Louva-a-deusa?

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Com alguma frequência, recebo mensagens perguntando sobre o feminino de algumas palavras, especialmente de substantivos que dão nome a animais. São perguntas do tipo: “Professor, qual é o feminino de louva-a-deus?”. As perguntas se repetem, mudam apenas os animais: cupim, formiga, jacaré, tamanduá-bandeira, peixe-boi

Vamos lá à resposta. A língua portuguesa possui dois gêneros, o masculino e o feminino. Muito substantivos marcam a mudança de gênero pela desinência, por exemplo, porco / porca. Em outros, o radical da forma masculina e o da feminina são diferentes: cavalo / égua; carneiro / ovelha. Há ainda inúmeros substantivos que apresentam a mesma forma para o masculino e para o menino, como borboleta, jacaré, capivara, peixe etc. Atenção: borboleta e capivara são substantivos femininos ( a borboleta, a capivara), jacaré e peixe são substantivos masculinos (o jacaré, o peixe) e designam animais de ambos os sexos. Veja que gênero gramatical (masculino e feminino) não se confunde com sexo (macho e fêmea).

Você já parou para se perguntar por que, em alguns substantivos, se faz a distinção entre o macho e fêmea (boi / vaca) e em outros não (jacaré, macho ou fêmea)?

A resposta é simples: faz-se a diferença quando ela pode ser percebida por um observador comum (não um especialista, entomologista, ornitólogo etc.) ou quando ela for relevante ou necessária.

Existem as formas leão / leoa e pavão / pavoa porque uma pessoa comum pode distinguir o macho da fêmea. Existem as formas cavalo / égua, boi / vaca e abelha / zangão porque é relevante fazer a distinção entre o macho e a fêmea. Distingue-se a abelha do zangão porque é necessário. Macho e fêmea cumprem funções diferentes. O mesmo ocorre com boi e vaca. A vaca produz o leite; o boi não.

Quando uma pessoa comum observa um louva-a-deus (palavra masculina que não varia para fazer o plural) não sabe se o animal é macho ou fêmea, tampouco há alguma utilidade em se distinguir o sexo do animal, ao contrário do que ocorre em galo / galinha, por isso a língua tem formas diferentes para nomear galo e galinha, mas usa a mesma forma para designar o louva-a-deus macho ou fêmea. Questão de economia.

Isso mostra que saber o feminino de louva-a-deus, cupim, cavalo-marinho, foca, barata e outros animais é irrelevante. O mais irrelevante, no entanto, é alguns exames e concursos fazerem perguntas desse tipo em provas de português. Perguntar uma coisa dessas é um verdadeiro absurdo, porque se parte de uma concepção de ensino de língua retrógrada, anti-científica, inútil. Afinal, as formas linguísticas existem para produzir sentido. Fora disso, não há salvação.

Para ilustrar o que falei, recomendo a leitura de crônica de Rubem Braga, publicada há 67 anos, que transcrevo a seguir. Ela reproduz com muito mais sabedoria o que tentei dizer.

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?

O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Aliás, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.

Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.

Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não entristecer o homem.

Espero que uma velhice tranquila – no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).

Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua”. Mas acho que isso é exagero.

Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.

Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.

Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da “Última Hora” ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de “O Globo?”.

No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.

Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!

Rio, novembro, 1951
Texto extraído do livro “Ai de Ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.

2 Comentários


  1. Perfeito, Ernani, perfeito… E ainda aparecem aqueles pseudoletrados querendo se mostrar – em latim, e nem assim… Sempre me recordo do atualíssimo Gregório de Matos: “A cada canto um grande conselheiro, / Que nos quer governar cabana e vinha; / Não sabem governar sua cozinha, / E podem governar o mundo inteiro”. Um dia hão de entender que a língua é instrumento de comunicação, de união, não de submissão nem de humilhação.

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    1. É isso mesmo. O curioso é que tantos anos já se passaram desde os primeiros PCNs, discutiu-se tanto essa questão, artigos e livros foram publicados, congressos foram realizados e tem ainda gente enchendo a cabeça dos estudantes com bobagens desse tipo.

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