Dossiê H

Tempo de leitura: 3 minutos

Dossiê H, do albanês Ismail Kadaré (1936), mesmo autor do festejado Abril despedaçado, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, é um livro bom demais.

O livro narra que os pesquisadores irlandeses, Max Roth e Willy Norton, que vivem nos Estados Unidos, conseguem visto na Legação do Reino da Albânia em Washington para irem à Albânia, onde pretendem fazer pesquisas num vilarejo sobre a poesia épica albanesa e encontrar elementos da tradição oral que teriam subsidiados Homero na composição de seus poemas. Tomam por hipótese que a poesia da região teria relações com a Ilíada e a Odisseia. Segundo puderam apurar, o lugar que irão visitar seria o único do mundo onde ainda se cria uma epopeia semelhante aos poemas homéricos. Em resumo: os pesquisadores vão em busca das origens dos poemas homéricos.

A narrativa se centra na relação de Max e Willy com a população local e suas tradições. Na aldeia em que se estabelecem, são recebidos pelo prefeito, que recebe ordens superiores, vindas da capital, para vigiar os pesquisadores, pois as autoridades locais acreditam que se trata de espiões. Dois agentes albaneses são designados para acompanhar todos os passos dos pesquisadores; um deles, de ouvidos apuradíssimos, é especialista em ouvir; o outro, se não ouve tão bem, é dotado de visão excepcional. O espião albanês especialista em ouvir é quem consegue melhores resultados e fica sozinho como encarregado na vigilância dos pesquisadores estrangeiros. A audição vence a visão.

Os pesquisadores creem que os rapsodos albaneses guardam poemas apenas na memória e, ao recitarem um mesmo poema tempos depois, alteram os versos, o que significa que a poesia está em permanente refazimento. A épica albanesa, não fixada pela escrita, é uma obra aberta.

Como não há registro escrito dos poemas, a metodologia empregada pelos pesquisadores será ouvir os rapsodos, gravar sua fala num primitivo, pesado e enorme gravador de rolo e, tempos depois, ouvir os mesmos rapsodos dizendo o mesmo poema, gravá-lo novamente e, finalmente, comparar as duas versões do poema para observar possíveis alterações no texto.

A tese de que a épica da região albanesa guarda relações com os poemas homéricos se fundamenta na semelhança que os pesquisadores encontraram em alguns versos. No verso que abre a Ilíada, “Mênin aeidé, thea, Pêlêaiadéô Achiolêos” (Canta, deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu), a palavra grega mênin é a mesma palavra albanesa mênin, que significa rancor. Em outro poema albanês, encontram o verso “No rancor recíproco nascemos…”. Outra vez aparece a palavra mênin remetendo ao começo da Ilíada.

As pesquisas vão avançando e, observando os rapsodos albaneses, os pesquisadores pretendem achar respostas para a pergunta: Quem foi Homero? Teria sido um poeta genial ou um redator insigne? Uma instituição? Então seria melhor grafar H.O.M.E.R.O. Seria uma espécie de redator? Curiosamente, à medida que a pesquisa avança, um dos pesquisadores vai perdendo a visão.

A narrativa toda se desenvolve em torno das oposições oral vs. escrito; visão vs. audição; memória vs. esquecimento. Um livro fascinante que nos remete ao Fedro platônico.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *