Trabalhei feito um mouro ou moura?

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Escrevi este artigo há um ano em resposta a uma pergunta feita pela querida amiga Silvia Souza, companheira nos bancos das Arcadas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Diz Silvia que sua mãe também usava a expressão “trabalhei feito um mouro” e pergunta se não seria “trabalhei feito uma moura”.

Já tratei desse assunto num post anterior e convido os leitores a darem uma olhada em Queridxs amigxs. Sei que  vou mexer num vespeiro, correndo o risco de me acusarem de preconceituoso. Quem me conhece sabe bem de minhas posições a respeito do assunto e quem é ou foi meu (minha) aluno (a) sabe que sempre mostro, quando trato a flexão de gênero, do caráter machista da língua. Mas como diria Odorico Paragaçu, “vamos deixar de lado os entretantos e vamos direto aos finalmentes”.

Na expressão “trabalhei feito um mouro” temos uma relação comparativa: trabalhei como um mouro trabalha. A eficácia da mensagem pressupõe um conhecimento compartilhado entre os participantes da comunicação. O enunciador pressupõe que o enunciatário tenha o conhecimento de que mouros trabalham muito. Não compete aqui discutir se de fato mouros trabalham excessivamente. É do senso comum a ideia de que mouros trabalham muito.
Isso posto, ao dizer que trabalhou feito um mouro, o enunciador quer que o enunciatário entenda que ele está a dizer que trabalhou muito, que trabalhou em excesso.
E quanto ao gênero da palavra mouro da expressão? Deve concordar com o gênero do enunciador?

Inicialmente temos de saber que na língua certas diferenças são marcadas outras não.  Em português o plural é marcado; o singular, não. Sapato, mouro, inteligente são formas do singular; sapatos, mouros, inteligentes são formas do plural. Vejam que o plural é marcado (pela desinência -s) e o singular se caracteriza pela ausência de marca de plural. Francês é masculino; francesa é feminino. O masculino não é marcado, o feminino é marcado pela desinência -a. Podemos tirar uma regrinha: em português o plural e o feminino são as formas marcadas; o singular e o masculino são as formas não marcadas.

Abro um parêntese. O português, ao contrário de muitas outras línguas, marca a diferença entre ser e estar: Otelo é ciumento; Otelo está ciumento. Em outras línguas, o inglês, por exemplo, a diferença entre ser e estar não é marcada. O mesmo verbo (to be) é usado para exprimir as ideias de ser e estar. Fecho o parêntese.

Em português, a forma não marcada do substantivo é usada como genérica. Isso quer dizer que ela pode ser aplicada aos seres sem qualquer referência a gênero. Vejam estes versos da letra da canção Na batucada da vida, de Ary Barroso.

“Cresci olhando a vida, sem malícia                                                                                   Quando um cabo de polícia
Despertou o meu coração
E como eu fui pra ele muito boa
Me soltou na rua à toa
Desprezada como um cão”

Nessa letra, o narrador é do gênero feminino, como se pode observar em ‘boa’ e ‘desprezada’. Na comparação ‘desprezada como um cão’, a forma não marcada ‘cão’ não está empregada para designar o animal canino macho. Cão aí tem sentido genérico: quem narra afirma que se sentiu desprezada como animais mamíferos da família dos canídeos são desprezados, sejam machos ou fêmeas, grandes ou pequenos, velhos ou jovens, de pelo curto ou pelo longo, cães ou cachorros, canes, chiens ou dogs.

O mesmo se dá quando se afirma  tive um dia de cão ou que alguém leva uma vida de cão para dizer que essa pessoa leva uma vida muito difícil, dura. A cadela não leva então uma vida dura? Cão aí não está com sentido de masculino, mas como genérico, valendo para para ambos os gêneros.

Concluindo, quando a mãe da Silvia disse que “trabalhou como um mouro”, ela simplesmente disse que trabalhou demais, sem qualquer referência ao gênero do mouro. Ela trabalhou como mouros e mouras trabalham, se bem que acho que mouras trabalham mais que mouros.

PS: este texto é inteiramente dedicado a duas queridas amigas: Silvia Souza, que me deu o mote; e Letícia Moraes, que gosta das minhas postagens sobre mouros e que ficou de discutir esse assunto comigo. Estou cobrando a discussão, Let!
A elas, um beijo super agradecido.

Por Ernani Terra © Autorizada a reprodução deste artigo, desde que citada a fonte.

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