Boas Festas

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Este blogue é um espaço para falar de língua e literatura. Já vi muita gente defendendo que letra de música não é literatura. Não caberia no espaço deste artigo discutir o que é literatura e o que faz um texto ser alçado à categoria do literário. Em meu livro Leitura do texto literário, publicado pela Editora Contexto, discuto esse assunto com profundidade.

Quando penso na letra de Construção, de Chico Buarque, só para citar um único exemplo, não consigo entender por que certas pessoas não a consideram manifestação de arte literária. Será por que é acompanhada de música? Mas música e poesia sempre andaram de mãos dadas. O gênero poético mais cultivado é a poesia lírica. Por que essa forma literária se chama lírica? Porque era acompanhada por instrumento de cordas chamado lira.

Enfim, há muitas letras de música que são manifestações de alta literatura e há muito poema ao qual não se pode, de forma alguma, dizer-se que seja uma manifestação literária.

Isso tudo para justificar por que, para o presente artigo, não recorri a nenhum texto de mensagem de Natal que pertencesse ao cânone literário (há vários), mas a uma letra de canção natalina. Afinal, em época de Natal, mais ouvimos canções natalinas (muitas delas estrangeiras) do que contos e poemas.

Nos shoppings e ruas enfeitados, ouço o Jingle Bells. Não gosto dessa música, não me identifico com ela. Para mim, a música que mais me diz sobre o Natal é ‘Boas Festas’, do compositor baiano Assis Valente (“Anoiteceu, o sino gemeu“).

Assis Valente teve uma vida muito sofrida, negro e homossexual, foi roubado dos pais quando criança e entregue a uma família para ser criado. Imaginem a barra pesada que um negro homossexual aguentava em meados do século passado. Assis Valente tentou o suicídio várias vezes, até que conseguiu.

Assis Valente (1911 – 1958)

Boas Festas é uma canção que diz muito daqueles que no Natal nada recebem, daqueles a quem o “bom velhinho” abandonou (“Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem“). A letra da canção natalina de Assis Valente faz referência a um anti-Papai Noel, não fala de bom velhinho que sempre vem para ricos ou pobres de outra canção natalina (“Seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem”).

É preciso, como faz Assis Valente, lembrar o Natal dos excluídos, que, nesta época do ano aumentam, pois empresas aproveitam o final de ano para promoverem demissões.

No ramo educacional, como terminou o ano letivo, escolas e faculdades privadas despedem professores (no ano que vem contratarão outros por salários menores). Muitas criam verdadeiro clima de terror alardeando que “se a crise continuar, vamos ter de demitir”. Como bem diz a canção, nem todo mundo é filho de Papai Noel. Pensem no Natal dos que receberam como presente a perda do emprego.

Em vez de comemorar com o Jingle Bells, prefiro fazer coro com Assis Valente “Papai Noel, Vê Se Você Tem / A Felicidade Pra Você Me Dar”.

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