Advérbios de lugar

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Neste post, trato do uso de alguns advérbios de lugar. Antes, porém, é necessário recapitular algumas noções básicas que aprendemos, ou deveríamos ter aprendido, na escola.

Advérbios são palavras invariáveis usadas para modificar o verbo, indicando alguma circunstância. Invariável é a palavra que não admite flexão: advérbio não se flexiona em gênero e número como substantivos e adjetivos e em tempo como os verbos. Certos advérbios são usados para modificar adjetivos ou um outro advérbio, como ocorre com os advérbios de intensidade (muito bonita e bem cedo.)

As circunstâncias expressas pelos advérbios são inúmeras (tempo, modo, lugar, negação, intensidade, dúvida etc.). Não há uma lista fechada. Como afirmei no início, neste post tratarei apenas dos advérbios de lugar.

O espaço linguístico é organizado a partir do aqui, que é o lugar daquele(a) que fala, ou seja, da 1ª pessoa (eu).

Temos então um sistema tricotômico, isto é, a referência é sempre as pessoas do discurso. Assim:

1ª pessoa (eu) – advérbios de lugar aqui e cá

2ª pessoa (tu / você) – advérbio aí

3ª pessoa (ele / ela) – advérbios ali, lá, acolá

Como se observa, há dois advérbios referentes à 1ª pessoa, aqui e cá. O primeiro predomina no português brasileiro; o segundo, no português europeu.

Em razão disso, dizemos: Fique aqui (o lugar é o daquele que fala), Venha cá (para o lugar em que está aquele que fala). Fique (no lugar em que está aquele(a) com quem se fala). O documento está ali (num lugar diferente daquele(a) que fala, 1ª pessoa, ou daquele(a) a quem se fala, 2ª pessoa). O documento está lá (num lugar diferente daquele(a) que fala, 1ª pessoa, ou daquele(a) a quem se fala, 2ª pessoa). O documento está acolá (num lugar diferente daquele(a) que fala, 1ª pessoa, ou daquele(a) a quem se fala, 2ª pessoa).

Se ali e designam o espaço que não se refere àquele(a) que fala (1ª pessoa), nem daquele(a) a quem se fala (2ª pessoa), ou seja, se tanto ali como se referem ao espaço da 3ª pessoa, qual a diferença entre ali e ? Em outras palavras, quando devemos usar aqui e quando devemos usar ?

Aqui difere de pela maior proximidade ou maior afastamento da cena da enunciação (espaço onde se encontram os interlocutores, o eu e o tu/você). O espaço mais próximo à cena da enunciação é designador por ali e o mais distante por . Em síntese: é um lugar além do ali.

Em razão disso, dizemos para alguém que nos pergunta onde fica alguma coisa: Fica logo ali, se estiver mais ou menos próximo daquele que fala e Fica lá do outro lado da cidade, se estiver mais ou menos distante. Pela mesma razão, dizemos: Fica ali pertinho e Fica lá longe. Ninguém diria Fica ali longe ou Fica lá pertinho.

Exatamente por isso que dizemos: Fica lá onde o Judas perdeu as botas e não Fica aí onde o Judas perdeu as botas, porque o lugar em que o Judas perdeu as botas é considerado um lugar bastante distante de onde estão os interlocutores.

Imagine a situação: você vai a um restaurante onde espera alguns amigos que ainda vão chegar. Para adiantar, resolve já reservar uma mesa. O garçom lhe mostra uma mesa e diz: Aqui cabem quatro pessoas. Aponta para outra e diz: Ali cabem seis. Aponta, finalmente, para uma outra sala do restaurante e lhe diz: Lá temos uma mesa para oito pessoas.

Para encerrar, você deve estar curioso em saber quando se deve usar o acolá. Então vamos ver.

O advérbio acolá não é muito usado no português brasileiro contemporâneo. Em contextos mais formais, é usado para indicar um lugar ainda mais distante que o , ou seja, além do lá. Normalmente, é usado com valor progressivo. Há um lugar distante já mencionado () e há um lugar mais distante ainda (acolá), como se pode observar no exemplo abaixo.

– Onde fica o mercado?

– Fica lá, a cerca de uns cem metros daqui.

– E o shopping?

– O shopping fica acolá. Depois que você passar o mercado, ande mais um quilômetro e verá o shopping.

Aproveitando um exemplo anterior, podemos dizer que o acolá é o lugar onde o diabo perdeu as meias, porque está além do lá, lugar onde o diabo perdeu as botas antes.


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