Fake news e norma culta

Tempo de leitura: 4 minutos

​ERROS GRAMATICAIS
Quem me conhece sabe qual é a minha postura em relação àquilo que popularmente chamam de erros de português ou erros de gramática. Há anos venho mostrando que erro seria o falante usar a língua em desacordo com sua gramática natural, aquela que todo falante domina, independentemente de escolarização. Assim seria erro um falante dizer em devora silêncio te tempo o em vez de o tempo te devora em silêncio. Mas é claro que ninguém comete esse erro.
O que grande parte das pessoas chama de erro são usos de uma variedade de língua que não é aquela que lhe meteram na cabeça que é a correta. Assim, consideram erro alguém falar trabaiá em vez de trabalhar. O curioso é que as pessoas que discriminam o falante que diz trabaiá dizem trabalhá e não trabalhaR. Dizem que há erro em Me disseram, que o certo é disseram-me, embora todo mundo, pessoas cultas incluídas, digam me disseram.
A língua é um feixe de variedades. Interessam agora duas: a culta e a popular.
Também nunca afirmei que não se deve usar ou ensinar a variedade culta; pelo contrário, ela deve ser ensinada na escola para que as pessoas possam fazer uso dela nas situações em que essa variedade é a adequada.
FAKE NEWS
Uma das expressões mais em voga hoje é fake news. As redes sociais estão repletas de notícias falsas, que se propagam rapidamente. O sujeito recebe a notícia e pimba! compartilha no Facebook ou no grupo de WhatsApp viralizando a mentira.
O conhecimento da variedade culta pode ajudar identificar as fake news. Vocês devem lembrar o caso de um policial rodoviário que parou um carro porque percebeu que devia ser roubado. Na placa estava escrito FRORIANÓPOLIS. Nenhum órgão de trânsito emitiria um placa assim. Resultado: você pode até falar FRORIANÓPOLIS, mas num documento escreva FLORIANÓPOLIS.
Recebi num grupo de WhatsApp um comunicado “oficial” sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. O título já revelava a falsidade: MINISTÉRIO DO EXERCITO. Tá bom, você não é obrigado a saber que EXÉRCITO recebe acento gráfico, mas quem redige um comunicado oficial do Exército Brasileiro tem obrigação de saber. Continuei a ler e me divertindo muito. Quando me deparei com um trecho que afirma que as Forças Armadas iam atuar em lugares de AUTO RISCO, comecei a rir. Volto a bater na tecla: as pessoas falam auto no lugar de alto, a distinção dos fonemas não é muito marcada na fala. Eu próprio digo João é auto. Não falo João é aLto, destacando o som representado pela letra L. Pronuncio o fonema representado pela letra L como um U fraco.Na escrita, evidentemente, escrevo João é aLto. Num comunicado oficial Exército Brasileiro jamais viria AUTO RISCO no lugar de ALTO RISCO. Fake!
O comunicado “oficial” se autodenuncia o tempo todo. Vejam mais algumas bandeiras:

Todas as Operações em Comunidades a partir de hoje, serão consideradas como ÁREA DE TERRITÓRIO HOSTIL e estará respaldado pelo Ministério da Defesa toda reação de Forças Hostis de Narcotraficantes que resultem em prisão ou morte de Narcotraficantes e associados ao Narcotráfico. 

A pessoa não precisa ser gramático, filólogo ou linguista para perceber que esse texto não está escrito na variedade culta da língua, a adequada a um comunicado oficial. Do jeito que está redigido salta à vista que não é um comunicado oficial. Além disso, não tem pé nem cabeça, não é claro. É FAKE.

Vejam outro trecho:

Quartéis das Forças Auxiliares Operacionais (Excluindo o BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais) que trabalhará diretamente subordinado as FORÇAS ESPECIAIS DOS COMANDOS ANFÍBIOS em ações conjuntas terra e ar a serem desenvolvidas a partir desta semana.

Quem trabalhará diretamente subordinado às FORÇAS ESPECIAIS DOS COMANDOS ANFÍBIOS?

Os quartéis? Se for isso, o verbo deveria estar no plural: trabalharão. Se for o BOPE a concordância está certa, mas o que está fazendo aí FORÇAS ESPECIAIS DOS COMANDOS ANFÍBIOS?

Sabem qual é o problema? O sujeito quis escrever “difícil” para fazer com que o comunicado parecesse verdadeiro e acabou escrevendo um negócio que não tem pé nem cabeça.

O que me espanta é que as pessoas compartilham isso para seus amigos sem o menor constrangimento, provavelmente porque o julgaram verdadeiro. Quem lê isso o toma por verdadeiro não é apenas inocente, é alguém que não sabe ler.
Quem compartilha um texto como esse que imagem está projetando de si?

2 Comentários


  1. Perfeita colocação, professor! Eu não compartilho nada sem fazer tais observações, além de comprovar a veracidade da notícia em órgãos confiáveis! Abraços…

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *