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No último post, tratei de maneira bastante simples e didática o assunto figuras de linguagem. Volto ao tema, aprofundando-o.
O estudo das figuras de linguagem, desde há muito tempo, é objeto de uma disciplina denominada retórica; por isso mesmo as figuras de libnguagem são chamadas também de figuras de retórica. O estudo das figuras remonta a Aristóteles (séc. IV a.C.) e liga-se à ideia de bem dizer, de argumentar.
A retórica entrou em um período de declínio quando deixou o aspecto discursivo, ou seja, como organizar os textos a fim de persuadir o leitor/ouvinte, e voltou-se exclusivamente aos ornamentos do discurso, para o uso de palavras e expressões que visavam a tornar o discurso mais belo e não necessariamente persuasivo.
Isso pode ser observado em algumas manifestações literárias do fim do século XIX, particularmente na poesia dos parnasianos. Há um poema de Olavo Bilac, não à toa chamado de Profissão de fé, que faz a apologia de um discurso caracterizado pelo ornamento.
Veja, a seguir, uns trechos desse poema.
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre; desenha, enfeita a imagem,
A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Mas a retórica ressurge no século XX, graças aos trabalhos de Jean Dubois, do Grupo μ (pronuncia-se mi), e de Chaim Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, entre outros, que recolocam os estudos da retórica voltados para a argumentação e para a organização do discurso, retomando a concepção aristotélica de retórica como exposição de argumentos ou de discursos que visam persuadir o leitor/ouvinte.
O professor Luiz Antonio Ferreira, no livro Leitura e persuasão: princípios de análise retórica (Editora Contexto) sustenta que “a nova retórica reveste de atualidade as premissas da retórica aristotélica e propõe uma metodologia de análise não apenas de discurso, mas do próprio comportamento social”.
A retórica deixa então de centrar-se sobre os ornamentos do discurso e volta-se para as técnicas discursivas, no que se refere não só à produção, mas também à interpretação de textos. É nessa perspectiva (discursiva) que nos interessam as figuras de retórica.
A relação de figuras de retórica é bastante extensa. Em alguns casos, uma diferença sutil levou os teóricos a darem nomes diferentes para um mesmo procedimento retórico, por exemplo, a figura que denominamos inversão recebe o nome de hipérbato, anástrofe ou sínquise, dependendo do modo como os termos aparecem invertidos no enunciado. A diferença entre antonomásia e perífrase está apenas no termo a que elas se referem, se pessoa ou não pessoa. Não há distinção relevante entre sinédoque e metonímia, tanto que atualmente não se tem feito mais a diferença entre essas duas figuras. Esse assunto foi tratado aqui no blogue em outro post. Clique aqui para ler.
Volto a lembrar que não tem sentido memorizar uma lista de figuras; o que se espera é que se perceba como elas constroem o sentido dos textos, como procuro mostrar nos parágrafos que seguem.
O texto a seguir é um capítulo do romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Para quem não leu o livro, ou não viu o filme de mesmo nome, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, esclareço que o texto deste capítulo é dito pelo pai na hora da refeição à sua família.
“…e quanto mais engrossam a casca, mais se torturam com o peso da carapaça, pensam que estão em segurança, mas se consomem de medo, escondem-se dos outros sem saber que atrofiam os próprios olhos, fazem-se prisioneiros de si mesmos e nem sequer suspeitam, trazem na mão a chave mas se esquecem de que ela abre, e, obsessivos, afligem-se com seus problemas pessoais sem chegar à cura, pois recusam o remédio; a sabedoria está justamente em não se fechar nesse mundo menor: humilde, o homem abandona a sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas; nossa lei não é retrair mas ir ao encontro, não é separar mas reunir, onde estiver um há de estar o irmão também…”
Nassar, Raduan. Lavoura arcaica. Companhia das Letras, 2005, p. 145-146.
Trata-se de um texto predominantemente figurativo, ou seja, o tema é recoberto por palavras concretas. Observando como essas figuras se encadeiam, construímos um sentido para o texto. As figuras se organizam em dois blocos: um remetendo à ideia de retração, de individualidade, de separação; outro, à ideia de expansão, de união, de reunião. Figuras como casca, carapaça, esconder, atrofiar, prisioneiro, retrair e separar remetem à ideia de retração; figuras como chave, abrir, aumentar, família e reunir, à ideia de expansão.
A essa oposição subjazem outras: separação/união; indivíduo/família. As figuras referentes à retração ligam-se à ideia de proteção: a casca e a carapaça protegem o ser do ataque externo. No texto, entretanto, essa ideia de proteção é desconstruída na medida em que nos mostra que a proteção não consiste na retração, no fechar-se em si mesmo, no enclausurar-se, mas na expansão do indivíduo, que se dá reunindo em família, pois é por meio dela que se expande a existência.
Como se pode observar, esse texto se constrói pela aproximação de figuras de linguagem que se opõem semanticamente. Damos o nome de antítese à figura que consiste em aproximar palavras ou expressões que se opõem pelo sentido.
O uso de antíteses no texto tem efeito de sentido argumentativo; pois, aproximando opostos, permite ao leitor estabelecer relações comparativas. O texto orienta argumentativamente no sentido de que existe uma falsa ideia de proteção no retrair-se, revelando que a verdadeira proteção do indivíduo está no reunir-se aos outros por meio da família.