Língua falada e língua escrita

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Há quem acredite que é o grau de formalidade que distingue a língua falada (e textos falados) da língua escrita (e textos escritos). Há ainda quem pense que a escrita é melhor que a fala, porque, enquanto a primeira é organizada e bem elaborada, a segunda é caótica, repetitiva, desorganizada.

Isso não tem fundamento algum. Há textos falados extremamente formais (pense, por exemplo, numa entrevista de emprego) e textos escritos muito informais e até mesmo organizados caoticamente.

A formalidade dos textos não deve ser vista como uma oposição absoluta de dois polos, formal vs. informal, mas como um continuum, que vai do extremamente informal, como costuma ocorrer no bate-papo espontâneo e descontraído, ao muito formal, como num discurso de posse de uma autoridade, ou do paraninfo de uma turma de formando em direito. Entre esses dois polos, há uma gama de textos que fazem parte de nosso dia a dia, como as crônicas de jornal, os e-mails, a aula, a consulta médica etc.

Outra coisa que distingue fala e escrita é a forma como são adquiridas. Enquanto a fala é adquirida naturalmente pelo convívio com os demais falantes; a escrita é ensinada, normalmente pelo processo de escolarização. O neurocientista Steven Pinker, em Guia de escrita (Editora Contexto), destaca que a dificuldade maior que se tem com a língua escrita do que com a falada é por que escrever não é um ato natural e cita Darwin que afirma que “o homem tem uma tendência instintiva para falar, basta ver o balbucio de nossas crianças pequenas, ao passo que criança alguma tem tendência instintiva  para cozinhar, preparar infusões ou escrever”.

A fala sempre precede à escrita; as pessoas primeiro adquirem a competência da fala para, posteriormente, aprenderam o sistema da escrita. Há línguas de determinados povos que sequer apresentam escrita, são as chamadas línguas ágrafas, como as de alguns povos indígenas.

É preciso ainda levar em conta que a escrita não é reprodução da fala. Trata-se de dois sistemas distintos e que apresentam características próprias. Há ocorrências que ainda podem ser observadas na língua escrita, mas que não aparecem na língua falada no Brasil, por exemplo, o uso do pronome oblíquo o (e flexões) na função de complemento verbal (“eu o convidei”, “não a encontrei”), a mesóclise (“convidar-me-ão”). Na língua falada, o que se observam são construções como “convidei ele”, “não encontrei ela”, “vão me convidar” ou “me convidarão”. Acrescente-se ainda que a língua falada apresenta recursos que a língua escrita não dispõe, como os gestos, a entoação, as expressões faciais, que podem alterar o sentido daquilo que é falado.


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