Metáfora só para maiores de 60

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Dia desses estava na fila do banco, quando uma mulher bastante gentil me disse que eu poderia ser atendido no caixa preferencial que dispõe de cadeiras para que se aguarde sentado a chamada. Agradeci a gentileza, mas disse que continuaria na fila dos simples mortais mesmo. Você poderia me perguntar: por que, podendo aguardar sentado e ser atendido preferencialmente, optou por ficar aguardando em pé na fila? Poderia também suspeitar de que eu sou masoquista, ou maníaco por filas. Não sou masoquista e, dentre as manias que eu tenho, não está a obsessão compulsiva a filas. Apenas não gostei da metáfora que havia no lugar reservado aos prioritários.

Metonímia e metáfora são figuras de retórica que consistem em se usar uma palavra para designar outra. Quando falamos, usamos muito essas figuras. Tudo bem que sem muita criatividade, mas usamos. Por exemplo: quando o rapaz apaixonado diz para a moça Você é um colírio para meus olhos, está usando uma metáfora. Quando a moça diz Amanhã vou completar 20 primaveras, está usando uma metonímia.

A diferença entre metáfora e metonímia reside no modo como um termo substitui o outro. Se a relação entre eles é de semelhança, temos metáfora. Sim, a metáfora é uma forma de comparação. Usa-se uma palavra no lugar de outra porque há entre elas uma relação de similaridade. Quando Mia Couto diz “A guerra é uma cobra que usa nossos próprios dentes para nos morder“, ele fez uso de uma metáfora, pois usou cobra para designar guerra.

Caso a relação entre os termos seja de proximidade, temos a metonímia. Num conto de Antônio de Alcântara Machado, em que ele fala de uma partida de futebol, encontramos a seguinte passagem “Camisas verdes e calções negros corriam, pulavam, chocavam-se, embaralhavam-se, caíam, contorcionavam-se, esfalfam-se, brigavam“. É evidente que não são as camisas e os calções que corriam, mas os jogadores. Camisas verdes e calções negros são metonímias. Tudo isso a gente aprende (ou deveria aprender) na escola.

Mas o que a gente não aprende (e deveria aprender) é que essas figuras estão presentes também em linguagens que não fazem uso da palavra. Em quase todos os lugares deparamo-nos com uma placa como essa.

Temos lá um cigarro cortado ao meio por uma faixa em diagonal, significando proibido fumar. Certo? Como diria J. Silvestre, absolutamente certo. Mas alguém poderia dizer que a placa informa que é proibido fumar cigarro e que, portanto, pode-se fumar charuto, cigarrilha, cachimbo, narguile e também Cannabis sativa, vulgo baseado. Claro que não se pode fumar nenhuma dessas coisas.

Temos na placa uma metonímia, pois se usou o específico, o cigarro, no lugar do geral (produtos que produzem fumaça e, no caso da Cannabis, um barato total). Por que se usou o cigarro e não o charuto, ou o baseado, por exemplo? Simplesmente porque naquele universo de coisas que produzem fumaça, o cigarro é o mais comum, portanto o mais apropriado para designar a totalidade. Caso se usasse o cachimbo, poderíamos entender que não se pode fumar cachimbo, mas que se pode fumar cigarros.

Você deve estar pensando que este texto não tem pé nem cabeça, ou que a cabeça deste escriba está cheia de fumaça, porque eu estava falando da fila do banco e comecei a falar de metáforas e metonímias. Calma! Chegou a hora de retomar o fio que deixei solto lá atrás e emendar um coisa com outra. Então, olhem bem a placa que vi no lugar destinado ao atendimento prioritário.

Em todas elas usa-se uma imagem para representar as pessoas que merecem o atendimento prioritário. Notem que essas imagens se fazem por metáfora (semelhança) ou metonímia (proximidade). O ícones com a mulher grávida e com a alguém segurando uma criança são metafóricos, pois guardam com o que representam relações de semelhança.

O ícone do cadeirante não deve ser lido como metáfora, mas como metonímia de pessoas portadoras de deficiência, pois não só apenas os cadeirantes têm direito a atendimento prioritário, mas também pessoas portadoras de outros tipos de deficiência como surdos e cegos. Mas o ícone que me chamou a atenção e com o qual a gentil senhora me associou foi este.

Ícone idoso

Trata-se de um ícone metafórico, pois guarda com o que supõe ser o referente uma relação de semelhança. Esse ícone é usado para informar que pessoas idosas têm atendimento prioritário e a lei define como idoso aquele com mais de 60 anos. Pois bem: embora eu tenha ultrapassado a barreira dos 60, não consigo me identificar com a figura usada para representar o que se convencionou chamar de idoso. Não uso bengala, não ando curvado de cabeça baixa, não padeço de dor no nervo ciático, tampouco tenho problemas de coluna. Aliás, gozo de perfeitíssima saúde física e mental, pratico atividades físicas regularmente, trabalho feito um mouro e ainda encontro tempo para namorar, portanto aquela metáfora não se aplica a mim. Não me sinto representado, portanto meu lugar é na fila comum.

Não encampo a bandeira do politicamente correto, mas se pregam que se deve usar idoso em vez de velho, porque o segundo é termo politicamente incorreto, que se crie um ícone que represente adequadamente as pessoas de mais de 60 anos, pois a metáfora foi muito mal escolhida. Não me representa.

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