Reflexões sobre a noção de texto II

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Em post anterior, comecei a apresentar algumas reflexões sobre a noção de texto. Falei que a leitura é um processo de construção de sentido em que autor e leitor interagem por meio do texto e esquematizei esse processo por meio de um triângulo. Naquele post, tratei especificamente do autor. Neste, discorro sobre o leitor e sobre a noção de texto.

O leitor dialoga com o autor por meio do texto para o qual constrói um sentido. Uma corrente, surgida na Universidade de Constança, na Alemanha, centrou seus estudos na recepção da obra e, por isso mesmo, é chamada de estética da recepção. Para ela, o interesse cognitivo não recai nem no autor, nem no texto, mas no leitor, procurando verificar como este último constrói o sentido. Entre os teóricos da estética da recepção, destacam-se Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser.

Jauss investiga a recepção da obra literária tanto sincrônica quanto diacronicamente, ou seja, procura investigar não só como as obras são lidas hoje, mas como foram em contextos históricos passados, uma vez que, quando passa de um contexto para outro, ela adquire novos significados. Isso significa que a leitura que fazemos hoje de Dom Quixote é diferente da que foi feita quando foi publicado pela primeira vez, isso porque os horizontes de expectativas do leitor do século XXI são diferentes dos horizontes do leitor do século XVII.

Para Jauss, o valor estético de uma obra literária é uma construção do leitor com base em comparações que ele realiza com outras obras lidas. Iser preocupa-se com os efeitos que o texto suscita no leitor. Sustenta que o texto apresenta vazios e que o leitor os preenche com base em seus conhecimentos prévios no ato da leitura, tornando-se coautor do texto num procedimento de cooperação interpretativa. Iser afirma ainda que leitor e autor são jogadores e o local em que jogam é o texto. Trato a seguir da noção de texto.

A palavra texto recobre vários significados. Provém do latim textus, que está presa ao verbo latino tecere, que significa “fazer tecido”, “entrelaçar”. Tem-se então um conceito inicial para texto como o resultado de algo que foi tecido. Esse conceito nos traz um problema na medida em que vê o texto como um produto, ou seja, como algo pronto, acabado. Portanto não se aplicaria ao hipertexto, por exemplo, já que este está em contínuo processo de construção. Contudo, mesmo textos impressos admitem leitura hipertextual como ocorre, por exemplo, no romance O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar. Se lembrarmos ainda que o texto veicula um sentido e que este não está no texto, mas é construído pelo leitor na interação, conclui-se que a conceituação de texto como um produto não nos serve. Faz-se necessário, portanto, alargar a concepção de texto, que deve ser visto não como produto, mas como processo, como um evento, uma performance, ou como um jogo que está sendo jogado.

Dependendo da corrente teórica, podem-se encontrar várias concepções para texto e, mesmo dentro de uma mesma corrente, conceitos diferentes, dependendo ao autor. Para a semiótica, trata-se de um objeto de significação formado por um conjunto de elementos estruturados e captados pelos sentidos, que estabelece comunicação entre um destinador e um destinatário, podendo manifestar-se em várias formas semióticas (alfabéticas, fílmicas, pictóricas etc.), daí os semioticistas falarem em texto cinematográfico, texto pictórico etc. Na semiótica de tradição eslava, afirma-se ainda que a própria cultura é um sistema de signos e, dessa forma, constitui-se num texto, ou seja, o acesso que temos ao mundo da cultura se faz por meio da leitura de sistemas semióticos, o que vai ao encontro da famosa frase do filósofo francês Jacques Derrida: “Nada existe fora da textualidade”.

