Metonímia ou sinédoque?

Tempo de leitura: 3 minutos

Em artigo anterior em que discutia a “diferença” entre antonomásia e perífrase, destaquei que, a rigor, as figuras de retórica podem ser resumidas a apenas duas: a metáfora, quando a transposição de significado decorre de uma relação de semelhança, e a metonímia, quando a alteração de significado decorre de uma relação de contiguidade, isto é, de proximidade. Ressalto ainda que, nas figuras de retórica, o que ocorre é um excedente de significado, já que ao sentido original agrega(m)-se outro(s). Alguns autores fazem uma distinção entre metonímia e sinédoque. No artigo, defendo que a diferença entre elas não é de todo relevante, por isso prefiro usar apenas o termo metonímia, por englobar o de sinédoque.

A metonímia, assim como a metáfora, consiste numa transposição de significado, isto é, uma palavra que usualmente designa uma coisa passa a designar outra, acrescenta-se ao sentido original um outro sentido. Na metonímia, a transposição de significado não é feita, como na metáfora, com base em traços de semelhança, e sim por uma relação lógica de proximidade entre os termos (a parte pelo todo, o autor pela obra, o efeito pela causa, o continente pelo conteúdo, o instrumento pela pessoa que o utiliza, o concreto pelo abstrato, o lugar pelo produto, o gênero pela espécie, o singular pelo plural, o particular pelo geral, etc.), como se pode observar nos exemplos que seguem.

Não tinha teto em que se abrigasse. (Teto em lugar de casa = parte pelo todo.)

Procurou no Aurélio o significado daquela palavra. (Aurélio em lugar de dicionário = autor pela obra.)

“Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto.” (Machado de Assis)
(Pão no lugar de alimento = o particular pelo geral; suor do meu rosto no lugar de trabalho = o efeito pela causa.)

Como afirmei, há autores distinguem metonímia de sinédoque. Consideram a figura como sinédoque quando a relação entre os termos é quantitativa, ou seja, pelo aumento ou diminuição da significação de uma palavra. As relações entre os termos são basicamente as seguintes: parte pelo todo, singular pelo plural, gênero pela espécie, o particular pelo geral (ou vice-versa).

Consideram a figura como metonímia quando a relação entre os termos é qualitativa. Na metonímia, há uma implicação entre os conceitos que decorre de uma relação de contiguidade entre eles. As relações entre os termos são: a causa pelo efeito, o continente pelo conteúdo, o autor pela obra, o lugar pelo produto, o instrumento pela pessoa que o utiliza, etc.

Há um caso de metonímia que ocorre em nomes próprios. É o caso de artistas que incorporam ao seu nome o nome do instrumento que utilizam: Paulinho da Viola, Jacó do Bandolim, Nélson Cavaquinho, Jackson do Pandeiro.

Como se pode notar, a diferença entre metonímia e sinédoque é bastante sutil e a distinção que se faz entre elas não é de todo relevante. Como o conceito de metonímia abarca o de sinédoque, a maioria dos autores, ao contrário do que acontecia antigamente, não faz mais a distinção entre essas duas figuras, preferindo usar o nome metonímia para designar a figura de linguagem em que a transposição de significado decorre de uma relação de contiguidade material ou conceitual existente entre os termos. É essa a posição que adoto.

4 Comentários


  1. A sinédoque parece nome de doença crônica. Evito.
    E a metonímia, prova de nossa leseira, preguiça. Penso que os primeiros grupos humanos foram andando andando, olhando o sol, mar, pedra e nomeando, nomeando… Uns na preguiça já sentando em cócoras, outros, deitados olhando estrelas ou na modorra. E, pra cortar caminho e fazer sobrar tempo pra tirar mais uma pestana, embolaram raízes, colarem sentidos, instituíram associações mal ajambradas. E, em vez de recipiente contendo macarrão, os vagabundos e trambiqueiros fizeram puxadinho com retalho de radicais e afixos e daí saiu o prato de macarrão; as melhores guitarras no show. Uns denegrindo até Camões no tal de comprei um camões.
    Na base, a preguiça que se insinua mais ainda na catacrese.
    Coçando a cabeça, deixando o aió derribado,uns já colando dente com alho,cabeça com cebola…BRAÇO DE MAR! Olha isso!
    Muita figura de linguagem, Professor, é prova de que havia um jeca tatu morgado na formação das palavras.
    Os poetas, vá lá, uns se animam edificando metonímias mais sustentáveis.

    Responder

    1. Sim, Rose. Um dos fatores que desencadeou a decadência da retórica clássica foi o excesso de nomes de figuras, que ao fim e ao cabo eram as mesmas. Chegou uma hora em que era impossível alguém saber o nome de todas as figuras. O outro foi que eles passaram a fazer as figuras apenas como ornamentos do discurso, deixando de considerar sua função retórica propriamente, a de persuadir.

      Responder

  2. Professor Ernani Terra, um grande mestre da língua PORTUGUESA, Grato pela sua obra, que deus te proteja sempre.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *