Além da frase: sentidos implicados

Tempo de leitura: 5 minutos

David R. Olson, no livro O mundo de papel: as implicações conceituais da leitura e da escrita (Editora Ática) relata que Astington e Olson propuseram, na universidade, a estudantes de graduação o seguinte teste de múltipla escolha:

Amanhã é o aniversário de Adam. Bárbara está saindo escondida da sua casa para comprar um presente, quando ele a vê sair e pergunta aonde ela está indo. Bárbara responde: “Estamos sem leite. Vou até a padaria”.

a) Bárbara quer dizer que vai comprar leite.

b) Bárbara admite que vai comprar leite.

c) Bárbara afirma que vai comprar leite.

d) Bárbara dá a entender que vai comprar leite.

Trata-se de uma questão envolvendo leitura e construção de sentido bastante simples, levando-se em conta que era destinada a estudantes que frequentam uma universidade. O resultado, porém, revelou que 50% dos estudantes não acertaram a resposta. O que ocorreu?

Certamente, os estudantes não perceberam que o texto diz mais do que as palavras expressam.

Implícitos

As frases podem conter sentidos que vão além daqueles que estão literalmente expressos, ou seja, certos elementos do texto nos fornecem pistas para que, por meio de um processo inferencial, percebamos sentidos que estão implícitos. A esse respeito, leia o post Literalismo clicando aqui.

Certamente, os estudantes não perceberam que o texto diz mais do que as palavras expressam.

O jurista Lenio Luiz Streck costuma citar um exemplo interessante para criticar a leitura literal que alguns advogados fazem. Streck afirma que, quando uma norma diz: “É proibido andar na praia acompanhado de cães, mesmo com coleira”,  de forma alguma, pode-se interpretar que, acompanhado de um urso, será permitido permitido andar na praia.

Implicaturas conversacionais

O termo implicatura conversacional foi cunhado pelo filósofo inglês Paul Grice, que tinha como uma de suas preocupações mostrar e explicar os sentidos que estão além do que é dito. Para esse filósofo, a conversação deve reger-se pelo princípio da cooperação e deve obedecer a algumas máximas, que apresento a seguir.

1.Máximas da quantidade
a. Faça sua contribuição tão informativa quanto necessário (para os propósitos reais da troca de informações);
b. Não faça sua contribuição mais informativa do que o necessário.

2. Máximas da qualidade
Tente fazer sua contribuição verdadeira
a. Não diga o que acredita ser falso;
b. Não diga algo de que você não tem adequada evidência.

3.Máxima da relação
Seja relevante

4.Máximas da maneira
Seja claro
a. Evite a obscuridade;
b. Evite expressões vagas e ambíguas;
c. Seja breve (evite a prolixidade);
d.Seja ordenado

Para Grice, na conversação, é fundamental que haja cooperação daqueles que nela estão envolvidos. De fato, é difícil se imaginar uma conversação eficaz se não houver entre as pessoas que dela participam um esforço no sentido de serem cooperativos.

Imagine o seguinte diálogo entre o chefe e sua secretária:

– Dona Marta, me faça um favor, telefone ainda pela manhã ao Dr. Seabra e diga para ele me encontrar no fórum na próxima terça-feira às duas horas para assinarmos o acordo que porá fim à demanda entre nossos clientes. Assim, já despachamos com o juiz na própria terça para obter a homologação do acordo.

– Doutor Paulo, terça-feira que vem é carnaval.

Na resposta da secretária, além do que está literalmente expresso, há uma informação que pode ser inferida: o acordo não poderá ser assinado na próxima terça-feira.

Nosso conhecimento de mundo diz que, no Brasil, terça-feira de carnaval é feriado e, por isso, o fórum estará fechado.

Como se pode notar, a frase dita pela secretária, naquele contexto, assume um sentido diferente do sentido literal.

Dizemos que a frase Doutor Paulo, terça-feira que vem é carnaval implica a frase Doutor Paulo, o acordo não poderá ser assinado na próxima terça-feira, porque nesse dia não haverá expediente no fórum, porque é  feriado.

O princípio da cooperação proposto por Grice é fundamental para que falantes e ouvintes percebam os sentidos implicados numa dada frase, uma vez que ambos participam da construção do significado, preenchendo, por meio de inferências, lacunas da frase.

Como se pode observar, a implicatura decorre não só de fatores de natureza gramatical, mas também de fatores não gramaticais, como o nosso conhecimento de que terça-feira de carnaval é feriado no Brasil.

Chierchia, no livro Semântica (Editora da Unicamp  e Editora da Universidade Estadual de Londrina) afirma que “a implicatura é aquilo que o falante comunica globalmente, para além do significado gramatical”.

As implicaturas estão na base das ironias (leia o post Ironia, clicando aqui), na medida em que nessa figura de linguagem o sentido literal abarca um outro sentido que não está explícito na superfície textual.  O célebre trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em que o narrador diz “Marcela amou-me durante onze meses e quinze contos de réis”, traz um sentido implicado: Marcela era altamente interesseira.


Os dois primeiros módulos da Gramática Ernani Terra para Concursos e Exames, edição revista e ampliada, já estão disponíveis em versão exclusivamente digital na Amazon. Para adquiri-los, basta clicar no link abaixo.

Módulo 1: Fonologia https://www.ernaniterra.com.br/ironia-2/

Módulo 2: Morfologia https://www.ernaniterra.com.br/ironia-2/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.