Diversidade e uniformidade

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A realização da língua por meio da fala, dado o caráter individual desta, determina usos particulares – ou seja, como cada falante, ao utilizar a língua, o faz de maneira peculiar. Podem-se  observar usos diversos de uma mesma língua, em todos seus níveis: fonético/fonológico, morfológico, sintático, lexical e semântico. O uso que os falantes fazem da língua determina que haja variações linguísticas, decorrentes de vários fatores, tais como:

• o contexto em que ocorre a comunicação determina um uso mais ou menos monitorado da língua. Numa conversação informal, usamos a língua de uma forma mais espontânea; numa entrevista de emprego, o uso será mais monitorado;

• a condição sociocultural do falante: falantes escolarizados usam a língua de maneira diferente da dos falantes que não tiveram acesso à escolaridade formal;

• fatores de ordem regional ou de idade: pessoas de regiões diferentes tendem a usar a língua de maneira diferente. Jovens usam a língua de forma diferente dos adultos.

Esses são apenas alguns fatores que determinam variações no uso da língua. Existem outros. No exercício de determinadas profissões, os falantes fazem um uso da língua que é típico daquela profissão. Assim, temos a língua dos marinheiros, dos advogados, dos médicos, dos economistas etc. O meio usado também determina variações: uma mesma mensagem apresentará variações linguísticas se enviada pelo WhatsApp ou por carta.

O importante é saber que, dentre todas as variedades que uma língua apresenta, não existe uma que seja melhor ou mais correta que a outra. O que se deve levar em conta é a adequação que se deve fazer em função da situação comunicativa.

No nível fonológico, observamos variações na realização de um mesmo fonema. Citamos apenas alguns exemplos.

• supressão do fonema /r/ em final de palavra (apócope)

entrega[r] ⇒ entregá

compra[r] ⇒ comprá

• supressão de um fonema no meio da palavra (síncope)

abobra (em vez de abóbora)

bestera (em vez de besteira)

• transformação de ditongos orais em um só fonema vocálico. A esse fenômeno damos o nome de monotongação:

caixa  ⇒ caxa

falou ⇒ falô

Como essa pronúncia é comum nas variedades não prestigiadas socialmente, acaba ocorrendo o fenômeno da hipercorreção, que leva falantes a dizer (e grafar), por exemplo, carangueijo, bandeija, prazeiroso, em vez de caranguejo, bandeja, prazeroso.

• transformação da vogal tônica final, seguida de s ou z, em ditongo:

arroz ⇒  arroiz

faz ⇒ faiz

mês ⇒ meis

• transformação do fonema consonantal /l/, em final de sílaba, na semivogal /w/:
alto  ⇒ awto

mal ⇒ maw

sal  ⇒ saw

• quando os fonemas representados pelas letras s e z ocorrem em final de sílaba, é comum o aparecimento da semivogal /j/:

atrás ⇒ atrajz

fez ⇒ fejz

• transformação do fonema representado pelo dígrafo lh em /i/:

olha ⇒ oia

velho ⇒ veio

No nível morfológico, cito as variantes com o sufixo -(z)inho. Em alguns lugares usa-se painho; em outros, paizinho. No nível sintático, no português brasileiro usamos locuções verbais como estou trabalhando, fiquei falando; no português europeu, utiliza-se o verbo principal no infinitivo: estou a trabalhar, fiquei a falar. Em diversas regiões do Brasil, utiliza-se a dupla negação: não vou não, não sei não. No nível lexical, dependendo da região, um mesmo referente é denominado por palavras distintas: encanador e bombeiro; farol, semáforo; bolacha e biscoito; papagaio ou pipa etc.

Observe o trecho a seguir.

– Está um frio de renguear cusco! – gritou um sargento, que não tinha poncho mas estava teso e risonho em cima do cavalo.

– Estou tirando a maior lechiguana da minha vida – exclamou outro. (ERICO VERISSIMO)

Algumas pessoas podem ter dificuldade para entender o diálogo acima, uma vez que Erico Verissimo emprega expressões de uma variedade regional do português brasileiro. Uma pessoa que não seja do Rio Grande do Sul provavelmente não sabe o que significa “renguear cusco” e “tirar lechiguana”.

Renguear significa “mancar, entortar”, e cusco significa “cachorro”. Assim “um frio de renguear cusco” é um frio tão intenso que os cachorros andam mancando. Tirar lechiguana significa “passar muito frio à noite por insuficiência de cobertor”. No diálogo, os interlocutores comentam que está muito frio naquele momento.

Por outro lado, dado o caráter social, a língua, para funcionar como meio de comunicação entre indivíduos, tem de ser comum (pelo menos parcialmente) aos que dela se utilizam. Daí a existência de uma força no sentido de se uniformizar o uso que se faz dela.

