Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso e a interdição do incesto

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Há quatro anos comecei uma pesquisa sobre o romance Crônica da casa assassinada, do escritor mineiro Lúcio Cardoso (1912 – 1968). Se você ainda não leu esta obra, recomendo que o faça. Trata de um dos mais importantes romances de nossa literatura, lamentavelmente pouco lido e estudado.

São vários os temas presentes na obra, por isso tive de fazer um recorte e concentrar minha pesquisa em alguns aspectos. Optei por pesquisar o tema das relações interditas, especialmente o incesto, um dos temas que mais impacta o leitor de Crônica da casa assassinada. A base teórica de que me vali foi a Semiótica discursiva. Evidentemente, no espaço deste blogue não cabe mergulhar numa análise semiótica da obra de Lúcio Cardoso, por isso vou me ater particularmente em comentar as palavras interdição e incesto, esperando, com isso, trazer alguma contribuição a quem já leu ou ainda for ler a Crônica da casa assassinada.

Lúcio Cardoso

INTERDIÇÃO

Começo pelo lexema interdição. Nele, podemos ver um programa narrativo. Essa palavra tem sua origem no latim ‘interdictio, onis’. Em português, os verbos correspondentes a esse substantivo são interdizer e interditar, o último mais usado. O substantivo latino corresponde ao verbo interdico, is, xi, ctum, cere, derivado de dico, is, xi, ctum, cere, que significa dizer, nomear, afirmar, falar em público. O verbo interdicere em latim era usado com o sentido de fazer um edito, lavrar um decreto (pelo Pretor). Santos Saraiva em seu Dicionário Latino-português faz referência a esse verbo com o sentido de proibir a alguém a água e o fogo, isto é, desterrar alguém. O mesmo dicionário, no verbete interdictio, onis, reitera esse sentido ao afirmar “aquae et ignis interdictio“, isto é, proibir alguém de água e fogo, o que significa desterrá-lo.

A etimologia de interdição (interditar) leva ao seguinte: um sujeito, que detém um poder, proíbe alguém de fazer algo, sob pena de uma sanção, o desterro, ou seja, o ato de interditar pressupõe um destinador, um dito, um destinatário da ação de dizer e uma sanção. A interdição tem, portanto, caráter performativo, na medida em que se realiza pelo ato de dizer.

Esse exercício de etimologia permite afirmar que a interdição se constitui no e pelo discurso. Dessa forma, pode-se vê-la por quatro aspectos:

a) uma relação comunicativa entre um destinador e um destinatário, em que o destinador, fonte dos valores, comunica ao destinatário a proibição de um fazer (um /dever-não-fazer/);
b) uma relação entre um destinador-julgador e um destinatário-sujeito em que o primeiro sanciona o segundo. No caso de não cumprimento do contrato de injunção, essa sanção será negativa;
c) uma relação de manipulação entre o destinador-manipulador e o destinatário-sujeito, em que o primeiro manipula por intimidação o segundo a um /dever-não-fazer/.

Do ponto de vista psicológico, o interdito afasta de nossa consciência o objeto que ele interdita, controlando a violência.

INCESTO

Como fiz com a palavra interdição, gostaria de traçar alguns comentários sobre a palavra incesto do ponto de vista de sua etimologia. Como aquela, esta também provém do latim, incestus, us, incesto, ação contra a castidade. Ao contrário do que ocorre em português, em latim o processo é lexicalizado por meio do verbo incesto, as, avi, atum, are, cujos sentidos são, manchar, poluir, tornar impuro, corromper, desonrar. Há em latim o substantivo neutro incestum, i (incestus, us é masculino da quarta declinação), cujo sentido é impureza, mancha e o adjetivo incestus, a, um, cujo sentido é impuro, poluído, manchado. O Houaiss registra o adjetivo incesto (datação de 1679) com o sentido de o que não é puro, o que não é casto.

Essa breve pesquisa etimológica permitiu-me chegar ao adjetivo latino castus, a, um (cestus é uma variante de castus). Socorrendo-me mais uma vez de Santos Saraiva, verifiquei que castus, é aquilo que é puro, íntegro, imaculado. Pode-se então apresentar para o substantivo incesto os semas /impuro/ e /manchado/. Puro é o que não contém mistura e manchado é aquilo que contém marcas de sujeira; sujo. Incesto é, pois, uma mistura que deixa marcas de sujeira. Como se pode ver, a palavra em si mesma já expressa a condenação do ato, uma mistura suja.

Chamo a atenção para que, no caso do incesto, a interdição recai sobre a relação entre dois sujeitos que mantêm entre si parentesco próximo. Essa relação é sempre de natureza sexual. O que aproxima esses dois sujeitos é um /querer-fazer/. Portanto, incesto contém os seguintes traços: /humano/, /sexo/, /parentesco/, /interdição/, /condenação/.

A interdição do incesto, uma regra antiquíssima que tem caráter de universalidade, é uma invasão da cultura na natureza, conforme afirma Levi-Strauss “[…] constitui o passo fundamental graças ao qual, pelo qual, mas sobretudo no qual se realiza a passagem da natureza à cultura” e é a afirmação de um /não-poder-fazer/, ou seja, no domínio das relações entre os sexos, não se pode fazer o que se quer, o que significa que, para a sobrevivência do grupo, o social deve prevalecer sobre o natural; o coletivo, sobre o individual e a organização, sobre o arbitrário. Apoia-se também numa regra de reciprocidade, vale dizer, o sujeito renuncia a ter relação sexual com a filha ou irmã, desde que outro sujeito também faça a mesma renúncia. Portanto, podemos ver na interdição do incesto dois programas transitivos correlatos: um de doação e outro de renúncia.

A interdição do incesto corresponde a uma triagem (lembremo-nos que no lexema incesto está contido o sentido de mistura ruim). Portanto, separa aquilo que pode ser considerada uma boa mistura de uma má mistura. Em síntese: excetuando-se a mistura entre consanguíneos, todas as demais misturas são consideradas boas e, portanto, prescritas.

Falar em interdição me leva a refletir sobre transgressão. Segundo Bataille,  “Não há interdito que não possa ser transgredido“.  A transgressão do prescrito não suprime o prescrito, assim como a transgressão do interdito não o elimina, portanto a prática do incesto não suprime sua interdição.

Aspectualmente, transgredir não é terminativo, mas incoativo, indicando o início da passagem de um estado a outro. Do ponto de vista do destinador, de um estado de pureza para um de impureza. Portanto, o incesto representaria o retorno do sujeito da cultura ao estado de natureza. Nega-se a cultura para afirmar a natureza; nega-se a regra social para se afirmar o instinto. O incesto é, pois, o triunfo pulsão individual sobre a coerção social.

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