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Quando dei aula de português no que seria hoje o Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio, dedicava uma aula para fazer os estudantes refletirem sobre o uso da vírgula e evitava das regras. Pedia que observassem a sintaxe da frase e que não usassem a vírgula para separar termos imediatos.
Dizia a eles que, havendo alterações na ordem canônica, particularmente deslocamentos e intercalações, caberia a vírgula e chamava a atenção para o fato de que o uso desse sinal não se faz exclusivamente por regras. Há razões de ordem pessoal que norteiam seu emprego.
Comentava que há razões de estilo que levam autores a usar ou não a vírgula. Seguia com a leitura de trechos de alguns escritores, chamando a atenção dos estudantes para o uso que esses escritores faziam da vírgula. Gostava de usar trechos de Vieira e de Machado de Assis. Funcionava muito bem.
Em suas aulas de literatura em Berkeley, Cortázar, na quinta aula, Musicalidade e humor na literatura, nos fala sobre o emprego da vírgula em seus textos e como os revisores tratavam disso (acho que continuam tratando da mesma forma).
A seguir, reproduzo o fragmento do livro de Cortázar, que vale como uma lição de quem sabe das coisas, sobre uso da vírgula.
“[…] toda vez que recebo provas tipográficas de um livro de contos meu, há sempre na editora esse senhor que se chama “O corretor de estilo” [ou copidesque], e a primeira coisa que faz é pôr-me vírgulas por todos os lados. Me lembro de que no último livro de contos que se imprimiu em Madri (e em outro que me havia chegado de Buenos Aires, mas o de Madri bateu o recorde) em uma das páginas tinham me acrescentado trinta e sete vírgulas, em uma só página!, o que mostrava que o corretor de estilo tinha perfeita razão de um ponto de vista gramatical e sintático: as vírgulas separavam, modulavam as frases para que o que se estava dizendo passasse sem nenhum inconveniente; mas eu não queria que passasse assim, necessitava que passasse de outra maneira, que com outro ritmo e outra cadência se convertesse em outra coisa que, sendo a mesma, viesse com essa atmosfera, com essa espécie de luzes exterior ou interior, que pode dar o musical tal como o entendo dentro da prosa. Tive de devolver essa página de provas atirando setas para todos os lados e suprimindo trinta e sete vírgulas, o que converteu a prova em algo como esses pictogramas nos quais os índios se envolvem numa batalha e há flechas por todos os lados. Isso sem dúvida gera surpresa nos profissionais que sabem perfeitamente onde há que colocar uma vírgula e onde é ainda melhor um ponto e vírgula que uma vírgula. Acontece que minha maneira de colocá-las é diferente, não por ignorar onde deveriam estar em certo tipo de prosa, mas porque a supressão dessa vírgula, como muitas outras mudanças internas, é – e isso é difícil de transmitir – minha obediência a uma espécie de pulsação, a uma espécie de batida a que há enquanto escrevo e que faz com que as frases me cheguem dentro de um balanço, dentro de um movimento absolutamente implacável contra o qual não posso fazer nada: tenho de deixa-lo sair assim porque é justamente assim que me aproximo do que queria dizer e é a única maneira em que posso dizê-lo.”
(CORTÁZAR, Julio. Aulas de literatura: Berkeley, 1989. 2a. ed. RIo de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018, p. 160-161)
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