Mágoa e mácula: um passeio na etimologia

Tempo de leitura: 2 minutos

Etimologia é algo meio fora de moda. Nem sei se as faculdades de letras ensinam metaplasmos, assunto que cheguei a ver no que seria hoje o Ensino Médio.

Não me preocupo muito em estar na moda. Claro que não chego ao absurdo de sair por aí de galochas, gravata plastrom, monograma na camisa e anel de formatura. Na idade a que cheguei, me sinto livre para não ter de seguir o que dita a moda.

Apesar de não estar na moda, sempre que posso recorro à etimologia para entender melhor o que as palavras me dizem. Tudo bem que o sentido delas muda, o que elas significaram um dia está longe de ser o que significam hoje, mas buscar a origem da palavra é como buscar o DNA. Decifrando o código genético conseguimos explicar muita coisa. Me lembro até hoje da primeira aula do curso de Literatura Brasileira que o professor Alfredo Bosi deu na FFLCH nos primeiros anos da década de 1970. O curso era sobre literatura colonial e ele começa explicando a origem da palavra colônia e viajava até o verbo latino e acabava nos mostrando as relações entre colônia e cultura.Toda essa lenga-lenga para falar de uma palavra que machuca: mágoa.

O Houaiss traz algumas acepções para mágoa, o que me interessa aqui é falar de mágoa como sinônimo de ressentimento, de sensação desagradável causada por agravo. Sua origem está lá no latim, macula, ae. Sim, há no português moderno a forma mácula, mas não a empregamos com o mesmo sentido de mágoa. Embora mácula tenha o sentido de mancha causada pela sujeira, é mais comum usarmos mácula para designar a mancha na reputação, portanto extensiva ao caráter, à personalidade. Uma pessoa sem manchas de caráter seria, portanto, imaculada. Mas vejam que esse adjetivo ficou sendo exclusivo de Maria, mãe de Jesus.

A mágoa sempre pressupõe um agente, um sujeito que, intencionalmente ou não, imporá uma marca, uma nódoa em outro. Para haver mágoa, não é necessário que o agravo seja grande, muitas vezes é uma mancha pequena que alguém crava em nós, uma nódoa, palavra proveniente de notula, ae, isto é, uma pequena nota (o sufixo erudito ulo(a) tem valor diminutivo). A mágoa é um sentimento durativo, isto é, prolonga-se no tempo, às vezes por muito tempo. Pode ir perdendo intensidade, mas costuma não desaparecer.

A mágoa é aquela mancha que está de tal forma impregnada no tecido da alma que, por mais que lavemos, não desaparece. É como aquela roupa que, mesmo que a gente lave com Vanish várias vezes, a mancha não desaparece. É só olhar de perto que ela ainda está lá.

1 comentário


  1. Mais um texto delicioso de ler!
    Essa palavra é fascinante! Além da mágoa e mancha, temos ainda malha (vaca malhada, cheia de manchas) e mangra (a “ferrugem” do trigo).
    Algumas faculdades de Letras ensinaram metaplasmos até o final do ano passado. Ernani…

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