A Antologia Nacional

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Neste artigo falo do livro escolar mais longevo do Brasil e que foi o livro escolar de milhões de brasileiros durante muitos anos, a Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Laet.

Antes da Antologia Nacional, os livros didáticos usados no Brasil vinham de Portugal. Os de língua portuguesa eram antologias (às vezes associadas a uma gramática), cujos nomes variavam: seletas, florilégios, antologias. A obra de Barreto e Laet era adotada em instituições de ensino de prestígio como o Colégio Pedro II, antigo Gymnasio Nacional, o Colégio Militar e a Escola Normal.

A Antologia Nacional conseguia estar presente tanto em instituições de tendência monarquista (Colégio Pedro II), quanto republicana (Colégio Militar). O fato de ser adotada nessas instituições (isso era impresso na página de rosto ou na capa) funcionava como uma espécie de selo de qualidade da obra, o que estimulava sua adoção em outras instituições de ensino. A partir de 1940, em decorrência da democratização do ensino, com a consequente ampliação do número de estabelecimentos, aquelas instituições deixam de ser modelo para o ensino e, em consequência, parâmetro para escolha de material didático.

Os autores da Antologia eram intelectuais de prestígio, monarquistas e católicos: Carlos de Laet (1847-1927) era filólogo, jornalista, professor do Colégio Pedro II e do Colégio São Bento, membro fundador da Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente entre 1919 e 1922. Fausto Barreto (1852 – 1915) era filólogo e professor catedrático do Colégio Pedro II, tendo lecionado também no Colégio Militar. A Antologia era destinada a estudantes do curso secundário, o que corresponderia hoje ao Ensino Fundamental II (6º ao 9º anos) e ao Ensino Médio e teve 43 edições. A primeira foi publicada em 1895 pela Editora Paulo de Azevedo Ltda., do Rio de Janeiro, em plena campanha para a nacionalização do livro escolar. Por essa editora, foi publicada até a 5ª edição, quando o livreiro português Francisco Alves (1848 – 1917) comprou a editora da viúva de Azevedo apenas para ter a Antologia em seu catálogo. Pela editora de Francisco Alves foi publicada até sua última edição, em 1969, tendo a duração de 74 anos. Se comparada com os livros didáticos atuais, a Antologia teve duração excepcional, sendo o livro de duas (e até de três) gerações, possibilitando a troca de impressões de leitura entre pais e filhos e mesmo entre netos e avós.

A Antologia Nacional, um grosso volume de mais de 600 páginas, com letras em corpo 8, não apresentava ilustrações, nem propunha atividades, quer de língua portuguesa, quer de literatura, o que dava ao professor autonomia na condução de suas aulas. Sobre a ausência de atividades na Antologia, Magda Soares registra que “na ausência de exercícios, de atividades, a Antologia deixava a forma de sua utilização nas mãos do professor, autônomo para planejar e executar suas aulas de Português, tendo a coletânea de textos apenas como um material didático facilitador de sua ação. (SOARES, 2001, p. 55 )

Os textos eram longos, chegando a ocupar até quase dez páginas e eram usados mais para o ensino de um modelo de língua a ser imitado do que para as atividades de leitura propriamente dita.

A Antologia manteve-se praticamente a mesma durante esses anos todos. Apenas na 25ª edição, de 1942, quando seus autores já eram falecidos, foi revista e modificada por Daltro Santos para adequá-la à nova organização do ensino, promulgada pelo então Ministro da Educação, Gustavo Capanema, que dividiu o curso secundário em dois ciclos: 1º ciclo (ginasial), 2º ciclo (clássico e científico).

A partir dessa edição o selo de qualidade, ‘adotada no Colégio Pedro II‘ ou ‘Adotada no Ginásio Nacional‘, é substituído por ‘Anotada e Adaptada ao Programa do Segundo Ciclo do Curso Secundário‘. Soares reproduz trecho do prefácio da 25ª edição, em que Daltro Santos explica aos leitores as modificações que fez na obra.

Fausto Barreto e Carlos de Laet
Edição da Antologia Nacional, já adaptada por Daltro Santos

A Antologia Nacional pode ser considerada o primeiro manual didático genuinamente brasileiro, pois como atesta Magda Soares “os manuais didáticos para o ensino de Português no final do século XIX e primeiras décadas do século XX eram as antologias (em geral associadas a uma gramática). A princípio, vinham de Portugal: livros didáticos portugueses, de todas as disciplinas, foram utilizados no Brasil durante o século XIX e nas primeiras décadas do século XX. A Seleta Nacional de Caldas Aulete – filólogo de fama, autor do dicionário conhecido como Caldas Aulete, professor do Liceu Nacional de Lisboa -, foi muito utilizada nesse período; embora denominada “nacional”, incluía autores não só portugueses, mas também brasileiros”. (SOARES, 2001, p. 39)

Magda Soares acrescenta ainda que o conteúdo da Antologia era formado basicamente por textos literários de autores nacionais e portugueses, já falecidos, apresentados em ordem cronológica e que o livro não sugeria atividades quer de compreensão de texto, quer de gramática. Os textos também eram escolhidos por seu caráter pedagógico, isto é, vinham “reforçar a concepção de leitura como instrumento de formação ética do aluno e de preservação da moral e dos bons costumes” (SOARES, 2001, p. 45). Por ela, estudaram figuras de proa de nossa literatura como Manuel Bandeira, que se refere à Antologia em Itinerário de Pasárgada,  e Pedro Nava, em Balão Cativo e Chão de Ferro.

REFERÊNCIAS

SOARES, Magda. O livro didático como fonte para a história da leitura e da formação do professor-leitor. In: MARINHO, M. (Org.) Ler e navegar: espaços e percursos da leitura. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil – ALB, 2001, p. 31-76.

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