Paralelismo sintático

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Paralelismo sintático

Escrever bem vai além de se fazer compreender. Usa-se a língua também para fazer sentir e isso implica ter um estilo. Neste post, comento, em rápidas pinceladas, um recurso de estilo denominado paralelismo sintático.

Ocorre paralelismo sintático quando se repete uma mesma estrutura gramatical, sem que se repitam necessariamente as mesmas palavras. O uso do paralelismo resulta em construções simétricas: as estruturas paralelas apresentarão a mesma (ou quase a mesma) extensão.

Há dois processos básicos de encadear ideias: a coordenação e a subordinação. É fundamental que, ao se coordenarem ideias, elas apresentem simetria sintática, ou seja, que haja paralelismo entre elas. Numa frase como Funcionários cogitam uma nova greve e isolar o governador, há ausência de paralelismo sintático uma vez que se coordenam termos de classes gramaticais diferentes (greve – substantivo e isolar – verbo). Uma construção paralela exigiria que se coordenassem termos simétricos, isto é, pertencentes a uma mesma classe de palavras. Assim: Funcionários cogitam nova greve e isolamento do governador (substantivos coordenados) ou Funcionários cogitam realizar nova greve e isolar o governador (dois verbos coordenados).

Na frase que segue há ausência de paralelismo sintático:

Não viajei nas férias por estar doente e porque não tinha dinheiro.

Nela, coordenam-se duas orações causais. A primeira apresenta-se sob a forma de oração reduzida (por estar doente); a segunda, sob a forma de oração desenvolvida (porque não tinha dinheiro). Para estabelecer a simetria, bastaria redigir a frase de forma que as duas orações causais coordenadas entre si apresentassem a mesma estrutura gramatical (ambas reduzidas ou ambas desenvolvidas). Assim:

Não viajei nas férias por estar doente e por não ter dinheiro.

ou

Não viajei nas férias porque estava doente e porque não tinha dinheiro.

Reproduzo uma crônica de José Roberto Torero para que se observe como o autor trabalhou bem o paralelismo sintático. Praticamente, ela é toda escrita com frases simétricas. Mudam-se as palavras, mas a estrutura das frases e dos parágrafos se mantém.

Das duas, uma
Amanhã, domingo, das duas, uma: ou você assiste a um jogo ou a um filme qualquer.
Se você vê o filme, tudo bem. Mas se vê o jogo, das duas, uma: ou você torce para um dos times ou fica indiferente.
Se você fica indiferente, tudo bem. Mas se torce, das duas, uma: ou você pega uma almofada para socar ou rói as unhas.
Se você rói as unhas, tudo bem. Mas se você pega uma almofada para socar, das duas, uma: ou é uma almofada comum, vagabunda, ou é uma almofada de estimação, daquelas pacientemente bordadas pela sua sogra dois dias antes de morrer.
Se é uma almofada comum, tudo bem. Mas se é uma almofada especial, das duas, uma: ou você tenta consertá-la no intervalo ou conta para sua mulher que transformou em farrapo aquela lembrança especial.
Se você tem habilidades de crochê e conserta o estrago, tudo bem. Mas se você vai contar tudo para sua mulher, das duas, uma: ou ela é muito mansa ou é uma fera.
Se sua mulher é mansa, tudo bem. Mas se ela for uma fera, das duas, uma: ou você engole em seco todos os xingamentos que vai ouvir ou parte de uma vez para a ignorância.
Se você engole em seco, tudo bem. Mas se parte para a ignorância, das duas, uma: ou você bate ou você apanha.
Se você apanha, tudo bem. Mas se você bate, das duas, uma: ou ela foge e nunca mais volta ou ela chama a polícia.
Se ela foge, tudo bem. Mas se chama a polícia, das duas, uma: ou eles aceitam suborno ou te levam para a delegacia.
Se eles aceitam suborno, tudo bem. Mas se te levam para a delegacia, das duas, uma: ou você vai para uma cela individual ou para uma coletiva.
Se você vai para a solitária, tudo bem. Mas se te põem numa coletiva, das duas, uma: ou os companheiros de cela te ignoram ou resolvem lhe dar uma surra para você aprender que não deve bater em mulher nem com uma flor, ainda mais com um controle remoto.
Se eles te ignoram, tudo bem. Mas se eles te acertam, das duas, uma: ou você morre ou vai para um hospital público.
Se você morre, tudo bem. Mas se vai para um hospital público, das duas, uma: ou você é operado por engano e trocam o seu sexo ou fica largado no corredor sem ser atendido.
Se trocarem seu sexo e você tiver que mudar o nome para Maricleide, tudo bem. Se te largarem no corredor, das duas, uma: ou tem televisão ali por perto, ou não.
Se não houver, tudo bem. Se houver, das duas, uma: ou você assiste a um jogo ou a um filme qualquer.
Dessa vez, assista ao filme.
PS: Quando se tem uma crônica para escrever, das duas, uma: ou você tem uma idéia ou copia a idéia de alguém. Se você tem a tal idéia, tudo bem. Mas se copia, das duas, uma: ou você dá uma de espertinho e diz que ela foi sua ou cita a fonte inspiradora. Se você resolve dar uma de espertinho, tudo bem. Se resolve dizer o nome do plagiado, das duas, uma: ou diz que é o Aparício Torelli ou diz que é o Barão de Itararé, que os dois são um.
TORERO, José Roberto. In: Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 81-83.

Os parágrafos (exceto o primeiro e o último) iniciam-se por uma oração que exprime condição, hipótese seguida de tudo bem, formando a estrutura paralela: se…, tudo bem. As frases seguintes de cada parágrafo também mantêm uma estrutura simétrica: Mas se…, das duas, uma: ou… ou…. Pode-se até, didaticamente, reproduzir a estrutura sintática dessas frases por meio de um esquema, em que as letras A, B, C, D, E e F representam ideias diferentes.

Se A, tudo bem. Mas se B, das duas uma: ou C ou D.

Se C, tudo bem. Mas se D, das duas uma: ou E ou F.

O autor se vale dessa essa estrutura para gerar frases novas dando ritmo ao texto, projetando o primeiro elemento das construções alternativas como condição de uma nova frase seguido de tudo bem e usa o segundo como elemento de uma condição oposta à anterior.

Para encerrar, chamo a atenção para o fato de que o autor declara explicitamente no PS que, na redação de seu texto, apropriou-se de um recurso utilizado por Aparício Torelli, o Barão de Itararé. Em síntese: o texto de Torero dialoga com o texto de Torelli, com o qual mantém uma relação intertextual.

2 Comentários


  1. Adorei a forma simples e didática como trata de paralelismo, Prof . Ernani. Ah, e o texto exemplificador é ótimo! Vou utilizá-lo em minhas aulas.
    Abraços.

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    1. Obrigado, Adriana. Fique à vontade para usar o texto com seus alunos. Se quiser usar outros textos do blogue, fique à vontade.

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