Emprego dos tempos verbais 2

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Em post recente, comentei o emprego de alguns tempos verbais, lembrando que é comum o emprego de um tempo em lugar de outro, como em Amanhã telefono para você sem falta, em que uma forma verbal do presente é empregada para exprimir fato futuro.

Falei ainda que o tempo é uma construção da linguagem. Quem fala ou escreve estabelece um Momento de Referência (MR), que pode estar no presente, no passado ou no futuro.

Veja um exemplo em que o MR é o presente:

Hoje de manhã saí muito cedo, / Por ter acordado ainda mais cedo / E não ter nada que quisesse fazer…” (Fernando Pessoa)

Agora veja um exemplo em que o MR é o passado:

Ontem à tarde um homem das cidades Falava à porta da estalagem. / Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça.” (Fernando Pessoa)

Nos versos a seguir, o MR é o futuro (amanhã):

“Amanhã será um lindo dia / Da mais louca alegria / Que se pode imaginar”(Guilherme Arantes)

Para o bom emprego dos tempos, é necessário ter bem claro qual é o momento de referência (MR), pois é em torno dele que se organiza o esquema temporal dos textos, sejam falados ou escritos. Veja como isso ocorre nos trechos citados acima.

O primeiro texto de Fernando Pessoa inicia-se desta forma: “Hoje de manhã saí muito cedo”. O MR é o presente (hoje). Saí é uma forma verbal que exprime um fato anterior ao MR; portanto, trata-se do passado do presente, exprimindo processo verbal concluído. Na nomenclatura gramatical, essa forma verbal do passado do presente recebe o nome de pretérito perfeito.

No segundo texto de Fernando Pessoa, temos: “Ontem à tarde um homem das cidades / Falava à porta da estalagem”.

O MR é o passado (ontem) e falava exprime ação concomitante ao MR; portanto, trata-se de um presente do passado. O processo verbal é apresentado em sua duração (aspectivo durativo). Na nomenclatura gramatical, esse tempo recebe o nome de pretérito imperfeito.

Uma conhecida música de Guilherme Arantes começa assim:

“Amanhã, será um lindo dia Da mais louca alegria / Que se possa imaginar.”

O MR está localizado no futuro (amanhã). Exprime um fato concomitante ao MR; portanto, temos um presente do futuro, que, na nomenclatura gramatical, recebe o nome de futuro do presente.

No português brasileiro, é comum o emprego de uma locução formada de verbo ir no presente seguido do infinitivo do verbo principal, no lugar do futuro do presente, sobretudo quando o acontecimento futuro é tido como certo, como em “Amanhã de manhã/ Vou pedir uma café pra nós dois”, da canção “Café da manhã”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Leia agora o trecho a seguir que foi extraído da obra “Crônica de uma morte anunciada”, de Gabriel García Márquez. Atente para as formas verbais, procurando identificar os MR.

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagadas de pássaros.”

No primeiro enunciado, temos a forma verbal matariam, que relata um fato futuro em relação a um MR instalado no passado (“levantou-se às 5h30min da manhã”). Portanto, é futuro do passado (ou futuro do pretérito, na nomeclatura gramatical). Levantou e chegava exprimem ações passadas, mas com uma diferença quanto ao aspecto dessa ações: em levantou temos uma ação dada como concluída, não interessando se durou um certo período de tempo ou não. Em chegava a ação expressa uma temporalidade interna, considerando um fragmento de tempo em que se desenrolou.

A forma verbal tinha sonhado exprime um fato concluído no passado, mas tendo como marco de referência um fato passado (levantou). Como podemos notar, tinha sonhado é passado do passado, sem marcação de tempo interno. Na nomenclatura gramatical, damos a esse tempo o nome de pretérito mais-que-perfeito. Nesse caso, emoregou-se a forma composta (tinha sonhado) que é usual que a forma simples (sonhara)

Em síntese: em função de um MR seja ele presente, passado ou futuro, teremos nove tempos verbais, conforme esquema abaixo.

MOMENTO DE REFERÊNCIA
PRESENTEPASSADOFUTURO
presentepassadofuturopresentepassadofuturopresentepassadofuturo

Ocorre que, em português, não há formas simples para exprimir alguns desse nove tempos, particularmente os que têm como MR o futuro. Nesse caso, recorre-se à correlação de tempos verbais.

Veja esse exemplo:  Quando estiver em São Paulo, almoçarei com você. A forma verbal almoçarei é forma do futuro, mas não do futuro do presente, mas é um futuro do futuro, pois indica fato posterior a outro fato futuro “quando estiver” (futuro do subjuntivo).

Comento a seguir alguns tempos a partir do momento de referência.

Suponha que o MR seja o presente, que é o mais comum, pois organizamos nossa fala em função do momento em que falamos (o agora). Então teremos, um tempo anterior ao presente e um posterior ao presente, ou seja, temos um passado do presente e um futuro do presente.  

O passado do presente é expresso pelo pretérito perfeito e pelo pretérito imperfeito. Vejamos cada um deles.

O pretérito perfeito do indicativo

A palavra perfeito provém do latim perfectum, cujo sentido é ‘feito inteiro’, ‘terminado’, ‘acabado’. O pretérito perfeito exprime, portanto, uma ação concluída, em relação ao momento em que se fala, ou seja, é um passado do presente. 

Ele chegou à escola às 7 horas.

