Você sabe o que é uma palavra?

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O conceito de palavra

Existem certas palavras que as pessoas conhecem e usam, mas se pedirem para elas explicarem o que é complica tudo. Uma delas é a palavra PALAVRA. Peça para alguém dizer o que é uma palavra e ela vai se atrapalhar e responder: palavra é palavra, ora!

A maioria das pessoas tem intuitivamente um conceito do que é uma palavra, sobretudo quando ela aparece na língua escrita; pois, nesse caso, estará demarcada por espaços em branco. Mas o que é exatamente uma palavra?

As concepções mais antigas de palavra baseavam-se no conceito de Aristóteles, que definia palavra como a menor unidade de significado da fala. Ao ouvirmos palavras como infeliz, couve-flor, girassol, jornaleco, se levarmos em conta a definição de Aristóteles, somos obrigados a concluir que temos oito e não quatro palavras, uma vez que cada uma delas é formada por duas unidades menores de significado: in+feliz, couve+flor, gira+sol, jornal + eco.

Para os linguistas, a conceituação de palavra é bem mais complexa do que aquela proposta por Aristóteles, tanto que alguns evitam o uso desse vocábulo, preferindo empregar o termo lexema.

 

Em cartão de crédito, temos uma única palavra ou três? Se levarmos em conta os espaços em branco na escrita, somos forçados a reconhecer aí três palavras, se, no entanto, considerarmos que aí há uma única unidade semântica, diremos que há uma única palavra. Se na escrita podemos “ver” três palavras em cartão de crédito, ao ouvirmos essa expressão, certamente, concluiremos que se trata de uma única palavra, pois a associaremos pelo sentido a um cartão de plástico com uma fita magnética que possibilita que se façam compras para pagamento a posteriori.

Cantarei e cantaremos são duas palavras diferentes ou flexões de uma mesma palavra: cantar? Aluno, aluna, alunos e alunas são quatro palavras, ou quatro formas diferentes (flexões) de uma mesma palavra?

Em latim, não existe a palavra philosophus nem a palavra barba em termos abstratos para designar o que em português chamamos, respectivamente, de filósofo e barba.  O que existe são as formas philosophus, philosophi, philosopho, philhosophum, philosophis; barba, barbae, barbam, barabarum etc., ou seja, as palavras não existem sem que se especifique sua função na frase (sujeito, objeto direto, objeto indireto, adjunto, agente da passiva etc.) e seu número (singular ou plural).

Em latim, (1) e (2) têm significados diferentes.

(1)  Barba philosophum non facit.

(2)  Barbam philosophus non facit.

Em (1) se afirma que A barba não faz o filósofo; em (2), que O filósofo não faz a barba.

Como se pode notar, não é tão simples definir o que é uma palavra.

O linguista norte-americano Leonard Bloomfield propõe um critério formal para definir palavra. Relacionando palavra a frase, esse autor distingue dois tipos de formas linguísticas: formas presas, aquelas que nunca se usam como frases, por oposição a formas livres, aquelas que podem constituir frases. Bloomfield considera palavras apenas as formas livres. Exemplificando: em infeliz, temos duas formas. A forma in, por ser forma presa (não pode funcionar como frase), não é uma palavra. Por outro lado, infeliz (e também feliz) são palavras, porque podem aparecer isoladas, constituindo frase, por exemplo, quando aparecem como resposta a uma pergunta.

O critério proposto por Bloomfield não funciona para palavras formadas pelo processo de composição, já que nesse tipo de palavra as unidades que a formam podem ser isoladas para constituírem frases. Como exemplos, cito passatempo e girassol. Temos aí duas palavras e não quatro, embora passa, tempo, gira e sol possam ser isoladas e funcionarem como frases.

           – Do que você precisa para terminar o trabalho?

            – Tempo.

            – O que devo fazer com essa manivela?

            – Gira.

Robert Lawrence Trask assinala que há quatro maneiras de definir palavra:

 1. palavra ortográfica: aquela que fica entre dois espaços em branco.

 2. palavra fonológica: aquela que é pronunciada numa só unidade.

 3. item lexical ou lexema: trata-se de uma palavra do dicionário.

 4. forma gramatical de palavra: qualquer forma que um item lexical pode assumir para fins gramaticais.

Faço as seguintes observações ao critério proposto por Trask:

a) o conceito de palavra ortográfica restringe-se apenas a “palavras” da língua escrita;

b) quanto ao conceito de palavra fonológica, vejo o seguinte problema: em O livro, teríamos apenas uma palavra fonológica, já que, na cadeia da fala, o artigo forma com o substantivo uma única unidade fonológica;

c) livro (singular) e livros (plural) são duas palavras ortográficas diferentes, duas palavras fonológicas diferentes, duas formas gramaticais de palavra diferentes, mas um único item lexical, pois só existe no dicionário a entrada livro (singular).

O que ocorre com as formas livro / livros vale também para cantei / cantamos. O mesmo ocorre, como vimos, em latim, em que as formas philosophus e philosophum não são consideradas duas palavras, mas flexão de uma única palavra.

Em português, há ainda o caso das combinações e contrações de palavras: deste, nessa, daquela, aonde, à, àquela etc. Dessa forma, em Iremos àquela festa e Vou aonde quero, àquela e aonde constituem uma única palavra ortográfica, uma só palavra fonológica, mas dois itens lexicais (a preposição a e o pronome demonstrativo aquela, a preposição a e o advérbio onde.

Agora que você já sabe o que é palavra, fique à vontade para fazer uso dela, deixando um comentário.

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