A sensualidade dos livros

Tempo de leitura: 2 minutos

Não consigo ler no computador um texto que tenha mais que dez páginas. Sou daqueles que preferem sentir o cheiro e a textura do papel. Tenho com os livros uma relação sensual.

Em De amor e trevas, livro autobiográfico do israelense Amós Oz (1939 – 2018), publicado no Brasil pela Companha das Letras em tradução de Milton Lando, há um trecho com o qual me identifico. Amós está narrando uma passagem de sua infância em que seu pai teve de se desfazer de alguns livros para arrumar dinheiro porque precisava comprar comida para a família.

A metáfora que o narrador usa para nomear o ato do pai de vender os livros é reveladora. Vendo o pai chegar em casa sem os livros, mas com um saco de papel contendo ovos, pão e queijo, o narrador diz que o pai “voltava do sacrifício de Isac”.

A passagem em que se descreve a relação sensual do pai do narrador com os livros é a que segue.

“Eu podia imaginar seu sofrimento [do pai em ter de vender os livros]: meu pai tinha uma relação sensual com os livros. Gostava de apalpar, sentir, folhear, acariciar, cheirar. Era um insaciável caçador de livros, ia logo pegando e folheando, mesmo na biblioteca de desconhecidos. E a verdade é que os livros daquele tempo eram muito mais sensuais que os de hoje. Havia o que cheirar, e havia o que apalpar e acariciar. Havia livros com letras douradas gravadas sobre perfumadas encadernações couro, levemente ásperas, cujo toque provocava arrepios na pele, como se você tocasse em algo oculto e desconhecido, algo que estremecesse um pouquinho ao toque dos dedos. E havia livros encadernados em cartão revestido de tecido, colados com uma cola de perfume extremamente voluptuoso. Cada livro tinha seu próprio odor secreto e excitante. Às vezes a encadernação de tecido se soltava um pouco do cartão, deixando entrever uma nesga, como uma saia muito curta, e era difícil a tentação de dar uma espiada naquele espaço ensombre ido entre o corpo e a roupagem, e ali aspirar aquelas fragâncias vertiginosas.”

4 Comentários


  1. Que texto maravilhoso ! Eu concordo com cada palavra. Tenho a mesma relação com os livros, tanto que não uso Kindle.

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  2. Não li esse livro do Amós. Essa passagem que escolheu, de fato com tintas sensuais, é maravilhosa e me instigou bastante. Mais um livro pra fila!

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    1. Maria Alice, o livro é ótimo. Tem um quê de memórias. Houve uma adaptação para o cinema produzida e estrelada pela Natalie Portman chamada também “De amor e trevas”. Assisti há algum tempo na Amazon. Vale a pena ver também.

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  3. O livro até mesmo como objeto é fascinante. Gostei muito do texto, também sou um tanto apegada com os livros físicos.

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