Quando ninguém não é ninguém

Tempo de leitura: 2 minutos

Já comentei aqui no blogue que muitos dos problemas de leitura decorrem do que se convencionou chamar de literalismo (clique aqui para ler sobre isso). Senti recentemente o problema quando disse “ninguém usa cheque”. Pessoas fizeram leitura literal da minha fala e se apressaram a me desmentir, afirmando que ainda se usam cheques como meio de pagamento.

Em outros posts, comentei também o que são as chamadas figuras de retórica (clique aqui para ler). Muitas vezes, até no dia a dia, usamos palavras com sentido diverso do original, ou seja, diz-se uma coisa para significar outra. Normalmente nos valemos desse recurso para enfatizar o que pretendemos dizer. Já falei aqui de algumas dessas figuras, como a metáfora e a metonímia (clique aqui).

Quando afirmei que “ninguém usa cheque”, estava me valendo de uma hipérbole, uma figura de retórica que, para chamar a atenção ao que se diz, recorre-se a uma superlativização, ou seja, há uma exageração intencional.

Todos nós, em diversos momentos, usamos essa figura, quando dizemos “estou morrendo de sede”, “vim voando”, “já repeti isso pela milésima vez”, “faz séculos que não te vejo”, “chorou rios de lágrimas”…

Evidentemente, quando se recorre à hipérbole, espera-se que o leitor ou ouvinte não faça dela uma leitura literal.  

O pronome indefinido ninguém é costumeiramente usado com valor hiperbólico para designar poucas pessoas. Trata-se de um recurso expressivo. Quando se diz que “hoje em dia ninguém faz pagamentos com cheque”, não se está dizendo que nenhuma pessoa usa cheque, mas que o número de pessoas que se vale dessa forma de pagamento, nos dias de hoje, é muito pequena (menos de 1% das transações são feitas com cheques nos dias de hoje, conforme informação que obtive).

Quando alguém diz “ninguém mais lê jornal impresso”, o pronome ninguém também é usado com valor hiperbólico, seu sentido não é o literal (nenhuma pessoa), mas poucas pessoas. Embora os leitores de jornais impressos tenham diminuído drasticamente, há ainda pessoas que gostam de sujar as mãos de tinta preta lendo o jornal impresso. O autor desse texto é uma delas.


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