eric. Mas as Moiras estão aí para tecer o destino trágico também da filha que, como a mãe, sentirá a culpa por um acontecimento trágico que lhe sobrevirá.
O filme está disponível na Netflix e merece ser visto, mas se quiser mesmo mergulhar na culpa trágica, recomendo a leitura dos três contos de Alice Munro.

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