Tempo de leitura: 4 minutos
O mote para este post surgiu de uma pergunta. Qual das duas formas se deve empregar: vou ler ou irei ler para exprimir fato futuro.
Aprendemos na escola que o verbo exprime tempo e que são três os tempos verbais: presente, passado e futuro. Em primeiro lugar chamo a atenção para o fato de que, quando falamos em tempo verbal, referimo-nos ao tempo linguístico e não ao tempo físico ou cronológico.
Tempo físico é o intervalo entre o início e o fim de um movimento. Usamos, por exemplo, o tempo físico para marcar o dia e o ano, levando em conta, respectivamente, a duração do movimento da Terra em torno de seu próprio eixo e em torno do Sol (24 horas e 365 dias, respectivamente).
Tempo cronológico é aquele que estabelece uma sucessão a partir de um marco de referência, como o nascimento de Cristo, por exemplo. O tempo cronológico é marcado pelo calendário: “Aos vinte e dois dias do mês de abril do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo, perante mim, tabelião, compareceram…”
O tempo linguístico é aquele que é estabelecido pela enunciação, isto é, o momento da fala.
O tempo é uma categoria da língua que tem como referência o momento da enunciação (ME), que é o presente. Em função do ME, o tempo dos acontecimentos pode ser concomitante ao ME ou não concomitante ao ME. O tempo não concomitante ao ME pode ser anterior ou posterior ao ME. O tempo anterior ao ME chamamos de passado e o posterior de futuro.
Evidentemente, há tempos cujo momento de referência não é o ME, mas um ponto de referência localizado no passado ou no futuro, como o pretérito mais-que-perfeito e o futuro do pretérito, cujos marcos de referência estão instalados num momento passado e não no momento da enunciação (ME), o presente, o agora.
Para responder a dúvida formulada, devemos lembrar que é comum o emprego de um tempo em lugar de outro. Numa frase como Amanhã telefono para você sem falta, telefono é uma forma verbal do presente do indicativo, mas está empregada para exprimir fato futuro. Observe o advérbio amanhã determinando o verbo. Nessa frase, empregou-se o presente no lugar do futuro para exprimir fato futuro bastante próximo ao presente e dado como certo pelo falante.
Além de expressar fato que ocorre no momento da enunciação (o agora), o presente do indicativo pode ser empregado
a) sem valor temporal: para indicar fatos ou estados permanentes, verdades científicas, frases da sabedoria popular. Trata-se de um presente genérico, cujo processo é colocado como que fora do tempo, como ocorre em frases como A Terra gira em redor do Sol, Por um ponto passam infinitas retas, Quem dorme com cães acorda com pulgas.
b) para exprimir ação habitual: Aos domingos, almoço na casa de minha avó.
c) para dar atualidade a fatos passados. É chamado de presente histórico: Em 2008, os Estados Unidos elegem seu primeiro presidente negro, Barack Obama.
d) para exprimir fato futuro bastante próximo e dado como certo pelo falante: Amanhã entrego o trabalho sem falta.
e) com valor de imperativo, para exprimir um pedido: Luana, você me passa o sal, por favor?
Em algumas situações o emprego da primeira pessoa do singular do presente do indicativo tem valor performativo, isto é, a simples enunciação dessa forma verbal realiza a ação, desde que proferida por pessoa que tenha legitimidade para isso, como em frases do tipo: Declaro aberta a sessão, Eu vos declaro marido e mulher, Condeno o réu a uma pena de dez anos de reclusão.
A dúvida proposta consistia em saber se é correto empregar o presente para exprimir uma ação futura.
Em diversas variedades do português brasileiro, inclusive na variedade culta, é comum o uso de uma locução formada de verbo ir no presente seguido do infinitivo do verbo principal para exprimir fato futuro. Pode-se chamar essa locução de futuro composto.
| Futuro simples | Futuro composto |
| Amanhã, ele entregará o relatório. | Amanhã, ele vai entregar o relatório. |
| À noite, telefonarei para você. | À noite, vou telefonar para você. |
| Sexta-feira viajaremos para a praia. | Sexta-feira vamos viajar para a praia. |
Finalizando, o uso de um tempo no lugar de outro não ocorre apenas com o presente e há certas formas de tempos verbais que são muito pouco usadas, como o pretérito mais-que-perfeito do indicativo. São cada vez mais raras formas como cantara, lera, partira. Isso não quer dizer que o pretérito mais-que-perfeito não seja mais usado. O que ocorre é que os falantes usam uma outra forma para exprimir o pretérito mais-que-perfeito, mas isso fica para o próximo post.
O Blogue do Ernani Terra não apresenta propagandas ou anúncios e não tem qualquer patrocínio, em razão disso não gera qualquer receita, embora tenha despesas não pequenas para se manter no ar. Você pode ajudar a manter o blogue funcionando, contribuindo com qualquer quantia. Basta fazer um PIX para a chave 37665430830 (conta no Bradesco de titularidade de Ernani Terra).
Qualquer dúvida ou sugestão pode entrar em contato comigo usando o formulário de contato do blogue.
Link permanente
Belíssima explicação, professor Ernani !
Aguardarei ansioso o artigo sobre o uso do pretérito mais-que-perfeito do indicativo.