Leitura e leitor

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A leitura é tão antiga quanto a própria cultura ocidental, no entanto nem sempre foi vista como algo positivo e que deve, portanto, ser incentivado. No Fedro, Platão (428 – 327 a.C)  relata que Sócrates rejeitava a palavra escrita porque ela poderia significar a perda da memória. Para esse filósofo grego, a escritura, por ser exterior à memória, era nociva, pois não revelava a verdade, mas apenas a aparência.

Nesse diálogo platônico, Sócrates narra que a escrita teria sido inventada pelo deus Theuth, que a mostra ao rei do Egito, Thamuz, dizendo que aquele invento tornaria os egípcios mais sábios. Thamuz retruca, contra-argumentando que a escrita produziria justamente efeito contrário; pois, assim como ocorre com a pintura, a escritura não é viva; pois, quando perguntamos algo ao texto escrito, ele se limita a dizer sempre a mesma coisa. Transcrevo, a seguir, o trecho do Fedro em que Thamuz condena a escrita por trazer o esquecimento.



“Pois esta invenção dará origem nas almas de quem a aprenda o esquecimento, por causa do descuido com cultivo da memória, já que os homens, por culpa de sua confiança na escritura, pois só se lembrarão de um assunto por meio de sinais exteriores a ele e não em si mesmos. Assim, o que inventaste não é um remédio para a memória, mas apenas para a recordação. Aparência de sabedoria e não sabedoria verdadeira é o que transmite a seus discípulos. Pois havendo falar de muitas coisas sem instrução, darão a impressão de conhecer muitas coisas, apesar de ser em sua maioria perfeitos ignorantes; e serão fastidiosos companheiros, ao terem se convertido, em vez de sábios, em homens com presunção de sê-los.”


Para Umberto Eco, o Fedro platônico mostra que toda modificação cultural “se apresenta como uma profunda colocação em crise do ‘modelo cultural’ precedente“,  no caso a passagem de uma cultura oral para uma cultura escrita. Se transportarmos as colocações expostas nessa passagem do Fedro para os dias de hoje, observaremos que um ‘modelo cultural’, representado pela cultura impressa é colocado em crise por um modelo que o sucede, a cultura digital, na medida que os textos, inclusive os escolares, têm-se se apresentado em suportes outros que não o tradicional livro em papel.

 Em A República, Platão avança na crítica que faz à escritura, estendendo-a também a uma forma ‘mais elevada’ de escritura, a literatura, por considerá-la enganosa já que é mera cópia daquilo que é imitação no mundo das ideias, não mostrando as coisas como são, mas como aparentam ser. Para o discípulo de Aristóteles, a literatura só é aceitável quando possuir características pedagógicas, transmitindo aos leitores valores nobres.

Em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, relata-se um fato que mostra que, ao contrário do que se afirma na citada passagem do Fedro, a escritura não é causa do esquecimento, pelo contrário é uma forma eficaz de combatê-lo. O episódio narrado em que se expõe essa ideia aparece nas primeiras páginas do festejado romance do escritor colombiano.

Certa feita uma peste atacou o povoado de Macondo, local onde se desenrola a maioria das ações do romance de Márquez, causando insônia e perda da memória de seus habitantes. Para defender a população do olvido, o personagem José Arcádio Buendia põe em prática um método que aprendera com seu filho, o primeiro Aureliano. Transcrevo, a seguir, o trecho do romance em que isso é relatado.


“Foi Aureliano quem concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários meses, das evasões da memória. Descobriu-a por acaso. Insone experimentado, por ter sido um dos primeiros, tinha aprendido com perfeição a arte da ourivesaria. Um dia, estava procurando a velha bigorna que utilizava para laminar os metais, e não se lembrou do seu nome. Seu pai lhe disse: “tás”. Aureliano escreveu o nome num papel e pregou com cola na base da bigorninha: tás. Assim, ficou certo de não esquecê-lo no futuro. Não lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestação do esquecimento, porque o objeto tinha um nome difícil de lembrar. Mas poucos dias depois, descobriu que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então, marcou-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a inscrição para identificá-las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais impressionantes da sua infância, Aureliano lhe explicou o seu método, e José Arcadio Buendía o pôs em prática para toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado. Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira.


Da mesma maneira que marcar as coisas com seus respectivos nomes afastou os habitantes de Macondo do esquecimento, o pensamento de Sócrates, que julgava a escritura uma forma inferior à conversação, só não foi esquecido porque Platão o registrou pela escrita. A invenção de Theuth seria, pois, remédio e não veneno. Hoje, passados alguns milênios, a memória não pode ser mais vista como o único instrumento de sabedoria, dado o enorme repertório de ‘coisas’ que devemos recordar.


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