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Aprendemos na escola que o verbo apresenta flexão de voz: ativa, passiva e reflexiva.
Ensina-se que o que define a voz verbal é a relação entre sujeito e verbo. Se o sujeito pratica a ação, temos voz ativa; se sofre, voz passiva; se, ao mesmo tempo, pratica e sofre, temos voz reflexiva.
Essa explicação, como se vê, é de base semântica e não morfológica, ou seja, desconsidera as formas gramaticais. Isso merece algumas reflexões.
Ensina-se que o verbo é palavra que apresenta flexão: pessoa (1ª, 2ª, 3ª); número (singular, plural); modo (indicativo, subjuntivo, imperativo); tempo (presente, pretérito e futuro) e voz (ativa, passiva, reflexiva).
As flexões são dadas por desinências, com exceção da flexão de voz. A indicação de que o verbo está na ativa, passiva e reflexiva não é dada, portanto, por critério morfológico.
Como o conceito de voz ensinado tem por base uma relação semântica entre o verbo e o sujeito, o estudante precisa reconhecer se o sujeito pratica a ação, se a recebe ou se a pratica e recebe ao mesmo tempo, por isso os exemplos apresentados são apenas verbos que tenham sujeito e exprimam ação. Se o verbo não tiver sujeito ou não exprimir ação, a flexão de voz fica fora de questão.
Só existe voz ativa quando o sujeito pratica a ação?
A reposta é NÃO. O conceito de voz ativa é essencialmente gramatical. Em frases como O animal recebeu um tiro e O menino levou uma surra, temos voz ativa, embora os sujeitos, o animal e o menino, nessas orações, sofram as ações expressas pelos verbos receber e levar, respectivamente. Se considerarmos o critério gramatical (o morfológico), está patente que elas estão na voz ativa porque as formas verbais recebeu e levou são de voz ativa.
Manchete publicada no jornal Folha de S. Paulo afirmava: “Batata e maçã conseguiram reduzir os níveis de agrotóxicos”. Do ponto de vista gramatical, trata-se de uma oração na voz ativa, embora o sujeito não tenha executado ação nenhuma, pois batata e maçã são seres inanimados; não praticam ações, portanto.
Para encerrar, e sem entrar na polêmica da chamada passiva sintética (conserta(m)-se bicicletas), já tratada neste blogue, ressalto que, pelo critério semântico, orações formadas pelo verbo infinitivo precedido pela preposição de e seguido de adjetivos como fácil, difícil, possível e semelhantes, teríamos voz passiva, porque, nelas, o infinitivo assume sentido passivo como se vê nos exemplos a seguir: Isso é fácil de resolver. (= de ser resolvido), É uma tarefa impossível de cumprir. (= de ser cumprida).
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