Língua

A voz passiva

3 minutos Aprendemos na escola que o verbo apresenta flexão de voz: ativa, passiva e reflexiva. Ensina-se que o que define a voz verbal é a relação entre sujeito e verbo. Se o sujeito pratica a ação, temos voz ativa; se sofre, voz passiva; se, ao mesmo tempo, pratica e sofre, temos voz reflexiva. Essa explicação, como se vê, é de base semântica e não morfológica, ou seja, desconsidera as formas gramaticais. Isso merece algumas reflexões. Ensina-se que o verbo é palavra que apresenta Leia mais

A questão da ortografia em português

6 minutos Em Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles, a personagem Virgínia, num determinado momento, diz: “A gente fala familha mas escreve família. Havia ainda uma porção de palavras assim”. Tomo emprestada essa fala de Virgínia, porque ela sintetiza o problema da escrita ortográfica, que a sabedoria da menina resumiu com propriedade: a gente não escreve como fala. Os textos comportam dois planos: um conteúdo e uma expressão de ordem material (uma linguagem qualquer). No caso dos textos verbais, o plano da expressão dos Leia mais

Campos lexicais

3 minutos As palavras guardam entre si associações. Uma palavra do léxico costuma evocar outras porque há entre elas algo comum. A palavra computador evoca, por exemplo, internet, planilha, vírus, software, notebook, mouse, link, teclado etc. A palavra escola evoca professor, aluno, livro, prova, exame, nota, aprovação, carteira, lousa, formatura etc. Para chamar alguém de tolo, o falante pode escolher, entre tantas outras, as palavras estulto, néscio, inepto, boçal, abestalhado, atoleimado, tacanho, bronco, bocó, babaca, parvo, palerma, obtuso, papalvo, pateta, sandeu, cavalgadura, ignorante, beócio… Leia mais

A carteirinha da doutora

3 minutos Em português, o sufixo –inho não é usado apenas para indicar diminuição como em sapatinho, menininho, telinha, podendo assumir outros sentidos e valores: folhinha (calendário), quentinha (marmita), flanelinha (guardador de carros), caixinha (gorjeta), amorzinho (valor afetivo) etc.   Há ainda o uso do sufixo –inho com valor depreciativo ou irônico: gentinha, engraçadinho, doutorzinho, povinho, santinha, jeitinho (na expressão “dar um jeitinho”), professorzinho (já ouvi gente acentuar o valor pejorativo, acrescentando o adjunto “de merda”). O valor pejorativo costuma ser dado pelo contexto, Leia mais

Xenofobia e os gregos

1 minuto Na palavra xenofobia, há dois elementos gregos: xeno (= estrangeiro) e fobia (= aversão). Detenho-me no elemento xeno (ksénos, em grego) relacionado à palavra grega xênia (ksenía), que significa ‘hóspede’ e também ‘anfitrião’. Xênia designa ainda ‘presente que os antigos gregos davam aos hóspedes após as refeições’. Como explicar essa aparente contradição, em que, em grego, a xênia tanto podia designar aquele que vem de fora, o hóspede, como aquele que recebe, o anfitrião? Simples: porque aquele a quem hospedamos hoje poderá Leia mais