Uniformidade, segundo Serafim da Silva Neto, não quer dizer igualdade. É importante notar que, no Brasil, há uma forte homogeneidade linguística, elemento fundamental para a preservação da união nacional. Num país de mais de 8.500.000 km2 e com mais de 200 milhões de habitantes, embora haja variações, a língua é essencialmente a mesma, ao contrário do que sucede, por exemplo, na Suíça, onde, numa área de 41.285 km2, com uma população de aproximadamente 8 milhões de habitantes, há forte variação linguística, pois vamos encontrar quatro línguas diferentes, e todas elas oficiais: alemão, francês, italiano e romanche.

Numa língua, pode-se observar a atuação de duas forças que se opõem: de um lado, uma tendência à uniformidade; de outro, à variedade, decorrente dos usos individuais. Essa tendência à uniformidade é dada pela escola, que procura ensinar aos falantes uma norma-padrão. É preciso ressaltar que os meios de comunicação de massa, dada sua grande penetração e aceitação, acabam exercendo uma grande força no sentido de uniformizar o uso que se faz da língua. É necessário ainda notar que os próprios falantes, que são os responsáveis pela diversificação do uso, exercem também poder unificador, ao rejeitar, em muitos casos, enunciados que fogem a um determinado padrão que pretendem atingir.

A língua apresenta um caráter social, decorrente de ser um bem de domínio público, ou seja, por pertencer a toda a comunidade de falantes, existe a necessidade de que ela seja igual para todos seus usuários. A esse aspecto da linguagem humana damos o nome de uniformidade.

Dá-se o nome de norma ao conjunto de regras que caracterizam uma variedade da língua. Cada variedade da língua tem suas regras, ou seja, suas normas, daí podermos falar em norma popular e norma culta. Ressalto que ambas têm existência empírica, isto é, são usadas por falantes concretos. A primeira correspondendo ao uso das pessoas não escolarizadas; a segunda ao das pessoas com acesso à cultura letrada. A norma culta é a empregada em boa parte da imprensa e nos documentos oficiais. Convém não confundi-la com o que se convencionou chamar de norma-padrão. Essa não tem existência empírica e é a que a gramática tradicional preconiza. Na maioria dos casos, é essa a norma que é ensinada na escola. Portanto, estamos diante de um problema sério: a escola ensina uma norma que não têm existência real. Isso é fácil de compreender quando se verifica que a escola, em vez de trabalhar com enunciados, ou seja, usos concretos da língua, trabalha com frases.

A língua, todo o tempo, está sujeita a duas forças que atuam em sentido contrário: de um lado a variação; de outro, a uniformização, que funciona no sentido de refrear a variação. Como essas duas forças estão presentes num mesmo momento histórico, observa-se a convivência de duas normas. As construções no quadro a seguir convivem no português brasileiro atual.

Assisti ao jogo. Assisti o jogo.
Prefiro estudar a trabalhar. Prefiro mais estudar do que trabalhar.
Paguei ao médico. Paguei o médico.
Nunca os vi. Nunca vi eles.
Tu conheces o caminho. Tu conhece o caminho.
Nós viajaremos nas férias. A gente vai viajar nas férias.
A moça cujo pai é médico… A moça que o pai dela é médico…
Contaram-me que ele foi aprovado. Me contaram que ele foi aprovado.
Contar-me-ão os motivos da briga. Me contarão os motivos da briga.
Não me deixe esquecer o cartão. Não deixa eu esquecer o cartão.
Ele esquecera o livro sobre a mesa. Ele tinha esquecido o livro sobre a mesa.
No mês de abril viajarei para Paris. No mês de abril vou viajar para Paris.
Vós soubestes a verdade a tempo. Vocês souberam a verdade a tempo.

As da coluna da esquerda são as prescritas pela gramática tradicional e correspondem ao que se denomina norma-padrão. As da coluna da direita representam usos frequentes no português brasileiro atual, sendo que algumas dessas construções são utilizadas também pelas pessoas ditas “cultas”.  Observe ainda que, na coluna da esquerda, certas construções são rarissimamente usadas, mesmo por pessoas com acesso à cultura letrada em situações de uso formal da língua, como a mesóclise e o uso do pronome vós.

Embora a língua apresente diferentes normas que são efetivamente usadas, ou seja, variantes da língua, por que razão se estabeleceu como modelo de língua a ser seguido uma norma que nem existe concretamente, ou seja, uma norma que não é uma variedade da língua? Quais critérios foram observados a fim de se estabelecer uma norma-padrão do português?

A resposta a essa questão é discutida em meu livro Linguagem, língua e fala 3a. ed., publicado pela Editora Saraiva.

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