A forma verbal chegou, pretérito perfeito simples, refere-se a um evento único localizado no passado do presente com os limites temporais delimitados. Houve uma ação (chegar) que teve um início e um final.

O pretérito perfeito composto, formado pelo verbo ter no presente do indicativo seguido do particípio do verbo principal (tenho cantado, tenho vendido, tenho partido), exprime ideia de continuidade ou repetição de fato passado que se aproxima do presente.

Eu tenho falado com frequência que não isso é inadmissível.

Tenho lido vários romances policiais.

O pretérito imperfeito do indicativo

O pretérito imperfeito exprime uma ação passada em relação ao momento em que se fala, ou seja, o presente; mas, ao contrário do pretérito perfeito, não a toma como terminada.

Ele chegava à escola às sete horas. 

Nesse exemplo, a forma verbal chegava não exprime um evento único limitado no tempo. Ao contrário, exprime um fato habitual.

Atente para o seguinte: tanto o pretérito perfeito quanto o pretérito imperfeito exprimem fato passado em relação ao momento em que se fala. Esses dois tempos são o passado do presente. A diferença entre eles não é de tempo, mas de aspecto. Enquanto no perfeito o fato é visto como concluído, no imperfeito, é visto como não concluído, exprimindo-o em sua duração.

O pretérito imperfeito exprime fato habitual; o perfeito exprime fato não habitual. Esse assunto é discutido no blogue no post Aspecto verbal.  Clique aqui para ler.

É comum também o uso do pretérito imperfeito para situar vagamente os acontecimentos no tempo passado: “Era uma vez duas pulguinhas que passaram a vida inteira economizando e compraram um cachorro só pra elas.” (Mário Quintana)

O pretérito mais-que-perfeito do indicativo

O pretérito mais-que-perfeito do indicativo, como o nome indica, exprime fato passado (pretérito) e o toma como concluído (perfeito). A diferença entre o perfeito e o mais-que-perfeito é que o segundo exprime uma ação passada em relação a uma outra ação também passada.

Quando Patrícia chegou à escola, Lúcia já chegara.

Chegara exprime uma ação passada (pretérito) de uma ação passada (chegou), ou seja, trata-se de um passado do passado. Tanto chegou quanto chegara exprimem ações concluídas.

O pretérito mais-que-perfeito simples (cantara, vendera, partira) é pouco usado, mesmo na variedade culta do português brasileiro. É mais frequente o uso do pretérito mais-que-perfeito composto (imperfeito do ter ou haver + particípio do verbo principal: tinha cantado, tinha vendido, tinha partido).

Quando Patrícia chegou à escola, Lúcia já tinha (ou havia) chegado.

O pretérito mais-que-perfeito também é usado em orações optativas, aquelas que usamos para exprimir um desejo: “Quem me dera, ao menos uma vez, / Como a mais bela tribo, dos mais belos índios, / Não ser atacado por ser inocente.” (Renato Russo)

O futuro do presente do indicativo

Exprime fato posterior ao momento em que se fala. 

Amanhã, ele entregará o relatório.

Como comentamos em post recente (clique aqui para ler), em diversas variedades do português brasileiro, inclusive na variedade culta, é comum o uso de uma locução formada de verbo ir no presente seguido do infinitivo do verbo principal para exprimir fato futuro. Pode-se chamar essa locução de futuro composto, de que exemplo verso de conhecida canção: “Amanhã de manhã vou pedir um café pra nós dois”.

O futuro do presente pode ser usado ainda para exprimir dúvida ou incerteza sobre fatos atuais (Será que vai haver segundo turno?) e com valor imperativo (Apertar os cintos. Não matarás).

O futuro do pretérito do indicativo

Como o próprio nome indica, é empregado para exprimir fato em relação a um acontecimento passado, ou seja, trata-se de um futuro do passado. O momento de referência (MR) não é o momento da enunciação, o agora, mas um marco temporal passado já instalado no texto.

Ontem ele me disse que amanhã entregaria o relatório.

A forma verbal entregaria exprime um fato futuro (amanhã) mas tomado em relação a um fato passado, disse (ontem).

O futuro do pretérito é empregado ainda

  1. Como expressão de cortesia, exprimindo desejo ou solicitação.

Você me emprestaria sua caneta para eu assinar o documento?

Eu queria um meio quilo de carne moída de primeira.

2. para exprimir dúvida ou incerteza sobre fatos passados

Naquela época, ele teria uns 40 anos.

Alguns autores insistem em chamar o futuro do pretérito de condicional. Essa nomenclatura já foi usada e, com razão, abandonada pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB).

Numa frase como Ele viajaria se tivesse dinheiro, há evidentemente ideia de condição, mas ela não é dada pela forma verbal viajaria, mas pela oração se tivesse dinheiro. Não é por acaso que essa oração é chamada oração subordinada adverbial condicional. O que viajaria expressa é um fato futuro dependente de condição, e não a condição em si.

Por fim, mas não menos importante, esclarecemos que empregar bem os tempos verbais implica situar o acontecimento no tempo em relação a um Momento de Referência (MR) que pode ser o momento que se fala, o presente, o agora, ou um um Momento de Referência já instalado no texto, seja ele passado ou futuro. Deve-se atentar ainda, como já assinalamos, que é comum – não é erro, portanto – empregar um tempo no lugar de outro e que certos tempos não apresentam, em português, uma forma. Nesse caso, recorre-se à correlação de tempos, usando advérbios para situar o acontecimento no tempo.

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