Beaugrande, que se filia à linguística textual, conceitua texto como “um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e cognitivas” . Marcuschi, que também se filia a essa vertente teórica, amplia o conceito de Beaugrande, afirmando que “o texto é um sistema de escolhas extraído de sistemas virtuais entre os quais a língua é o sistema mais importante”. Koch, tomando por base uma concepção interacional (dialógica) de língua, considera o texto o lugar onde os interlocutores (autor e leitor) interagem e defende que o sentido do texto não preexiste à interação, uma vez que é construído no processo interacional. Para essa autora, pelo menos do ponto de vista do leitor, todo texto é um hipertexto. Textos acadêmicos, por exemplo, são povoados de referências, citações, notas de rodapé ou de final de capítulo. Tem-se então um hipertexto, em que as chamadas para as notas ou as referências feitas no corpo final do trabalho funcionam como links. O leitor poderá, por exemplo, ler o texto de maneira contínua e só consultar as notas após essa leitura; consultar apenas as que mais lhe interessarem ou mesmo não ler nenhuma. Poderá, também, interromper sua leitura a cada chamada e integrar o conteúdo da nota à leitura que está fazendo. Ao encontrar uma referência, quer no texto, quer em nota, poderá inclusive suspender a leitura para consultar a obra ali referendada. Nesta nova obra, por sua vez, poderá encontrar outras referências, que o levem a outros textos, e assim por diante. A diferença com relação ao hipertexto eletrônico está apenas no suporte e na forma e rapidez do acessamento.

Para muitos linguistas, texto é tomado como sinônimo de discurso. Para outros, o texto é a materialização do discurso. Marcuschi afirma que “não é interessante distinguir rigidamente entre texto e discurso, pois a tendência atual é ver um contínuo entre ambos com uma espécie de condicionamento mútuo”, no entanto estabelece uma diferença entre os dois conceitos, ao afirmar que o discurso corresponde ao texto, mas acrescido de suas condições de produção. Sob o prisma da teoria da enunciação, o texto é um enunciado em que se manifesta o processo linguístico; nesse sentido, opõe-se a discurso. Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), “o texto é o produto da atividade verbal oral ou escrita que forma um todo significativo e acabado, qualquer que seja a sua extensão”.

Apresentei alguns conceitos de texto; você poderá encontrar outros, por isso é preciso que sempre se deixe claro em que sentido se está usando essa palavra. Proponho o seguinte conceito para texto: uma unidade comunicativa provida de coerência e formada por qualquer sistema de signos. O significado de suas partes não é autônomo, já que decorre das relações que elas mantêm entre si, sendo o significado global maior do que a soma de suas partes.

Ampliando o conceito, pode-se afirmar que o texto é uma unidade comunicativa. Isso significa que ele comunica algo para alguém num determinado contexto de interação. Texto pressupõe completude – por meio dele o autor disse tudo o que pretendia dizer naquele evento comunicativo. A noção de completude implica que em relação ao texto há um antes, com o qual dialoga, e um depois, que provoca no leitor/ouvinte uma atitude responsiva ativa, seja de concordância, seja de refutação. Ser formado por qualquer sistema de signos significa que por trás de qualquer texto há um código que autor e leitor/ouvinte devem compartilhar. A noção de texto não se restringe, pois, ao verbal; uma pintura, um filme, uma dança também constituem textos e pode haver textos multissemióticos, aqueles que misturam diferentes sistemas de signos. A internet é um campo aberto para a produção de textos multissemióticos.

O texto caracteriza-se por apresentar coerência. Há autores que não fazem distinção entre os conceitos de coerência e coesão textuais. Atualmente, entende-se predominantemente que são conceitos diversos. A coesão está ligada à amarração das unidades na superfície do texto, isto é, a coesão se processa no plano linguístico. A coerência diz respeito à continuidade de sentido, ou seja, refere-se ao plano cognitivo e depende de nosso conhecimento prévio. Um texto pode apresentar coesão, mas não apresentar coerência; por outro lado, a coesão é elemento facilitador da coerência.

Como afirmei no post em que tratei anteriormente esse tema, essas reflexões estão desenvolvidas em nosso livro A produção literária e a formação de leitores em tempos de tecnologia digital, publicado pela Editora InterSaberes.

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