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Sobre o uso do verbo no singular em construções desse tipo muito já se falou. Eu mesmo tratei do tema aqui no blogue há algum tempo. Clique aqui para ler. Uma boa e bem-humorada justificativa que explica o verbo no singular ainda é aquela que aparece em O colocador de pronomes, conto clássico de Monteiro Lobato.
Em certa passagem, narra-se que Aldrovando Cantagalo andava “pelas ruas examinando dísticos e tabuletas com vícios de língua”. Quando descobria alguma “asnidade”, ia ter com quem cometeu o erro para catequizá-lo. Numa dessas andanças, Aldrovando deparou-se com uma tabuleta que dizia: FERRA-SE CAVALOS.
Segue uma passagem que narra o seguinte diálogo entre Aldrovando e o ferreiro:
– … Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.
– ? ? ?
– Que reformes a tabuleta, digo.
– Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?
– Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à sã gramaticalidade.
O honesto ferreiro não entendia de nada.
– Macacos me lambam se estou entendendo o que v. s. diz…
– Digo que está uma forma verbal com eiva grave. O “ferra-se” tem de cair no plural, pois que a forma é passiva e o sujeito é “cavalos”.
– O sujeito sendo “cavalos, continuou o mestre, a forma verbal é “ferram-se”- “ferram-se cavalos!”
-Ahn! respondeu o ferreiro, começo agora a compreender. Diz v. s. que…
– … que “ferra-se cavalos” é um solecismo horrendo e o certo é “ferram-se cavalos”.
– V. s. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele “se” da tabuleta refere-se a este seu criado. É como quem diz: Serafim ferra cavalos. Para economizar tinta e tábua abreviaram o meu nome, e ficou como está: Ferra Se (rafim) cavalos. Isto me explicou o pintor, e entendi-o muito bem.
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