Tempo de leitura: 4 minutos
Um leitor levantou uma questão que toda pessoa que trabalha com texto tem. Refere-se, especificamente ao uso dos demonstrativos este, esse e aquele para se referir a elementos presentes no texto.
Quando uma palavra (não precisa ser necessariamente pronome) se refere a algum outro elemento, palavra, expressão ou frase, já apresentada no texto, temos uma anáfora.
A palavra anáfora provém do grego (ana-“para trás” + phorá “ação de levar, trans- portar”, de phoréo “levar”). Seu sentido etimológico (levar para trás) coincide de certa forma com o que essa palavra é empregada nas ciências da linguagem que conceituam anáfora como uma relação de referência a uma expressão textual mencionada no texto, denominada antecedente.
Observe os exemplos a seguir:
Patrícia foi arrolada como testemunha. Ela deverá ser ouvida amanhã.
Os livros estão na mesa, leve-os de volta à biblioteca.
Nesses exemplos, os termos Patrícia e os livros são retomados, respectivamente, pelas formas pronominais ela e os. Temos nesse caso anáfora pronominal.
Atente agora para os exemplos que seguem:
O juiz acatou o pedido da defesa. O magistrado entendeu que não houve dano.
O cachorro deve ser vacinado, portanto leve o animal ao veterinário.
No primeiro exemplo, o juiz é retomado por um sinônimo, magistrado. No segundo, o termo o cachorro é recuperado por uma palavra de sentido mais abrangente (um hiperônimo), o animal. Nesse caso, temos o que se denomina anáfora lexical.
Este x esse
Os textos se caracterizam por uma continuidade de sentidos dada por avanços e recuos, não só retomando-se ideias já expressas (anáfora), mas também antecipando algo que ainda vamos dizer. Quando usamos uma palavra com função de antecipar algo que ainda será dito temos a catáfora.
Em síntese:
anáfora: movimento para trás (recupera algo já dito)
catáfora: movimento para frente (projeta algo que ainda vai se dizer).
Nos textos o pronome esse (e flexões) é usado por oposição a este (e flexões). Esse refere-se a algo que já foi mencionado no texto, portanto é usado em função anafórica, ao passo que o pronome este é usado para designar algo que ainda será dito. Nesse caso, dizemos que é empregado em função catafórica. A função da anáfora é lembrar algo já dito; a da catáfora é antecipar algo que ainda será dito.
Observe.
Assisti a Bridgerton, One Piece e Stranger Things. Essas séries estão disponíveis na Netflix.
Estas são as séries a que assisti na Netflix: Bridgerton, One Piece e Stranger Things.
No primeiro exemplo, empregou-se essas porque a referência é feita a um trecho que já apareceu. Tem valor anafórico, portanto.
No segundo, empregou-se estas porque a referência é algo que ainda será dito. Tem valor catafórico, portanto.
Outros exemplos.
Evitar aglomerações, usar máscaras e lavar as mãos. Esses procedimentos são eficientes para evitar contato com vírus. (esses retoma algo que já foi dito no texto, anafórico).
Estes procedimentos são eficientes para evitar contato com vírus: evitar aglomerações, usar máscaras e lavar as mãos. (estes faz referência a algo que ainda será dito, catafórico).
Estas serão as testemunhas da defesa: Paulo e Patrícia. (usou-se o pronome estas, porque tem função catafórica)
Paulo e Patrícia compareceram à audiência, essas foram das testemunhas arroladas pela defesa. (usou-se o pronome essas, porque tem função anafórica)
Este x aquele
Este também é usado por oposição a aquele. Nesse caso, ambos os pronomes têm função anafórica, ou seja, retomam algo que já foi mencionado no texto.
Este se refere ao último citado; aquele faz referência ao primeiro que foi mencionado.
Observe.
Recife e Salvador são duas importantes cidades brasileiras; esta é capital da Bahia, aquela, de Pernambuco.
Obs.: evidentemente pode-se substituir esta por segunda e aquela por primeira.
Recife e Salvador são duas importantes cidades brasileiras; a segunda é capital da Bahia, a primeira, de Pernambuco.
Isso e aquilo
Os pronomes demonstrativos neutros isso e aquilo permitem recuperar e resumir numa só palavra segmentos textuais extensos anteriormente apresentados, garantindo, dessa forma, a coesão do texto.
Imagine um texto cuja frase final seja em razão disso, o julgamento teve de ser adiado mais uma vez. O demonstrativo isso retoma e resume uma boa parte do texto anteriormente apresentada.
A mesma coisa ocorre no trecho de final de petições e sentenças com a expressão isso posto, em que o demonstrativo isso está retomando e resumindo numa só palavra o que foi dito anteriormente para justificar o que se diz ao final, como em “…isso posto, defiro o pedido de prorrogação do prazo…”, “isso posto, condeno Fulano de Tal…”