Maria dos Prazeres, um conto de Gabriel García Márquez

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Meu último livro publicado, O conto na sala de aula (Editora InterSaberes, 2017), escrito em parceria com Jessyca Pacheco, foi um dos que me deram mais satisfação em escrevê-lo. Foi um trabalho de pesquisa exaustivo, mas altamente recompensador. Passei um ano lendo diariamente todos os tipos de conto, dos mais variados autores, das  mais variadas épocas e nacionalidades. A ideia era que o livro apresentasse a maior diversidade de contos possível. Embora tenha gostado muito do resultado, fiquei com um sentimento enorme de frustração, porque Jessyca e eu tivemos de abrir mão de inúmeros contos que queríamos pôr no livro. Um deles foi o conto Maria dos Prazeres, de Gabriel García Márquez.

Este blogue, no entanto, me possibilita reparar a falta, pois posso aqui comentar contos que, infelizmente, não puderam entrar em O conto na sala de aula, por isso (desculpem-me o trocadilho) é com prazer que neste post falo de Maria dos Prazeres. Duas razões me fizeram eleger esse conto. A primeira é sua excepcional qualidade. A segunda (pode ser que eu esteja equivocado) é que os romances de Gabriel García Márquez são mais lidos e comentados que seus contos, o que dá a falsa a impressão de que Gabo é melhor nas narrativas longas que nas breves. Bobagem. Se você pensa dessa forma, corra ler os contos de Gabriel García Márquez e terá uma grata surpresa. Pode começar, por exemplo, por Doze contos peregrinos, livro em que está o conto Maria dos Prazeres. Vamos então a ele.

Doze contos peregrinos

O espaço da narrativa é Barcelona. O tempo, a época do ditador Franco. O conto tem um certo sabor brasileiro. A protagonista é Maria dos Prazeres, uma mulata brasileira de Manaus, com 76 anos da idade. Profissão: puta. Abro um parêntese: uma puta brasileira virou a cabeça de Pantaleón, personagem do livro Pantaleón e as visitadoras, de Mario Vargas Lhosa. Fecho o parêntese. A narrativa inicia quando Maria dos Prazeres recebe em sua casa um jovem vendedor de sepulturas. Maria tivera um sonho cujo significado para ela era sua própria morte e, por isso, queria deixar tudo pronto para quando a Indesejada das gentes chegasse, já que vivia sozinha, apenas em companhia de seu cão, Nui.

Como tinha medo de que sua sepultura fosse levada pelas chuvas, escolhera o cemitério de Montjuich para sua última morada. Abro outro parêntese. O cemitério de Montjuich fica num lugar elevado de Barcelona, o monte Montjuich. Fecho o parêntese. Logo na entrada do cemitério havia três túmulos de anarquistas em cujas lápides não constava nome algum, mas os visitantes sempre escreviam, com qualquer material, o nome dos anarquistas sepultados. Os vigias apagavam os nomes, mas no dia seguinte algum visitante se encarregava de escrever de novo.

Maria dos Prazeres tinha uma situação econômica estável (os anos de exercício diário da profissão lhe garantiram uma velhice tranquila). Semanalmente recebia a visita de um antigo cliente, o conde Cardona, com quem jantava e depois “faziam de cor um amor sedentário que deixava, nos dois, um sentimento de desastre”. Maria não fazia mais jus ao nome?

O grande medo de Maria era que, morrendo, ninguém fosse chorar sua morte no túmulo, por isso começou a treinar seu cão para ir sozinho ao cemitério para pranteá-la. Maria tomava a condução para o cemitério e o cão para lá se dirigia sozinho, chegando ofegante tempos depois. Numa dessas visitas ao seu túmulo, Maria dos Prazeres e seu cão foram surpreendidos por um enorme temporal e não conseguiam voltar para casa porque nem ônibus nem táxis paravam.

Nessa situação, passa por ela um belo automóvel cujo jovem motorista lhe oferece carona. Maria, a princípio, recusa, dizendo que mora longe, mas o rapaz insiste em levá-la para casa junto com o cão. Maria aceita a oferta e rumam para sua casa. Lá chegando, o motorista estaciona de forma que Maria desça sem se molhar e propõe a ela subir junto. Maria responde: Faça o que quiser. Começa a subir a escada com o coração batendo numa sensação de que fosse a morte chegando e ouve os passos atrás de si e percebe assombrada que seu sonho premonitório não era sua morte “e então compreendeu que havia valido a pena espetar tantos e tantos anos, e haver sofrido tanto na escuridão, mesmo que tivesse sido só para viver aquele instante”.

 

 

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