A borboleta preta

Tempo de leitura: 8 minutos

O capítulo 31 de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, narra um episódio sobre o qual quero dizer algumas palavras,  o capítulo se chama A borboleta preta e, para quem não se lembra do que é narrado, reproduzo-o ao final deste artigo.

Trata-se de texto narrado em 1a. pessoa como se observa pelas marcas linguísticas do narrador espalhadas pelo texto, representadas por formas verbais de 1a. pessoa (rientreisacudisentilanceifiquei etc.), e por pronomes de 1a. pessoa (preparar-me, lembrou-me, ri-me, pousou-meeumeu pai, me aborreceu etc.).

Textos narrados em 1a. pessoa produzem um sentido de subjetividade. Em A borboleta preta, relata-se uma experiência pessoal. O que emerge do capítulo são as reflexões do narrador sobre um fato ocorrido, o pousar da borboleta e o que sucedeu a isso. O acontecimento concreto e objetivo leva o narrador a reflexões de natureza subjetiva.   

Trata-se de um texto predominantemente figurativo. Nesse tipo de texto, as figuras (palavras concretas) são revestimentos de temas (conceitos), ou seja, por trás do concreto (as figuras) está o abstrato (os temas). Isso implica que, na leitura de um texto figurativo, o leitor deve construir o sentido, “descobrindo” que temas as figuras revestem. Textos literários são figurativos. 

A figura visual borboleta preta sobressai no texto. Não é por acaso que esse é o título do capítulo. A essa figura, outras se encadeiam, criando uma unidade de sentido e conferindo coerência ao texto: esvoaçarpousounegramover as asastorcia o corpomovia as farpinhas da cabeçaasasenxotadavoou. 

A leitura de um texto se faz num percurso em que se vai do mais concreto e superficial ao mais abstrato e profundo. No capítulo A borboleta preta, o concreto e superficial é a história em que uma borboleta preta entra no quarto do narrador e pousa na testa dele. A borboleta é espantada e vai pousar num quadro. O narrador interpreta o suave gesto de um bater de asas como se a borboleta estivesse debochando dele, o que o deixa aborrecido. Atinge-a então com uma toalha, levando-a à morte. Mas o que se “esconde” por trás de um acontecimento tão banal como esse?  

Alguns temas emergem da história: a crueldade do homem, a arrogância, o desprezo pelo outro, o racismo. Num primeiro momento, o narrador arrependeu-se do que fez (“Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.”), mas logo em seguida não sente remorso algum por ter praticado o mal  (“… me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo.”). Que justificativa ele encontra para o mal feito? Nada mais, nada menos do que algo absurdamente irrelevante: a cor da borboleta. A borboleta é morta porque é preta. A questão da cor da borboleta é tão relevante que já aparece explicitada no título. E o narrador se exime da sua maldade, atribuindo à própria borboleta a razão de sua morte: “Também por que diabo ela não era azul?”.  

A figura “preto(a)” reveste temas como morte (na nossa cultura, preto é cor do luto), escuridão, azar, mau agouro, entre outros. O narrador mata a borboleta não só por crueldade, mas também por ver nela um desejo de liberdade, figurativizado no bater de asas. A borboleta, para ele, é um ser inferior (“Vejam como é bom ser superior às borboletas!”), portanto o homem tem o direito de interromper a vida dos animais inferiores e não precisa de motivo justo para isso. O simples fato de a borboleta ser preta e desejar voar decreta-lhe a sentença de morte. Num mundo em que todos deveriam ser iguais (“… a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul para todas as asas…”, grifo nosso), alguns não são iguais porque têm cor diferente.  

Em A borboleta preta, há um discurso que dialoga com outro, refutando-o. Há um discurso constituído de que todas as pessoas são iguais, independentemente da cor de sua pele. O texto de Machado polemiza com esse discurso, negando-o e afirmando que a sociedade não trata os iguais como iguais. A borboleta morre simplesmente porque é preta. O final do capítulo é revelador: “creio que para ela era melhor ter nascido azul”.   

Os textos são produtos culturais e reproduzem os valores da sociedade em que foram produzidos. O texto de Machado contém uma crítica sutil a determinados valores da sociedade brasileira do século XIX, mas que, infelizmente, ainda são veiculados nos dias de hoje, por isso continua atual. 

Por último, mas não menos importante, nos textos pode-se afirmar-se uma coisa para dizer justamente o seu contrário. Trata-se de uma figura de retórica chamada ironia, que já comentei neste blogue (para ler o artigo, clique aqui). No texto, o narrador faz a seguinte reflexão: “Também por que diabo não era ela azul?”, em seguida, a respeito dessa reflexão, afirma que ela era “…uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas…”. Evidentemente, trata-se de uma ironia, já que se está dizendo justamente o contrário do que está escrito: que tal reflexão é estúpida, banal, irrelevante.  

CAP. XXXI — A BORBOLETA PRETA 

 

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, sai do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu. 

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado. 

— Também por que diabo não era ela azul? Disse comigo. 

E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela sairá do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia. 

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as providas formigas… Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul. 

 

 

 

 

 

 

 

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