Verossimilhança

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O substantivo verossimilhança e o adjetivo verossímil contêm dois radicais: vero, que significa verdadeiro e símil, semelhante, parecido. Portanto, verossímil é aquilo que parece ser verdadeiro, que é semelhante à verdade, que pode acontecer na realidade. O verossímil, como se vê, é um simulacro da verdade, na medida em que é verdadeiro apenas na aparência.

Mia Couto assim começa o conto O cachimbo de Felizbento: “Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória“. Numa linguagem poética, Mia Couto nos faz refletir sobre a oposição /ficção vs. realidade/ e, portanto, sobre a verossimilhança: a ficção finge ser verdade, mas ela é contada pela palavra, que é como fumaça, portanto leve demais para se prender ao real. Há, para ele uma relação simbiótica entre ficção e verdade, pois esta também quer se tornar aquela. Em outras palavras, Couto retoma a questão de que a arte imita a vida, mas a vida imita a arte.

Para Aristóteles, a arte representa o real, ela é uma imagem do real. Dessa forma, ela não é o real, mas uma imitação (mímesis é o termo que Aristóteles usa), como um quadro ou uma fotografia. O quadro não é a coisa (o real), mas uma representação da coisa real. Você certamente conhece o quadro de Magritte, que reproduzimos a seguir.

A traição das imagens, René Magritte

A legenda diz Isto não é um cachimbo. De fato, o que você na tela não é o objeto cachimbo, mas uma representação do objeto, tanto que não é feito de madeira e não se pode usar o cachimbo do quadro para fumar. Apesar não ser um cachimbo verdadeiro, você o identifica como um cachimbo porque a representação que se faz dele é semelhante ao real. Em outras palavras, a imagem que Magritte nos apresenta do cachimbo é verossímil.

Até aqui falei de uma verossimilhança externa, isto é, tratei da correspondência entre a obra de arte e um referente que está no mundo natural, dizendo que a obra será verossímil quando o objeto que ela representa é semelhante ao que existe no mundo natural.

Há também uma verossimilhança interna, que diz respeito a articulação das partes do texto, de sua estrutura, de sua organização. O texto é um todo de sentido. Isso quer dizer que existe uma solidariedade entre os elementos que formam um texto, que o sentido decorre da articulação entre os elementos que o constituem. Para ser verossímil, não basta que o objeto representado seja semelhante ao que existe no mundo natural, é preciso que o texto esteja articulado de tal forma que o leitor / ouvinte possa compreendê-lo, ou seja, um texto que tenha contradições internas que sejam inexplicáveis não será verossímil.

Verossimilhança interna tem a ver com coerência narrativa. Se um texto no primeiro parágrafo apresenta a personagem X como homem, ela não pode aparecer no parágrafo seguinte como mulher, a menos que o texto nos apresente uma explicação verossímil para essa transformação. É o que acontece, por exemplo, em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, em que a personagem Diadorim nos é apresentada no início da obra como homem, no entanto, no final, o leitor descobre que se trata de uma mulher. Diadorim mantinha um segredo, que apenas no final é revelado.

A esta altura você pode estar perguntando se as narrativas fantásticas, contos de fadas e de ficção científica são inverossímeis? Quanto à verossimilhança interna, evidentemente tem de se ver caso a caso. Quanto à verossimilhança externa, é preciso observar que a arte cria uma supra-realidade com suas próprias normas que pode aceitar como verossímeis fatos que, se tomarmos por referência o real, não aceitaríamos. Por outro lado, o conceito de realidade é amplo, abrangendo não somente o mundo natural, mas o mundo criado pela imaginação, de modo que se pode criar textos verossímeis com elementos tirados do mundo da fantasia, como fadas, ogros, duendes etc.  Se houver verossimilhança interna (coerência narrativa) aceitamos como verdadeiro que seres humanos voem em tapetes, voltem ao passado, ou se transformem em insetos, por exemplo. O conhecimento do gênero nos leva a aceitar como verossímeis narrativas que representam fatos, acontecimentos e personagens que não seriam plausíveis no mundo real. Quando se começa a ler uma fábula, já está na expectativa do leitor que animais falem e, portanto, aceitamos que o lobo converse com o cordeiro. Num conto de ficção científica, há um contrato entre autor e leitor, pelo qual esse último aceita como lógico que um ser humano viaje para uma outra galáxia e retorne à Terra. Leia o trecho a seguir extraído do conto “A terceira expedição”, de Ray Bradbury.

