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Damos o nome de figuras de linguagem, ou figuras de retórica, aos recursos que têm por finalidade destacar a mensagem veiculada pelos textos em geral, ou seja, as figuras não são exclusividade de textos literários, podendo se manifestar nas diversas linguagens. Sim, usamos linguagens no plural para deixar claro que figuras podem aparecer inclusive em textos não verbais.
Podemos observar figuras em textos publicitários, no jargão de determinadas profissões, em textos humorísticos, em ditados e expressões populares, nas variedades populares da língua.
As figuras se manifestam nos níveis fonológico (sons da língua, os fonemas), sintático (no arranjo das palavras) e semântico (relativo aos sentidos das palavras e expressões), daí as gramáticas agrupá-las em figuras de som, figuras de construção e figuras de palavras. Elas fazem ainda referência às figuras de pensamento, que exploram aspectos sintáticos e semânticos.
A lista de figuras de linguagem é imensa. Acrescente-se que uma mesma figura pode ser designada por nomes diferentes para mostrar diferenças sutis. A inversão, por exemplo, é designada por hipérbato, anástrofe e sínquise, dependendo da forma como os termos aparecem invertidos.
Antonomásia e perífrase podem ser consideradas uma mesma figura. A mesma coisa se dá em relação à figura em que a transposição de significado se dá por uma relação de proximidade, como ocorre na metonímia e na sinédoque.
É importante salientar que as figuras de linguagem não devem ser vistas como ornamentos do discurso, mas como procedimentos argumentativos, ou seja, elas exercem função persuasiva.
As figuras de som dizem respeito ao plano da expressão dos textos, particularmente ao componente fônico da linguagem verbal, isto é, os fonemas. São as seguintes: a assonância, a aliteração, a paronomásia e a onomatopeia.
As figuras de construção, como o nome indica, relacionam-se à construção da frase, ou seja, seu aspecto sintático e se manifesta de várias formas: omissão e repetição de palavras, concordância não gramatical, construções com ordem dos termos alterada, modificação e quebra da estrutura sintática da frase. As figuras de construção mais comuns são: a elipse, o polissíndeto, a inversão, a silepse, o pleonasmo.
As figuras de pensamento dizem respeito ao sentido global do enunciado. Nelas, explora-se a relação entre o conteúdo linguístico (aquilo que se diz) e o referente extralinguístico. O conhecimento de mundo do leitor/ouvinte é que o leva a perceber que há um desvio entre o que se diz literalmente e a realidade a que a expressão linguística corresponde.
São figuras de pensamento: a antítese, a ironia, o eufemismo, a hipérbole, a personificação, entre outras.
As figuras de palavras, ou tropos, decorrem de alterações semânticas, isto é, de sentido das palavras ou expressões. Os dois principais tropos são a metáfora e a metonímia.
Por fim, chamo a atenção para o fato de que a ocorrência de uma figura não exclui a presença de outra(s).
Em “O meu nome é Severino / Não tenho outro de pia”, versos do poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, há zeugma (elipse da palavra nome no segundo verso) e metonímia (pia no lugar de batismo).
Na trova acadêmica abaixo, de autoria desconhecida, cantada pelos estudantes da Faculdade de Direito da USP, há assonância, aliteração, paronomásia (figuras de som) e quiasmo (figura de construção).
Não sei se é fato ou se é fita,
Não sei se é fita ou se é fato,
O fato é que ela me fita,
Me fita mesmo de fato.