A mullher do tenente francês

Tempo de leitura: 3 minutos

O romance A mulher do tenente francês (The French Lieutenant’s Woman), do escritor inglês John Fowles (1926 – 2005), publicado originalmente em 1969, foi traduzido para o português por Adalgisa Campos da Silva e publicado pela Objetiva (selo Alfaguara), em 2008. Há uma adaptação para o cinema, com o mesmo nome, disponível em DVD. Apesar de o filme não ser ruim, não consegue transpor para a tela uma das características do livro que fazem de A mulher do tenente francês uma obra original, por isso recomendo que se leiam as 491 páginas do romance de Fowles.
John Fowles
A narrativa se passa na Inglaterra vitoriana e tem início em 1867 e tem como personagens centrais a enigmática Sarah Woodruff (a mulher do tenente francês) e Charles, que está prestes a se casar com a Ernestina, filha de um burguês endinheirado.
Sarah trabalha como empregada na casa da Sra. Poultney, na cidadezinha litorânea de Lyme, no sul da Inglaterra. Não tem amigos e o que se sabe dela é que vive esperando a volta do misterioso tenente francês que a houvera seduzido. Para a população de Lyme, Sarah é ou uma puta, que se entregara ao tenente francês, ou uma louca.
Sarah e Charles acabam se envolvendo, mas não adianto mais nada sobre a história, que é muito boa.
A mulher do tenente francês é historiográfico e, ao mesmo tempo, metaficcional. Esse caráter de metaficção, que caracteriza a obra como inovadora, não se consegue transpor para a tela. Chamo a atenção para o papel do narrador não convencional. Ele narra uma história do século XIX, na perspectiva de um narrador do século XX. Não se limita a narrar os fatos, optando também por comentar sobre eles e sobre o próprio ato de narrar a história. Acrescente-se que propõe mais de um final para história (são três finais distintos). Na página 358, termina a história (“E assim termina a história”); mas, como afirmei, o romance termina na página 491, este é apenas um dos finais.
O narrador ora narra na 3a. pessoa, com objetividade e onisciência (referindo-se a Charles, “Seus pensamentos eram muito vagos para serem descritos”, p. 17), ora é um narrador intruso que, em 1a pessoa, emite opiniões e julgamentos sobre personagens e sobre o próprio ato de narrar (“Já disse  antes que todos nós somos poetas, embora nem todos façamos poesia; do mesmo modo, somos todos romancistas, ou seja, temos o hábito de escrever futuros ficcionais para nós mesmos, embora hoje em dia talvez nos sintamos mais propensos a nos colocar em filmes”, p. 362), sobre ficção e verossimilhança (“A história que estou contando é pura imaginação. Esses personagens que crio nunca existiram senão em minha mente”, p. 105). Se as personagens são criações do autor, esse teria o poder soberano sobre elas? Fowles se questiona sobre o que fazer com as personagens que cria. A respeito de Charles diz “Mas, antes, o que diabo vou fazer com você? Já pensei em terminar a carreira de Charles aqui e agora, deixando-o sempre a caminho de Londres. Mas as convenções da ficção vitoriana não permitem, não permitiam, o final em aberto, inconcluso”, p. 429). Sobre personagens, traz à narração uma das regras do romance ao afirmar que “Uma das regras consagradas do romancista é não introduzir ao final de um livro senão personagens muito secundários”, p. 485.
Para quem escreve ficção ou quer conhecer os segredos da arte de narrar, o livro de Fowles é um prato cheio, pois é uma verdadeira aula de narrativa (é isso que o filme não consegue transpor para a tela). Com os olhos de um homem do século XX, o narrador o tempo todo insere na narração não só observações sobre a sociedade vitoriana, mas também sobre o ato de narrar. Nesse sentido, o livro de Fowles é uma aula. Não por acaso, é livro estudado em diversas universidades europeias.

2 Comentários


  1. Oba! Mais uma dica apetitosa, Ernani!
    Acabei meu primeiro Jack London, o estonteante O povo do abismo – infelizmente um livro atual e universal demais na narração da miséria… Meu próximo London será um de contos, devidamente encomedado para a ótima livraria Expressão Popular.
    Abração!

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