A perfeição

Tempo de leitura: 4 minutos

No artigo, comento um dos meus contos preferidos de Eça de Queirós, “A perfeição”. Nele, Eça faz uma leitura do Canto V da Odisseia, dialogando com o texto de Homero. O episódio é aquele em que Ulisses está na ilha de Calipso. Em resumo o conto narra o que segue.

Ulisses está na ilha de Ogígia onde havia sete anos Calipso o recolhera após um raio fender sua nau. Pela manhã, depois de sair do leito de Calipso, contemplando o mar azul, lhe assoma uma profunda tristeza. Nem as ninfas, nem a água pura, nem as finas sedas, nem o amor de Calipso conseguem evitar que sua tristeza se esvaia.

Ulisses e Calipso

Ulisses lutara em Troia, onde vira morrer seus companheiros, ludibriara Polifemo com suas astúcias, escapara do canto das Sereias, passara pelas manobras entre Sila e Carídbis, enfrentara todos os infernos e agora se vê, pelo amor de uma deusa, preso numa ilha, longe da mulher, Penélope, e do filho Telêmaco.

Um dia Mercúrio desce à ilha. Calipso indaga ao mensageiro dos deuses o que lhe trazia àquele lugar. Mercúrio diz a Calipso que Júpiter o enviara com ordem para que a deusa concedesse liberdade a Ulisses, permitindo que ele retornasse à sua casa. Diz ainda que se Calipso ousasse não cumprir a ordem despertaria a ira de Júpiter.

Calipso fala com Ulisses e diz a ele que permitirá sua volta a Ítaca. Como na ilha de não há qualquer embarcação, a deusa dá a Ulisses um machado e lhe indica as árvores para derrubar e construir uma jangada. Ulisses trabalha durante três dias até que a embarcação fica pronta.

Enfim, chegou a hora de partir, de retornar a Ítaca, de deixar a diva Calipso e voltar a deitar-se no leito de Penélope. Ao se despedir do herói, Calipso pergunta a Ulisses por que ele deixava a paz e a doçura da beleza imortal.

A resposta que Ulisses dá a Calipso e que fecha o conto é um dos trechos da literatura que mais me comovem, por isso, em vez de contá-lo, como minhas palavras, transcrevo as palavras de Eça.

“Oh Deusa, não te escandalizes! Mas ainda que não existissem, para me levar, nem filho, nem esposa, nem reino, eu afrontaria alegremente os mares e a ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal. Considera, oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e cair. Nunca este céu rutilante se carregar de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem abrigado, as mãos ao doce lume, enquanto a borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas são as mesmas, oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manhã que me mostrastes estes prados perpétuos – e há lírios que odeio, com um ódio amargo, pela impassilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tão incessantemente, tão implacavelmente, o seu voo harmonioso e branco, que eu escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias! E quantas vezes me refugio no fundo da gruta, para não escutar o murmúrio sempre lânguido destes arroios sempre transparentes! Considera, oh Deusa, que na tua Ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcaça dum bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh Deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou privado de ver o trabalho, o esforço, a luta e o sofrimento… Oh Deusa, não te escandalizes! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma ponte; os braços suplicantes duma mãe que chora; um coxo, sobre sua muleta, mendigando à porta das vilas… Deusa, há oito anos que não olho para uma sepultura… Não posso mais com esta serenidade sublime! Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se corrompe… Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da morte!”

A deusa ainda tenta dissuadi-lo, dizendo: “- Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos…”

Ulisses então diz à deusa: “- Oh deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!”

1 comentário


  1. Prof Ernani
    Hoje um colega e amigo faleceu. E estando eu impactado pela perda, li o seu texto de hoje. E pensando nas palavras de Ulisses, escritas por Eça, sobre não suportar mais aquela perfeição, senti que podia aguentar esta dor, e ser humano mortal.

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