Ulisses, um poema de Fernando Pessoa

Tempo de leitura: 10 minutos

Ulisses

Neste artigo, comento o poema “Ulisses”, de Fernando Pessoa, que faz parte da obra Mensagem. Antes dos comentários, peço que leiam o poema, que é bastante curto.


Ulisses
 
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
 
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
 
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Fernando Pessoa em frente ao Martinho da Arcada em Lisboa

Parto do pressuposto de que o texto (e o texto poético mais ainda) é, para usar uma metáfora de Umberto Eco, uma “máquina preguiçosa” na medida em que aquele que o escreveu deixou para aquele que o lê parte do trabalho da construção do sentido.

No poema, intencionalmente, o poeta não apresenta explicitamente ao leitor todas as informações necessárias para que este alcance o sentido pretendido. Cabe, portanto, ao leitor, a partir de elementos linguísticos, construir esse sentido. As “pistas” linguísticas a que me refiro funcionam como input para ativação de sistemas de conhecimento necessários para que o leitor processe o texto como coerente e, portanto, como portador de sentido. Para construir o sentido do poema, o leitor terá de ativar conhecimentos que têm armazenado na memória a fim de estabelecer o contexto do poema.

Quanto ao contexto histórico-cultural, Ulisses faz parte do único livro de Pessoa publicado em vida, Mensagem. Essa obra é constituída de 44 poemas, cuja classificação não é rígida: o épico convive com o lírico. Em “Ulisses”, o componente épico diz respeito à exaltação heroica de matéria histórica. No entanto, essa exaltação não se dá em tom grandiloquente. O épico é, por assim dizer, fragmentado e interiorizado, daí o tom lírico do poema.

Em Mensagem, vamos encontrar poemas cuja temática é a própria história de Portugal, referindo-se a personagens históricos (D. Henrique, D. Diniz, D. Afonso Henriques, D. Duarte, D. Sebastião, Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães…). Mas, paralelamente, há também referências a entidades míticas ou àquelas que só têm existência no mundo literário (Ulisses, Santo Graal, o Mostrengo, Excalibur, o Grifo). Em síntese: em Mensagem, mito e história convivem harmonicamente.

No parágrafo anterior, fiz referência ao contexto extralinguístico do poema de Pessoa, situando o texto no conjunto de sua obra. Doravante, analiso o contexto do poema, tomando como referência o próprio texto, destacando os elementos linguísticos que possibilitam essa contextualização.

O poema apresenta três estrofes de cinco versos cada uma e rimas alternadas e com estrutura gramatical singularíssima.  A primeira, de caráter geral, introduz e ativa no verso inicial o referente mito, definido por meio de um oxímoro (“O mito é o nada que é tudo“), que funciona como uma tese que se pretende demonstrar. Nesse verso, como em outros do poema, observa-se uma relação de subordinação do positivo ao negativo (o nada que é tudo). Nessa estrofe, que é marcada pelas oposições paradoxais (o nada é tudo; o corpo morto é vivo), predominam substantivos (mito, nada, sol, céus, corpo, Deus) e os únicos adjetivos do poema (brilhante, mudo, morto, vivo, desnudo) e os verbos estão no presente do indicativo (é, abre).

Na segunda estrofe, não há um substantivo ou adjetivo sequer. Nela, predominam verbos no pretérito perfeito (aportou, bastou, criou), o que remete a fato passado (histórico ou mítico?) acabado e anafóricos que remetem a referentes que não estão presentes nos versos do poema. O objeto de discurso (mito) apresentado na primeira estrofe é desativado. Observe-se que não há referência direta a ele. O verso central dessa estrofe (e, portanto de todo o poema) é “sem existir nos bastou“, em que a concessão (“sem existir“), seguida do verbo bastar, de caráter totalizante, concretiza em termos verbais o oxímoro do verso inicial, vale dizer, o nada, aquilo que não existe, é tudo, por nos bastar. Em outros termos, aquilo que, no nível histórico, é um nada (“por não existir“), no nível mítico é tudo, por bastar.

Nessa segunda estrofe, é introduzido um novo objeto de discurso, representado pelo pronome demonstrativo este, que exige, por parte do leitor, certo esforço cognitivo no sentido de encontrar o elemento textual em que o demonstrativo se ancora. Via de regra, a interpretação de um anafórico se dá pela relação sintática que ele estabelece com outro termo do texto (inferência sintática). Quando isso não ocorre, a interpretação do anafórico estará na dependência de fatores contextuais e pragmáticos. No caso do poema de Pessoa, o anafórico este não se ancora em nenhuma palavra presente nos versos do poema, mas no título (Ulisses).

No caso do poema de Pessoa, a leitura do título orienta o leitor para a criação de um contexto em que se supõe que o poeta falará de Ulisses, no entanto o leitor não encontrará no poema referência explícita a esse personagem. Na segunda estrofe, ao deparar-se com o pronome este, o processamento do texto exigirá do leitor que identifique o referente textual do demonstrativo, entre algumas opções gramaticalmente possíveis. No entanto, apenas uma delas permite que se processe o texto como coerente: a palavra que serve como título ao poema. A identificação do referente do demonstrativo, como se percebe, exige por parte do leitor certo esforço cognitivo uma vez que:

i) há certa distância entre o pronome e o termo em que se ancora;

ii) a ancoragem se dá com um elemento que não está nos versos do poema, mas no título;

iii) o objeto de discurso que fora introduzido no título estava desfocalizado, na medida que na primeira estrofe não se fala de Ulisses, mas do mito.

