Ambiguidades

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Ambiguidade
Por Ernani Terra ©

Uma mensagem bastante engraçada que vi no Facebook outro dia me deu o mote para escrever sobre algo que se costuma apontar como um defeito de linguagem.

A mensagem é a seguinte:

 Ambiguidade

O efeito de humor decorre de uma dupla leitura que se pode dar à frase. O analista empregou o pronome as para substituir cartas, evidentemente. Na leitura que o paciente fez, o as se refere a pessoas e não a cartas. Em resumo, analista: queime-as (= as cartas); paciente: queime-as (= as pessoas).

Quando uma sentença, possui mais de um sentido e, portanto, é suscetível de ser interpretada de mais de uma maneira, dizemos que ela é ambígua ou que ocorreu ambiguidade. Cabe à semântica não apenas mostrar as ambiguidades, mas também explicar os mecanismos linguísticos gerais que produzem sentenças ambíguas.

A ambiguidade é usada no humor, na literatura, na publicidade. Nesse caso, trata-se de um recurso muito expressivo. Em outros casos, a ambiguidade pode deixar o leitor em dúvida e não conseguir construir um sentido preciso para a mensagem. Discuto essa questão a partir de exemplos.

(1) Polícia encontra livro roubado de Borges.

Se o leitor se restringir à leitura do título poderá ficar em dúvida se o objeto do roubo foi um livro que pertencia ao escritor argentino Jorge Luis Borges, ou se o objeto do roubo foi um livro escrito por Borges. Da forma como está redigida, essa frase comporta, portanto, dois sentidos distintos:

(1a) Polícia encontra um livro de autoria de Jorge Luís Borges que havia sido roubado.

(1b) Polícia encontra um livro que pertencia ao acervo pessoal do escritor Jorge Luís Borges.

Reproduzo a seguir a notícia a que o título em (1) faz referência.

Polícia encontra livro roubado de Borges

A Polícia Federal da Argentina encontrou um exemplar da primeira edição de um livro de poemas de Jorge Luis Borges publicado em 1925 e que havia sido roubado. A obra está avaliada em US$ 10 mil, e estava em uma barraca numa feira de livros de Buenos Aires, segundo informações do jornal Clarin. O exemplar de Luna de Enfrente pertencia ao colecionador Horacio Porcel e foi roubada dele a menos de um ano. O livro traz uma dedicatória de Borges ao escritor argentino Ricardo Güiraldes. (Folha de S. Paulo)

A leitura da notícia por inteiro deixaria claro que se trata de um livro escrito por Jorge Luis Borges e não de um livro de seu acervo pessoal. Veja que o contexto funciona como desambiguizador, ou seja, a frase é ambígua fora de contexto, que permite identificar que o possuidor do livro era o colecionador Horacio Porcel, de quem o livro foi roubado.

A manchete a seguir, publicada pelo portal UOL, também permite dupla leitura.

            Famílias de jovens mortos na Providência relatam ameaças a ministro

Pode-se ler que as famílias dos jovens mortos recebem ameaças ou que o ministro seja vítima de ameaças. Evidentemente, a leitura da matéria em sua íntegra, permite a desambiguação, deixando claro que a vítima das ameaças são as famílias e não o ministro.

            Famílias de jovens mortos na Providência relatam ameaças a ministro

Famílias de moradores do morro da Providência, no centro do Rio, mortos por traficantes do morro da Mineira, relataram nesta sexta-feira que estão recebendo ameaças. Eles se reuniram com o ministro Paulo Vanucci, secretário especial dos Direitos Humanos, e o presidente da OAB nacional, Cezar Britto, e pediram para ser incluídos em programas de proteção de testemunhas.

Seguem mais alguns exemplos de sentenças que apresentam ambiguidades:

(2) Nova Iorque vê as primeiras fotos de Marylin Monroe.

(3) O professor encontrou o aluno preocupado.

Em (2), há duas leituras possíveis:

(2a) Nova Iorque vê as primeiras fotos que tiraram de Marylin Monroe.

(2b) Nova Iorque vê as primeiras fotos tiradas por Marylin Monroe.

Em (2a), Marylin Monroe é a fotografada; em (2b), a fotógrafa.

Nesse caso, a ambiguidade resulta do fato de que, fora de contexto, a expressão de Marylin Monroe pode funcionar como agente ou paciente de fotos.

Em (3), as leituras possíveis são:

(3a) O professor, que estava preocupado, encontrou o aluno.

(3b) O professor encontrou o aluno, que é preocupado.

(3c) O professor encontrou o aluno e o aluno estava preocupado quando o professor o encontrou.

Em (3), a ambiguidade decorre do fato de que o adjetivo preocupado pode estar se referindo tanto a professor quanto a aluno e também pelo fato de preocupado poder exprimir uma qualidade permanente ou transitória do aluno.

Seguem mais alguns exemplos:

(4) Na semana passada, pintaram o banco.

(5) Segure o cabo com força.

Fora de contexto, essas sentenças podem ser interpretas como:

(4a) Na semana passada, pintaram uma agência bancária.

(4b) Na semana passada, pintaram um assento provido ou não de encosto.

(5a) Segure a extremidade (o cabo da panela) com força.

(5b) Segure a corda com força.

(5c) Segure o militar com força.

Nos exemplos (4) e (5), a ambiguidade decorre da homonímia.

Veja mais algumas frases:

(6) Pedro tem por hábito contar o que ouve.

(7) Pedro tem por hábito contar o que houve.

Na língua escrita, não há qualquer ambiguidade nessas frases. Em (6), afirma-se que Pedro tem por hábito contar aquilo que escuta e em (7), que ele tem por hábito contar aquilo que ocorreu. No entanto, na língua falada, a ambiguidade poderia ocorrer, uma vez que ouve e houve têm exatamente a mesma pronúncia. São homônimos homófonos.

