Liberdade. um poema de Fernando Pessoa

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No último post, a partir do que consta na biografia de Fernando Pessoa, escrita pelo Richard Zenith e traduzida pelo Pedro Maia Soares, falei dos lugares que o poeta frequentava em Lisboa e de sua preferência pelo Martinho da Arcada. Volto a postar sobre Pessoa, porque Zenith esclarece uma curiosidade que alimentava sobre o poema Liberdade, há mais de 50 anos.

Gosto do poema Liberdade porque ele me fala da autoderminação, do não constrangimento, da autonomia, do poder-não-fazer. A leitura que sempre fazia jamais levava em conta o contexto histórico. Pois bem: na biografia de Pessoa escrita por Richard Zenith, o biógrafo faz referência ao contexto histórico, particularmente ao momento político por que passava Portugal (ditadura de Salazar) em que o poema foi escrito. Levando isso em conta, tem-se uma leitura do poema, que para mim foi uma descoberta. 

Quando começava a ler o poema, uma coisa sempre me estranhava. Havia uma epígrafe, que era uma não epígrafe (“Falta uma citação de Sêneca.”). Como a citação não estava explicitada, jamais poderia imaginar qual teriam sido as palavras de Sêneca que o poeta não colocou como epígrafe ao poema. 

Segundo Zenith, Liberdade é uma resposta a um discurso de Salazar que Fernando Pessoa considerou um ataque aberto aos escritores. Zenith esclarece que a epígrafe de Sêneca que falta fora dita pelo ditador nesse discurso que enfureceu o poeta. Nele, Salazar diz, entre outras coisas, que as obras dos escritores não só deveriam observar “certas limitações”, mas também abraçar “algumas diretrizes” definidas pelos “princípios morais e patrióticos do Estado Novo”. Ainda segundo o ditador, os escritores deveriam ser “criadores de energias cívicas ou morais” e não “sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência”, e o dever deles era ajudar a propagar “as bases ideológicas sobre as quais se constrói o novo Portugal” e arremata com a citação de Sêneca faltante no poema de Pessoa: “em estantes altas até o teto, adornam o aposento do preguiçoso todos os arrazoados e crônicas”. 

Transcrevo abaixo o poema de Pessoa para ser (re)lido, à luz do contexto apresentado. 

LIBERDADE

(falta uma citação de Sêneca)

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

(Fernando Pessoa. Obra poética em um volume. Aguilar, 1972, p. 188-9)

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