Colocação pronominal

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Na Folha de S. Paulo de 2 de agosto de 2018, p. B3), o colunista Sérgio Rodrigues traz à baila o problema da colocação pronominal, em particular o caso em que os pronomes oblíquos átonos vêm abrindo a frase, o que costuma causar urticária em gramáticos conservadores, que insistem em condenar um uso mais que sacramentado, inclusive em situações mais formais.

Em outras oportunidades, já me manifestei sobre isso, afirmando que, tirante algumas construções que se cristalizaram, como os anúncios do tipo Vende(m)-se casas, Aluga(m)-se apartamentos, Precisa-se de pedreiros (não vou entrar aqui na discussão se casas é sujeito, se o verbo deve ir para o plural ou não), a colocação do pronome em início de frase (e textos) é mansa e pacífica entre nós, mesmo nas variedades prestigiadas socialmente.

O que trago aqui é uma contribuição de um não linguista, que viu com muita clareza a questão do pronome átono em início de frase (texto). Em seu texto, o autor confirma que começar frase por pronome oblíquo é algo que há muito está sacramentado no português brasileiro. Me refiro (sic!) ao sociólogo Gillberto Freyre, que, em Casa-grande e senzala, cuja 1a. edição é de 1933, afirma que o que segue no parágrafo seguinte.

“Sucedeu, porém que a língua portuguesa nem se entregou de todo à corrupção das senzalas, no sentido de maior espontaneidade de expressão, nem se conservou acalafetada nas salas de aula das casas-grandes sob o olhar duro dos padres-mestres. A nossa língua nacional resulta da interpenetração das duas tendências. Devemo-la tanto às mães Bentas e às tias Rosas como aos padres Gamas e aos padres Pereiras. O português do Brasil, ligando as casas-grandes às senzalas, os escravos aos senhores, as mucamas aos sinhô-moços, enriqueceu-se de uma variedade de antagonismos que falta ao português da Europa. Um exemplo, e dos mais expressivos, que nos ocorre, é o caso dos pronomes. Temos no Brasil dois modos de colocar pronomes, enquanto o português só admite um – o “modo duro e imperativo: diga-me, faça-me, espere-me. Sem desprezarmos o modo português, criamos um novo, inteiramente nosso, caracteristicamente brasileiro: me diga, me faça, me espere. Modo bom, doce, de pedido”. (FREIRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 50a ed. São Paulo: Global, 2005, p. 417-418.)

As frases “Faça-me um favor” e “Me faça um favor” são formadas pelas mesmas palavras. Em ambas, temos o verbo no imperativo afirmativo na mesma pessoa gramatical (faça). A única diferença entre elas é a colocação do pronome oblíquo átono. No primeiro exemplo, depois do verbo (ênclise); no segundo, depois (próclise).

Os efeitos de sentido são, no entanto, diferentes. No primeiro caso (pronome depois do verbo, como recomendam as gramáticas normativas), a atitude do falante em relação ao que fala é de ordem.  Como se quem fala ocupasse uma posição hierarquicamente superior em relação àquele a quem a mensagem é destinada, ou seja, a assimetria enunciador / enunciatário é bem marcada.

No segundo caso (pronome oblíquo antes do verbo, contrariando o que estipula a gramática tradicional), a atitude do falante não é de ordem, mas de pedido. Mesmo que entendamos como uma ordem, essa é atenuada. Trata-se de uma forma mais polida de ordenar algo. Com o pronome no início da frase, o pedido não soa autoritário. A relação entre os interlocutores é menos assimétrica.

4 Comentários


  1. Mto bom texto, Ernani!

    Estamos juntos com as lições do mestres modernistas, como no poema de Oswald de Andrade

    Pronominais

    Dê-me um cigarro
    Diz a gramática
    Do professor e do aluno
    E do mulato sabido
    Mas o bom negro e o bom branco
    Da Nação Brasileira
    Dizem todos os dias
    Deixa disso camarada
    Me dá um cigarro

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    1. Mayra o poema de Oswald deixa claro que o Me dá é muito anterior ao início do século passado. Quer dizer, trata-se de uso antiquíssimo que as gramáticas tradicionais insistem em não reconhecer.

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  2. Muito bom professor.
    Porém faço um lamento: infelizmente as bancas de concurso, em sua grande maioria, nas provas em áreas de contratação que não seja para professor de LP, tratam o “Me faça um favor” como ERRO. Sem choro nem vela. E sem recurso

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    1. O que é lamentável e ignorante. Uma banca que pensa isso deve pensar também que a terra é plana. Santo atraso e ignorância.

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