A nave desceu do espaço sideral. Vinha das estrelas e das negras velocidades, e dos movimentos cintilantes, dos golfos silenciosos do céu. Era uma nave novíssima, tinha fogo em seu corpo e homens em suas cabines, e movia-se nu límpido silêncio, cheio de fogo e calor. Dentro dela estavam 17 homens, incluindo o capitão. A partida do campo de Ohio teve gritos e acenos à luz do sol, enquanto o foguete criava uma enorme flor colorida de chamas e seguia em direção à imensidão espacial para a terceira viagem terráquea a Marte.

Aceitamos narrativas em que naves espaciais venham do espaço sideral e façam viagens tripuladas a Marte e as apreciamos porque sabemos que, por serem uma obra literária, estamos no domínio da ficção e não do real.

Há um conto bastante conhecido do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, chamado O curioso caso de Benjamin Button. Há uma adaptação para o cinema desde conto, dirigida por David Fincher, com Brad Pitt no papel principal.

Para espanto de médicos e enfermeiras e do próprio pai, Benjamin Button, quando nasce, já é um idoso, com setenta anos de idade. À medida que o tempo passa, ele vai rejuvenescendo. Em síntese: enquanto para todos nós o tempo avança e vamos ficando cada vez mais velhos, até chegar à morte, para Button se dá o inverso. À medida que o tempo passa, Button vai ficando cada vez mais moço, enquanto as pessoas que o cercam vão envelhecendo, a ponto de ele parecer uma criança e seu filho um adulto.

Nosso conhecimento de mundo nos diz que não pode ser real que, à medida que o tempo passa, vamos voltando à infância, nem que uma criança possa ter um filho que é adulto. Mas, quando lemos o conto (ou assistimos ao filme), aceitamos a história como verossímil porque sabemos que está no nível da ficção e porque percebemos nela uma verossimilhança interna.

Por trás dessa curiosa história, tomamos contato com temas que o autor vai nos apresentado com muito humor, como o do conflito de gerações e o da não aceitação do outro em decorrência da aparência ou da idade. Button tem vinte anos, mas aparência de cinquenta, quando conhece Hildegard, por quem se apaixona e vem a se casar. Mas como ele rejuvenesce e ela envelhece, num determinado tempo, ele é bastante jovem e ela já uma senhora com certa idade. Button passa então a rejeitar a própria esposa por considerá-la velha. Na narrativa, até o próprio protagonista manifesta intolerância em relação ao outro, em decorrência da aparência física e da idade. 

Veja mais um exemplo. No conto Bobók, de Dostoiévski, a ação se passa em um cemitério. Há várias personagens, todos mortos recentemente e enterrados, que conversam entre si no conto. A genialidade desse conto está justamente no fato de as personagens estarem mortas e, portanto, falarem o que bem entendem, já que a vergonha não atinge os mortos. As personagens representam diversas classes sociais, mas como estão mortos, as diferenças de classe se anulam e, portanto, todos se igualam; não há, pois, entre elas qualquer regra ou hierarquia que ponha limites na interação, como ocorre no mundo dos vivos.

A verossimilhança não é característica apenas de obras literárias, mas de qualquer forma de narrativa, inclusive as populares, as não verbais e as sincréticas. Mas assim, como nas obras literárias, a verossimilhança de um filme (um texto sincrético), por exemplo, deverá levar em conta a coerência narrativa (verossimilhança interna) e o gênero.

No filme Sonhos, de Akira Kurosawa, em um dos episódios, um pintor (ou estudante de pintura) está numa galeria (ou museu) observando vários quadros do artista Vincent van Gogh, ali expostos. Num determinado momento, ao olhar para uma das telas, entra dentro dela e pergunta para algumas mulheres ali retratadas e que estão lavando roupa sob uma ponte onde pode encontrar o pintor Vincent van Gogh. As lavadeiras dão a informação a ele, que sai à procura do pintor com o qual passa a ter um diálogo, enquanto percorrem lugares que podem ser reconhecidos em outras pinturas do artista holandês. O que esse episódio nos mostra é uma bela viagem ao mundo de van Gogh e às suas obras.

Nosso conhecimento de mundo mostra que não é passível de ser verdade uma pessoa entrar dentro de uma pintura que está exposta numa galeria e ir se encontrar com o autor da tela e estabelecer um diálogo com ele. No entanto, esse episódio do filme (e os demais) é verossímil na medida em que faz parte de uma narrativa onírica. O que o filme narra em seus oito episódios são sonhos, como se depreende do próprio título e, na linguagem onírica, as imagens revelam a linguagem do inconsciente, por isso é verossímil que se narre que alguém consiga entrar em um quadro, voltar à Holanda do século XIX e conversar com Vincent van Gogh.

Este texto reproduz com algumas modificações o que publiquei no livro O conto na sala de aula, escrito em parceria com Jessyca Pacheco, publicado em 2017 pela Editora InterSaberes.

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