Pelo que expus, pode-se concluir que as ambiguidades podem decorrer de fatores diferentes: uma palavra possuir mais de um sentido, ou do fato de a estrutura sintática da frase possibilitar mais de uma leitura. No primeiro caso, há o que se denomina ambiguidade lexical; no segundo, ambiguidade sintática ou estrutural; nesse caso, cada palavra tem um sentido unívoco, a ambiguidade não está nas palavras, mas na maneira como elas foram combinadas na frase. Em frases em que ocorre a ambiguidade sintática, pode-se explicitar o duplo sentido, mostrando as duas estruturas sintáticas que coexistem. Exemplificando:

(8) Pedro me mandou um cartão postal de Paris.

(8a) Pedro mandou de Paris um cartão postal para mim.

(8b) Pedro me enviou um cartão postal no qual aparece algum lugar de Paris.

(9) É fácil comprar arma roubada no Brasil.

(9a) No Brasil, é fácil comprar arma roubada.

(9b) É fácil comprar arma que foi roubada no Brasil.

Há um tipo de ambiguidade que não decorre do fato de uma palavra da frase ter mais de um significado, ou de apresentar uma estrutura sintática que possibilita dupla leitura. É a chamada ambiguidade de escopo, como ocorre nos exemplos a seguir:

(9) Os alunos dessa sala receberam dois livros.

(10) Carlos e Lúcia se separaram.

Em (9), podemos ter as seguintes leituras:

(9a) Todos alunos desta sala receberam os mesmos dois livros.

(9b) Cada aluno desta sala recebeu dois livros diferentes.

Em (10), as duas leituras possíveis seriam:

(10a) Carlos e Lúcia separaram-se uma do outro.

(10b) Carlos e Lúcia separaram-se cada um dos seus respectivos cônjuges.

As gramáticas tradicionais costumam classificar as ambiguidades como um vício de linguagem, por considerarem que a duplicidade de sentido impediria uma comunicação precisa, atentando contra o princípio de que os enunciados devem ser claros. Há casos, sim, em que as ambiguidades são responsáveis por ruídos na comunicação. Mas, em diversas situações, o uso de ambiguidades tem por função criar textos plussignificativos, abertos. É o que ocorre por exemplo em textos poéticos e publicitários.

A TV Cultura de São Paulo, um canal de televisão aberto de caráter educativo, em uma de suas chamadas usou o seguinte slogan:

(11) A TV que faz bem.

O caráter ambíguo do slogan resulta da dupla interpretação que se pode atribuir à palavra bem. Numa leitura, bem pode ser lido como advérbio de modo do verbo fazer: trata-se de uma televisão que faz bem seus programas, os programas da tevê Cultura são bem feitos. Numa segunda leitura, pode-se ler que assistir à tevê Cultura é algo saudável, proveitoso.

No poema a seguir de Carlos Drummond de Andrade, a ambiguidade resulta do fato de que a palavra Luzia, que inicia o último verso poder ser lida tanto como forma verbal do verbo luzir, ou como substantivo próprio, designando a primeira namorada. Nesse caso, o uso de inicial maiúscula, que poderia indicar que se trata de substantivo próprio, não funciona como desambiguizador, na medida em que a palavra Luzia será grafada com inicial maiúscula mesmo sendo forma verbal, por estar em início de frase.

Orion

A primeira namorada, tão alta

que o beijo não a alcançava,

o pescoço não a alcançava,

nem mesmo a voz a alcançava.

Eram quilômetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.

(ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia completa e prosa. Volume único. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, p. 392.)

A ambiguidade também é usada em textos humorísticos, já que muitas vezes está na base de quiproquós, como no exemplo que apresentei na abertura deste post.

Na piada a seguir, o efeito cômico decorre do fato de a expressão “festa de quinze anos” admitir uma leitura que normalmente não é feita.

– Manuel, estou te convidando para a festa de quinze anos de minha filha.

– Aceito seu convite; irei, mas te digo que só vou poder ficar uns dois anos.

Curiosamente, Manuel, ao fazer a leitura de “festa de quinze anos” como uma festa que se estenderá por um período de quinze anos, demonstra não burrice, mas perspicácia, uma vez que consegue ver na expressão um sentido que normalmente não é percebido por grande parte das pessoas.

Há casos em que a combinação de palavras na frase, apesar de não gerar ambiguidades, cria efeitos de sentido estranhos ou até mesmo absurdos. Para exemplificar, apresento uma expressão que fazia parte do cardápio de um restaurante na cidade de São Paulo.

(12) Ravióli recheado com muçarela de búfala ou vitela.

Não há duplo sentido na sentença, mas, do modo como se combinam as palavras, o sentido é bastante estranho; pois pode-se entender que o ravióli seja recheado com muçarela de vitela. A simples mudança de ordem das palavras na sentença resolveria o problema, como podemos observar em

(13) Ravióli recheado com vitela ou muçarela de búfala.

Para encerrar, já que me alonguei bastante, comento uma palavra que usei neste post. Trata-se de quiproquó. Esta palavra provém do latim quid pro quo = um pelo outro, uma coisa por outra. Trata-se de um recurso cômico bastante antigo e ainda largamente utilizado. Consiste na confusão que se faz em se tomar uma coisa por outra. Quiproquó era o nome de um livro que antigamente os boticários possuíam e no qual constavam os nomes dos remédios. Ao consultar esse livro, muitas vezes, acabavam cometendo erro em vender as drogas, dando um remédio em lugar de outro que poderia provocar efeitos maléficos.

 

 

 

 

 

 

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