O faminto

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“A gente espera do mundo, e o mundo espera de nós / Um pouco mais de paciência” (Lenine)

Quando se fala em conto, não há como não lembrar as histórias contadas por Sherazade em O livro das mil e uma noites. São muitas as histórias que ela contava para o Sultão a cada noite e contá-las era se manter viva.

Sherazade consegue manter a atenção do Sultão durante tanto tempo, não só porque as histórias que narrava eram maravilhosas, mas também porque encaixava uma história na outra e assim a nunca terminava de contar, obrigando o Sultão a poupá-la para saber o fim da história, que Sharazade nunca apresentava.

O Livro das mil e uma noites não tem um autor. Trata-se de narrativas populares de dois ramos: o egípcio e o sírio. No Brasil, temos uma excelente edição deste livro, traduzido diretamente do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, e publicado pela Biblioteca Azul em cinco volumes numa edição muito bonita e bem cuidada.

Sherazade conta suas histórias todas as noites para quê? Simplesmente para afastar a morte, que é sempre adiada porque a aurora chega e o fio da história é suspenso para ser continuado na noite seguinte e assim por 1001 noites. Como a boneca russa matrioska, ela vai enfiando um conto dentro do outro para a que a vida continue. A narrativa é forma de afastar a morte. Isso é mágico como tudo no livro, a começar pelo número do título: 1001, número simbólico do infinito. Mil são incontáveis noites, mas são mil mais uma, portanto algo que remete àquilo que não acaba. 1001 não é apenas a soma de cardinais, é um número que está entre a coleção de unidades e o todo que as transcende. São infinitas noites que nos permitem afastar a morte pela narrativa.

Há no livro várias histórias de que gosto, mas o espaço só me permite falar de uma. Escolho “O faminto”, história contada durante as noites 166, 167 e 168, no episódio “O sexto irmão do barbeiro” e resume-se no seguinte.

O irmão do barbeiro está à procura de algo para saciar a fome e chega a uma bela casa e pergunta sobre o morador. É informado de que pode entrar, pois o dono da casa o receberá. O visitante diz ao dono da casa que está faminto e este então o convida para ser seu comensal. O anfitrião pede aos criados que tragam uma bacia com água para que façam suas abluções. Os criados fingem trazer a bacia e o dono da casa finge se lavar. O anfitrião pede que o faminto também se lave na bacia invisível e o faminto finge lavar-se. Pede em seguida que comecem a trazer a comida. Os criados simulam trazer as mais finas iguarias que o dono da casa finge provar e oferece ao faminto, que finge comê-las.

Depois de serem servidos vários pratos invisíveis que o dono da casa e o faminto simulam comer, o último diz ao primeiro que está satisfeito. O anfitrião diz que ele ainda deve comer os doces e pede aos criados que os tragam. Finge saboreá-los no que é imitado pelo faminto que, tendo o estômago doendo pela fome, diz que já está satisfeito. O anfitrião diz que ainda não beberam e pede que tragam jarras dos mais deliciosos vinhos. Mais uma vez finge beber e o faminto o imita.

Nesse momento, o anfitrião interrompe a farsa e diz ao faminto que, após procurar por muito tempo, encontrou um homem que tem a nobre qualidade da paciência e convida o faminto a morar no palácio e lhe dá agora comida de verdade e nunca mais na vida o faminto passou fome.

As histórias de O livro das mil e uma noites nos ensinam muita coisa e a história do faminto, em particular, nos ensinou que, mesmo no sofrimento, temos de ter paciência, suportar o adverso e confiar no tempo. A paciência é uma competência de um sujeito que sabe e pode ficar, em princípio, indefinidamente, na situação de espera. Mas o que o sujeito paciente espera? Sem dúvida, algo que se encontra no futuro, portanto a paciência tem uma dimensão temporal. O futuro que ele espera está numa dimensão distensa e, portanto, o paciente rejeita uma dimensão tensa de futuro, característica da ansiedade. O sujeito paciente nega a aceleração valorizando a desaceleração. Em outras palavras, ele rejeita a velocidade e preserva a duração.

Ter paciência é saber esperar. É entrar em conjunção com o tempo, naquilo que ele tem de contínuo, de durativo; com um tempo que flui naturalmente, sem interrupções ou sobressaltos. Entrar em conjunção com o tempo é entrar em conjunção com a vida.

Fechando o círculo que se abriu na epígrafe de Lenine, a paciência tem um lado intersubjetivo. Nós esperamos que o mundo seja paciente conosco, mas devemos nos obrigar a ser pacientes com o mundo. A história do faminto é contada por Raduan Nassar em seu romance Lavoura Arcaica.

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