No verso inicial da segunda estrofe (“Este que aqui aportou“), ainda aparece um advérbio (aqui) cuja interpretação só é possível se for ancorada no contexto histórico-cultural, que nos permite interpretar aqui como a cidade de Lisboa, ou seja, aqui deve ser interpretado com relação ao lugar em que o locutor se acha quando pronuncia aqui, informação essa que não consta no poema, mas no frontispício da obra em que foi publicado.

Na terceira estrofe, fala-se da lenda, que, no poema, só pode ser interpretada com referência àquilo que se define na primeira (o mito), ou seja, por meio de uma estratégia de referenciação, o mito, presente na primeira estrofe e que havia sido desativado na segunda, é retomado, possibilitando a progressão e a continuidade do texto. Note-se que, ao fazer a referência ao mito, por meio de outra palavra (lenda), há uma recategorização e ressemantização do mito. Isso acarreta que o leitor, para interpretar a palavra lenda adequadamente, tem de inferir que alguma mudança tenha ocorrido. Na primeira estrofe, o mito estava inserto no campo do divino. A recategorização e consequente alteração de sentido do mito em lenda se processa com o deslocamento do divino (céus, corpo morto de Deus) para o nível terreno (realidade). Nas lendas, como se sabe, há mescla de fatos irreais, frutos exclusivos da imaginação humana, com fatos reais, históricos.

O processamento do poema de Pessoa demanda um leitor dotado de uma competência enciclopédica vasta e que seja capaz de estabelecer, a partir do texto, o contexto de produção. O poema, como vimos, faz uma referência explícita a Ulisses que teria aportado em Lisboa (Este = Ulisses que aqui = Lisboa aportou). É justamente em decorrência dessa competência enciclopédica que associamos o Ulisses do título do poema de Pessoa ao herói mítico do poema homérico, Odisseu. Se a associação do título do poema ao herói mítico do poema homérico pode ser facilmente percebida, há um conhecimento que o leitor terá de compartilhar com o autor no sentido de construir um contexto que possibilite o processamento do texto e sua compreensão.

O poeta, ao mencionar Ulisses, faz uma referência explícita a um texto apócrifo que explica fantasiosamente a fundação de Lisboa. Trata-se, pois, de referência a uma lenda. Ao retomar a lenda da fundação de Lisboa, ela é recontextualizada, o que implica uma ressemantização da lenda. Grosso modo, lenda é um gênero textual de estrutura narrativa, com aspectos fantasiosos e transmitido oralmente através dos tempos, que costuma mesclar fatos reais com fictícios.

A intertextualidade do texto de Pessoa vai além da referência explícita ao herói homérico (Ulisses; Odisseu, em grego). O poema dialoga com um texto não escrito que relata a fundação da cidade de Lisboa pelo mítico herói grego. O poeta faz referência a uma lenda, segundo a qual Ulisses, antes de retornar à sua Ítaca natal, teria aportado em Portugal, fundando a atual cidade de Lisboa. Essa lenda constituiu-se a partir de uma falsa etimologia, que tem por base uma paronomásia: a palavra Lisboa proveria de ulissipona (ulissipona > lissipona > lispona > lisbona > lisboa). A semelhança fonética de ulissipona com Ulisses está na origem da lenda que atribui ao herói homérico a fundação mítica de Lisboa, sendo Ulisses a representação da vocação marítima dos portugueses.

O personagem mítico Ulisses migra de um texto para outro. Do poema homérico para uma lenda sobre a fundação de Lisboa e desta para o texto de Pessoa, e, como afirma Umberto Eco, quando a personagem migra de um texto para outro é porque ela já adquiriu cidadania no  mundo real e se libertou da história que a criou.

No poema, observa-se um ritmo descendente. O mito, colocado no campo do divino (1a. estrofe: sol, céus, corpo de Deus) se materializa na figura de um herói (2a. estrofe, Ulisses), que é o protagonista de uma lenda que se transforma em realidade (3a. estrofe: a lenda escorre e entra na realidade, fecundando-a). Esse ritmo descensional pode ser observado não só na particularização que o referente, introduzido na 1a. estrofe, sofre nas duas seguintes, mas também na seleção vocabular: “escorre” implica movimento de cima para baixo.

O caráter paradoxal do mito pode ser compreendido agora. Alguém, que nem existiu e que, portanto, não pôde ter vindo, bastou para nos criar. O que não tem consistência (nada) adquire materialidade e relevância (tudo). Aquilo que oculta a realidade serve, ao mesmo tempo, para revelá-la. Parodiando o sábio Heráclito, o mito não fala nem esconde, indica através de sinais. Compete ao leitor decifrar esses sinais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *