Duas poetas: duas poesias inéditas

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Hoje, trago para vocês dois poemas inéditos de autoras diferentes. Socorro Maria Lopes e Jessyca Pacheco. Ao final do artigo, explico por que coloquei duas poesias e não uma apenas.

Socorro, que conheci há poucos dias, é de Pacaraima, uma cidade de Roraima, fronteira com a Venezuela. Além de escrever poesia, Socorro é professora e tradutora e gosta muito de música cubana. Me apresentou as canções de Silvio Rodriguez e eu fiquei babando (aliás, não parei ainda de babar). Não resisti aos versos de En breve espacio en que no estás, do poeta cubano (“Sule ser violenta y tierna / No habla de uniones eternas / Más se entrega cual si hubiera / sólo um día para amar). Se ainda não ouviram, não percam tempo. Corram! No Spotify vocês encontram. Ouçam En breve espacio en que no estásQuien Fuera e tantas outras. Agora, leiam o poema que Socorro me enviou.

Desconhecida a rotina
entre os lábios e a língua,
Todo cio era casto.

Maria era áurea,
Mas não cheirava a santa.
Às vezes se sentia menina,
Às vezes queria ir com as outras.

E se foi com um,
que lhe estrelou o céu da boca.
Depois, toda rotina foi pouca!

A concupiscência do beijo
rasgou-lhe as roupas,
profanou-lhe o desejo;

Verteu-lhe agonia e paixão.
Despertou calafrios,
Lançou suas anáguas ao rio,
E a serviu
em bandeja de chão.

Maria, já não tão áurea,
talvez cheirasse a estopim.
Mas nunca foi com as outras…

Se foi com um,
que lhe aflorou essências
de mulher e de jasmim.

Que dizer de um “cio casto” em uma Maria que nunca foi com as outras,”se foi com um, que lhe aflorou essências de mulher e de jasmim”? Inefável. Cai o pano.

Jessyca Pacheco é paulistana e já tem um livro publicado, Matéria Derradeira, Editora Córrego (2015). Sobre este livro, que tive a honra de prefaciar, já escrevi um artigo neste espaço. Para lê-lo, é só clicar no link.

Mas como diz o título do artigo, o que trago aqui são poesias inéditas.

O poema de Jessyca Pacheco que trago a vocês deverá fazer parte de livro que autora está preparando e que terá por título Enormidade no vazio. Dos vários poemas do livro, escolhi um, que reproduzo a seguir.

velho barco

as formas dos prédios
que deformam as massas
carregam os dias

perdidos
encerrados em cubículos

tantas vozes
sem nada a dizer

Nos versos de Socorro pulula o erotismo lírico. A poesia de Jessyca rasga a carne para desnudar o vazio.

Coloquei os dois poemas no artigo, porque, quando tive de escolher um, senti na carne o que é uma aporia.

 

 

 

 

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