Figuras de linguagem

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O estudo das figuras de linguagem desde há muito tempo é objeto de uma disciplina denominada retórica, cuja origem pode ser encontrada em Aristóteles (séc. IV a.C.), ligando-se à ideia de bem dizer, de argumentar. A retórica entrou em um período de declínio quando abandonou o aspecto discursivo, ou seja, como organizar os textos a fim de persuadir o leitor/ouvinte, voltando-se exclusivamente aos ornamentos do discurso, contribuindo “para deixar o estilo artificial e floreado” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 189).

Isso pode ser observado em algumas manifestações literárias do fim do século XIX, particularmente na poesia dos parnasianos. Há um poema de Olavo Bilac, não à toa chamado de Profissão de fé, que faz a apologia de um discurso caracterizado pelo ornamento. A seguir, uns trechos desse poema.

Invejo o ourives quando escrevo:

Imito o amor

Com que ele, em ouro, o alto relevo

Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara

A pedra firo:

O alvo cristal, a pedra rara,

O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,

Sobre o papel

A pena, como em prata firme

Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,

A ideia veste:

Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem

Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima

A frase; e, enfim,

No verso de ouro engasta a rima,

Como um rubim.

(Bilac, 2025)

Mas a retórica ressurge no século XX, graças aos trabalhos de Jean Dubois, do Grupo μ e de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, que recolocam os estudos da retórica voltados para a argumentação e para a organização do discurso, retomando a concepção aristotélica de retórica como exposição de argumentos ou de discursos que visam persuadir o leitor/ouvinte.

Perelman e Olbrechts-Tyteca chamam a atenção para o fato de que as figuras devem se caracterizar pela força argumentativa e distinguem a figura argumentativa da figura de estilo. Segundo esses autores uma figura é argumentativa

“… se, acarretando uma mudança de perspectiva, seu emprego parecer normal em relação à nova situação sugerida. Se, em contrapartida, o discurso não acarretar a adesão do ouvinte a essa forma argumentativa, a figura será percebida como ornamento, como figura de estilo.” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 192).

O professor Luiz Antonio Ferreira (2010, p. 145) sustenta que “a nova retórica reveste de atualidade as premissas da retórica aristotélica e propõe uma metodologia de análise não apenas de discurso, mas do próprio comportamento social”. A retórica deixa então de centrar-se sobre os ornamentos do discurso e volta-se para as técnicas discursivas, no que se refere não só à produção, mas também à interpretação de textos. É nessa perspectiva (discursiva) que nos interessam as figuras de retórica.

A relação de figuras de retórica é bastante extensa. Em alguns casos, uma diferença sutil levou os teóricos a dar nomes diferentes para um mesmo procedimento retórico, por exemplo, a figura que denominamos inversão recebe o nome de hipérbato, anástrofe ou sínquise, dependendo do modo como os termos aparecem invertidos no enunciado. A diferença entre antonomásia e perífrase está apenas no termo a que elas se referem, se pessoa ou não pessoa. Não há distinção relevante entre sinédoque e metonímia, tanto que atualmente não se tem feito mais a diferença entre essas duas figuras.

Já tratei aqui no bloque, da metáfora, da metonímia / sinédoque e da ironia. Tratarei, em próximos posts, de outras figuras de retórica, mas advirto de que não tem sentido algum memorizar uma lista de figuras. O importante é que se perceba como elas constroem o sentido dos textos.

O texto a seguir é um capítulo do romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Para quem não leu o livro, ou não viu o filme de mesmo nome, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, esclareço que o texto é dito pelo pai na hora da refeição à sua família.

“…e quanto mais engrossam a casca, mais se torturam com o peso da carapaça, pensam que estão em segurança, mas se consomem de medo, escondem-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos, fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam, trazem na mão a chave mas se esquecem de que ela abre, e, obsessivos, afligem-se com seus problemas pessoais sem chegar à cura, pois recusam o remédio; a sabedoria está justamente em não se fechar nesse mundo menor: humilde, o homem abandona a sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas; nossa lei não é retrair mas ir ao encontro, não é separar mas reunir, onde estiver um há de estar o irmão também…”

(Nassar, 2005, p. 145-146)

Trata-se de um texto predominantemente figurativo, ou seja, o tema é recoberto por palavras concretas Para saber o que é um texto figurativo, clique aqui). Observando como essas figuras se encadeiam, construímos um sentido para o texto. As figuras se organizam em dois blocos: um remetendo à ideia de retração, de individualidade, de separação; outro, à ideia de expansão, de união, de reunião. Figuras como casca, carapaça, esconder, atrofiar, prisioneiro, retrair e separar remetem à ideia de retração; figuras como chave, abrir, aumentar, família e reunir, à ideia de expansão.

A essa oposição subjazem outras: separação / união; indivíduo / família. As figuras referentes à retração ligam-se à ideia de proteção: a casca e a carapaça protegem o ser do ataque externo. No texto, entretanto, essa ideia de proteção é desconstruída na medida em que mostra que a proteção não consiste na retração, no fechar-se em si mesmo, no enclausurar-se, mas na expansão do indivíduo, que se dá reunindo em família, pois é por meio dela que se expande a existência.

Como se pode observar, esse texto se constrói pela aproximação de figuras que se opõem semanticamente. Damos o nome de antítese à figura de retórica que consiste em aproximar figuras ou temas que se opõem pelo sentido. O uso de antíteses no texto tem efeito de sentido argumentativo, pois, aproximando opostos, permite ao leitor estabelecer relações comparativas. O texto orienta argumentativamente no sentido de que existe uma falsa ideia de proteção no retrair-se, revelando que a verdadeira proteção do indivíduo está no reunir-se aos outros por meio da família.

As gramáticas normativas costumam apresentar um capítulo para o estudo de algumas figuras de linguagem. O enfoque é centrado mais no valor estilístico da figura do que em sua força argumentativa. Costumam agrupar as figuras em quatro grupos:

Figuras de som, quando se apoiam no componente fonológico:  assonância, aliteração, paronomásia, onomatopeia.

Figuras de construção, quando se apoiam no componente sintático: elipse, zeugma, polissíndeto, inversão, silepse, anacoluto, pleonasmo etc.

Figuras de palavras (tropos), quando se apoiam no componente semântico: metáfora, metonímia etc.

Figuras de pensamento, quando se apoiam no componente semântico-pragmático: antítese, ironia, eufemismo, hipérbole, personificação etc.

Por fim, mas não menos importante, ressalto que as figuras de linguagem estão presentes em todos os gêneros textuais. Elas não são exclusivas de textos literários. A linguagem coloquial, por exemplo, está repleta de figuras. As figuras de linguagem não são exclusivas de textos verbais, escritos e falados. Textos verbo-visuais recorrem a elas para tornar a mensagem mais eficaz. Figuras de linguagem em filmes, animações, letras de músicas, ícones sinalizadores, propagandas, ditados populares etc.

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Referências

BILAC, Olavo. Profissão de fé. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bi000179.pdf Acesso em 18 ago. 2025.

FERREIRA, Luiz Antonio. Leitura e persuasão. São Paulo: Contexto, 2010.

NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das letras, 2005.

PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado de argumentação: a nova retórica. 2ª ed. Tradução de Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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