Memórias de um aprendiz de escritor

Tempo de leitura: 5 minutos

Neste post, falo de Memórias de um aprendiz de escritor, livro de Moacyr Scliar de apenas 62 páginas, com ilustrações de Eduardo Albini, publicado pela Companhia Editora Nacional com indicação na capa para um público a partir de 11 anos.  Como se depreende da palavra memórias presente no título, o livro tem caráter autobiográfico.

Nele, Scliar traz à tona acontecimentos pessoais, como o papel da família e da escola em sua formação, e acontecimentos históricos, como o golpe de 1964, que o levou a “escrever de uma forma mais alegórica e menos direta”. Os acontecimentos recuperados pela memória são aqueles que tiveram papel decisivo na sua formação como escritor.

O texto de Scliar, embora apresente no título a palavra memórias; na verdade, é um depoimento pessoal em que o autor recupera fatos passados relevantes para sua formação como escritor e como homem inserido num meio social, num determinado tempo histórico.  Os editores do livro também optaram por enquadrá-lo no gênero depoimento como se observa na apresentação que fazem do livro: “Este é um livro em forma de depoimento” (grifo nosso).

Ao narrar seu percurso desde a infância, o autor passa para o leitor uma mensagem importante: não se nasce escritor, torna-se escritor. Isso tem um aspecto muito importante no que diz respeito à leitura do livro na esfera escolar, na medida em que desmistifica a ideia que muitos alunos têm de que escrever bem é um dom inato e não fruto de um aprendizado.

O texto de Scliar apresenta os dois tipos de narrativa, a ficcional e a não ficcional, com predomínio da segunda. Isso já se depreende a partir do título. As narrativas ficcionais são encaixadas no texto não ficcional, o relato propriamente dito, que lhes serve de moldura.

Nos textos, o autor, além de comunicar algo, objetiva também convencê-lo de algo, ou seja, o autor, realiza não só um fazer-saber (intenção comunicativa), mas também um fazer-crer (intenção persuasiva). No caso do livro de Scliar, o fazer persuasivo é convencer o leitor de que ele também é capaz de se tornar um escritor. Nesse sentido, o livro tem um aspecto não apenas pedagógico, mas também motivador.

O leitor poderá concluir que, se Scliar pôde se transformar em autor e ser reconhecido como tal, ele também poderá. A ideia é boa e exemplar, sobretudo quando se percebe que grande parte dos alunos se sente desmotivada a escrever, muitas vezes por se julgar incapaz de produzir textos. Para que o objetivo do texto seja alcançado, o autor se vale de algumas estratégias textuais e discursivas.

Em Memórias de um aprendiz de escritor, o autor usa uma variedade da língua portuguesa que o leitor presumido deve conhecer. A linguagem de Scliar é direta, simples, com um vocabulário que se presume conhecido. Algumas palavras que porventura o leitor possa não conhecer têm seus sentidos explicitados em notas de rodapé.

O texto de Scliar se presta ainda para mostrar ao leitor que, na produção de textos, podemos optar por estratégias discursivas diferentes: deixar as marcas do enunciador no enunciado, narrando em 1ª pessoa (eu), simulando a enunciação, ou apagá-las, narrando em 3ª pessoa (ele). Uma não é melhor que a outra, pois cada uma delas cumpre um objetivo diferente, e isso está ligado aos efeitos de sentidos que se pretendem produzir.

Um texto apresenta várias camadas. Podemos compará-lo a uma cebola. A leitura é o processo pelo qual vamos descascando essa cebola. Começa-se pela casca que está mais à superfície (o plano da expressão) e vão-se tirando camadas para se chegar a conteúdos que estão mais “escondidos”. Essas oposições a que nos referimos (/bem vs. mal/ e /vida vs. morte/) pertencem às camadas mais profundas, portanto mais abstratas.

Se fizermos uma leitura em profundidade do texto de Scliar, veremos que ele é construído a partir de uma oposição fundamental, /ficção vs. realidade/. O texto apresenta trechos que remetem ao plano da realidade, o relato de sua trajetória de vida a partir da infância, e trechos que remetem ao plano da ficção, que o narrador encaixa no depoimento, as narrativas ficcionais, destacadas no livro pelo recurso gráfico do itálico.

Embora ficção e realidade se oponham pelo sentido, ao ler o texto de Scliar, vemos que esses temas não se excluem; pelo contrário, se imbricam. A ficção recria a realidade pela imaginação e permite compreendê-la melhor.

Ao narrar sua trajetória de escritor, Scliar destaca como os acontecimentos da realidade moldaram o escritor. Essa imbricação realidade e ficção pode ser observada em diversas passagens do livro.

O autor destaca que a ficção também alimenta a ficção. Seu depoimento começa pelo destaque dado às leituras ficcionais que fez e que lhe serviram para criar seus próprios textos ficcionais. Se a ficção se alimenta da realidade (a arte imita a vida), ela também alimenta a si própria, daí a importância da leitura para nos dotar da competência necessária para a produção de textos.

Blogue do Ernani Terra não apresenta propagandas ou anúncios e não tem qualquer patrocínio, em razão disso não gera qualquer receita, embora tenha despesas não pequenas para se manter no ar.

Você pode ajudar a manter o blogue funcionando, contribuindo com qualquer quantia. Basta fazer um PIX para a chave 37665430830 (conta no Bradesco de titularidade de Ernani Terra). 

Qualquer dúvida ou sugestão pode entrar em contato comigo usando o formulário de contato do blogue.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.